Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Em nome desse filho....

À  Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.813 –  29 Novembro  1985

Em nome desse filho

 

Costumava sentar a menina no meu colo, e ajuda-la a descobrir o que víamos da janela. Em frente era a mata, e eu procurava contagia-la da minha paixão pelas árvores.

Um dia, morreu-lhe o Avô, e a criança, com os seus inteligentes cinco aninhos, ficou perturbada, por descobrir a morte, e logo assim, tão de perto!

Preocupada, a Mãe, pediu-me: - “Veja lá se é capaz de a fazer perceber”…

Sentamo-nos no lugar do costume e tentei…

-- Estás a ver o “nosso” plátano grande?

Vês que está quase sem folhas?

Lembras-te, na Primavera, quando ficávamos aqui a espreitar as folhinhas que apareciam?

Lembras-te que quase as víamos crescer?

Lembras-te como ficaram grandes e fortes depois?

--- A menina fixava-me calada, abanando a cabecinha a concordar.

-- Olha! – Continuei eu - na vida é assim como no Plátano. As pessoas aparecem e passam como a folhagem nos ramos:

Primeiro – frágeis, são como as crianças, depois fortes e vigorosas, como os teus pais – e por fim, amarelecidas e fracas como os teus Avós.

Mas, a Vida, está aí – grande e bela – com as pessoas a chegar, a ficar e a partir como folhas numa árvore.

É um pouco triste, às vezes – mas tem muita beleza; também, porque a seguir a cada Inverno vem outra Primavera. Agora, partiu o teu Avô – soltou-se a Vida como as folhas que o vento leva.

Os teus Pais são folhas verdes, grandes e fortes e tu – és a folhinha fresca e tenra, que vai crescer.

Quando tu fores folha grande serão os teus Pais folhas de Outono, como agora o teu Avô. Será a vez de eles partirem no tempo e tu crescida e linda, ficarás para teres folhinhas novas que hão-de ser os teus filhos.

--- A menina escutava-me em silêncio, e a pouco e pouco a expressão do seu olhar mudava e interessava-se e começou a sorrir. Porém, inesperadamente rodeou o meu pescoço num abracinho de ternura e disse-me aflita:

-- “Vá já a correr ter o seu filho!” – e, tinha lágrimas avolumando ainda mais os seus belos olhos cor de tabaco e mel.

 

Neste fim de tarde de Outono, com as árvores e os montes recortados em silhuetas no contra-luz dum rápido poente cheio de carmins, laranjas e amarelos quase irreais, como as cores das folhagens que se desprendem dos ramos - sinto no meu olhar o peso da consciência de saber que um vulcão, a que neves “eternas” davam o ar de profundo sono ou serena morte – acordou - terrível e magnifico e soterrou uma cidade viva.

Perdida a ordem das coisas a tristeza parece ter o tamanho da vida. Mas, em nome desse filho – que é a fé – com que cada ser humano terá que fecundar cada dia – fico como árvore quieta, que oculta raízes fixam à terra, de onde bebe a seiva que a percorre e alimenta – seja ela só tronco ou copa em flor – e acolho-me na noite que me envolve e me fala e me promete:

 

Todos os dias amanhecem

Crianças

Pássaros

Flores

-- Sobre a noite

Das crianças

Pássaros

E flores

Que já não amanhecem

Amanhecerá!

 

 

Maria José Rijo


publicado por Maria José Rijo às 23:09
| comentar | Favorito
partilhar
12 comentários:
De GUS a 29 de Julho de 2010 às 23:36
Querida Tia
Espero que as suas ferias tenham sido muito
boas e felizes.
O mar rejuvenesce a alma - traz-nos sabores,
oderes e visões que temos bem dentro de nós.
Comigo faz prodigios.

--
Artigo muito LINDO - e especial para uma entrada
depois de ferias.
Gostei muito da forma inteligente como
contou a essa criança - sobre a vida e morte -
Uma comparação muito linda e muito bem vista.
Especial e enternecedor .

Um beijinho enorme
do seu sobrinho

GUS


De maria José a 5 de Agosto de 2010 às 12:10
Querido Gus
Tanto tempo - que saudades!
Verdade que fui de férias e que agora regressei à base.
Como é evidente estou aqui - mas - sinto que muitas vezes nem sei muito bem por onde ando.
Não é fácil o ajuste à perda de Amigos, mas o caminho é m frente.
Esta menina de que contei essa pequena conversa, chamava-se Clarinha e dizia ao meu ouvido que o meu colo era manso. Penso que era por lhe falar baixinho e contar histórias.Foi um presente que recebi do céu quando vivia nas Caldas da Raínha.
Comecei a querer choramingar, e, afinal, só tenho que agradecer.
Fale de si. Conte! Falar ao ouvido pode ser falar ao coração. Adoça a vida
Beijinhos, muitos - tia Zé


De Aristeu a 29 de Julho de 2010 às 23:40
SEja muito bem vinda
Que artigo lindo para retomar a vida aqui
nestra sua e nossa casa.
Gostei imenso da forma como explicou- a essa
criança - a parte escura da vida. a morte é um
tema dificil para falar com as criancinhas.
Mas conseguiu e inteligentemente.
Os meus Parabens port mais este Bello artigo.
Um grande abraço
Espero que tenha tido uma ferias optimas eu
e a minha mulher fomos para a Madeira.
Uma maravilha.

Bem haja

Xavier Martins


De Maria José a 5 de Agosto de 2010 às 12:26
meus queridos Amigos
Toca-me o coração encontrar-vos sempre perto de mim ainda quando, como agora, faço ausências que não desejo, mas que não consigo vencer.
A verdade é que a vossa atitude me impele a não desistir, como por vezes me apetece- obrigada.
Vou pedi à Paulinha para vos mostrar que figurinha linda era esta criança inteligente e cheia de sensibilidade.
Vivia na nossa vizinhança e conheci-a chorando porque molhara o vestidinho que estava a usar. Então eu ofereci-me para ir comprar molas e po-la a secar pendurada no estendal para ela bailar com o vento.
Deu as gargalhadas mais divertidas que já ouvi e abraçou-me dizendo: que engraçada!
Ficamos amigas.
São estas as pequenas grandes coisas que a Vida ás vezes nos dá.
Um abraço - Maria José


De Aristeu a 30 de Julho de 2010 às 14:47
Minha querida tia
quem dera que houvesse alguem assim ... quando
morreram os meus avós paternos num acidente.
Tinha eu 6 anos. ... a vida é feita destas coisas...
Gostei imenso do artigo e fiquei emocionado com
a conversa que teve com a criança.
P A R A B E N S
E Obrigada

do seu
Aristeu


De Maria José a 5 de Agosto de 2010 às 12:41
Muito querido Aristeu
Que bom este reencontro.Já tinha mesmo saudades de saber de vós.
Também fiquei contente com o texto que a Paulinha escolheu.
Trouxe-me doces recordações. Esta menina de que falo,quase todos os dias ia estar comigo.Então viviamos na vivenda de Nossa Senhora do Populo, nas Caldas da Raínha, frente à mata. Passavam à nossa porta as crianças que frequentavam o Colégio ali perto. Um certo dia perguntei-lhe se ela quando crescesse queria também, andar no Colégio.
Pensou e muito séria respondeu-me: não ! quero andar no casamento.
E, o que é o casamento? sabes?
SEi - respondeu. É ter uma casa muito arrumada e uma mesa com uma grande jarra cheia de flores.
Qualquer dia as vossas princesinhas vão surpreender-vos com maravihas como estas que se pegam à nossa alma para a vida inteira.
Beijinhos e saudades da vossa tia Zé


De Flor do Cardo a 30 de Julho de 2010 às 15:09
Boa tarde
Gostei imenso, como não poderia deixar de ser.
Um artigo excelente. Confesso que não me
recordava deste artigo mas é uma maravilha.
Bem haja SEMPRE minha amiga por este seu blog.
É uma delicia ter acesso, assim, aos seus artigos
de anos e anos.
Sinceramente - estou-lhe muito grato.

--

E as ferias? Foram boas?
A Manta Rota está a mesma maravilha. Aquela
beleza intemporal, aquela praia enorme de4areias brancas.
Oh mas que saudades as minhas.

E o calor que por aí? Tenho ouvido as noticias e
estou parvo. Elvas era quente mas agora deve ser
de mais...
Tenha muito cuidado com o calor e ja andei mal
por causa dele.
Quando ia para o dentista (tenho varios dentes
de ouro) e o sol pegou-me o calor deixou-me
muito mal.
Tenha cuidado e cuide-se se ma faz esse favor.
Nas nossas idades todos os cuidados são poucos.

Aqui as nossas meninas estão em cada dia mais
lindas - crescidas e espertas. A mãe delas diz que
estão cheias de manhãs.
O Gilinho voltou para a fazenda e anda por lá a
trabalhar e trabalhar e mais trabalho... nem sequer
o vemos porque nem aparece nem telefona...
Mas está tudo bem.

Os nossos amigos por cá continuam e dizem que
não vão mais voltar para Portugal.
Coisas da vida !

Bem haja
Luciano


De Maria José a 5 de Agosto de 2010 às 13:05
Meu Amigo Luciano
Presumo que a sua saude está razoável, pois até teve paciência para aturar o dentista , visita que sempre faço a contragosto...
Realmente a manta -Rota é sempre aquele oasis!
Em contra-partida aqui a nossa querida Elvas, para não desmerecer da sua filiação alentejana, compete com as capitais de distrito e, ou as iguala, ou ganha no exagero de temperaturas a que nos submete.
Cá me vou defendendo, como compete ao que a sabedoria dos anos nos recomenda. Ora, como é lógico saio pouco, isolo-me mais e, se não fora a gata a pular e a fazer tropelias, e a música de fundo , a casa pareceria desabitada.
Mas cá vamos andando.
Penso muito no Gilinho, por quem tenho um pendor especial. Se lhe falar diga-lhe , por favor que lhe quero muito bem e que "não me lembro de não o conhecer".
Sorte dos vossos amigos conhecerem as Menininhas.
Será que ninguém aí tem vagar de me mandar pelo correio umas fotografias?
Não entendo. Nada na minha direcção tem segredos para vós .É só preguiça?
Saudades e um grande abraço da maria José


De DOLORES a 31 de Julho de 2010 às 14:27
Nossa querida tia
Gostei muito deste seu artigo.
Que explicação tão bem feita.
Realmente a tia é um ser lindo e querido.
Que bonita a conversa com a criança.
Adoramos.
Muitos Parabens.

-.
E as suas férias, foram boas???
Espero bem que sim. As nossas também foram.
Saimos com uns amigos e andamos a passear
por Paris.
Foi um passeio muito lindo.
A Magé está bem melhor e nós assim estamos
tão mais contentes.

.
Por favor tia
tenha cuidado com o calor. tenho visto aqui na
Tv que está um calor horrivel no alentejo.
Cuide-se por favor, não se deixe desidratar.
Gostamos muito de si.

Muitos beijinhos
~da sua familia em França

Dolores
Avelino e Magé


De Maria José a 5 de Agosto de 2010 às 13:17
Meus Queridos - saber-vos de saude é uma grande alegria.
Ainda bem que a Magé se vai criando e crescendo em bem.Que Nossa Senhora vos proteja sempre.
Fiquei muito contente por oAvelino ter ganho um prémio com a orquidia que criou.
Acho maravilhoso ter sensibilidade para sentir esse encantamento pelas flores.
As minhas, agora estão sem flores mas deram bastantes e são muito bonitas. O pior é que a gata , agora tem a mania de lhes abanar as folhas, e, embora sejam duras já rasgou uma.
Mas, sol na eira e chuva no nabal... não se consegue.
Muitas saudades e beijinhos para os tres aqui deste Alentejo cheio de luz estiraçado ao sol como um lagarto.
Beijinhos - tia Zé


De KIKO a 31 de Julho de 2010 às 14:31
OLáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Minha queridinha Tia Zé

E que tal de férias???
Espero que esteja bem. E a Kika??

Eu por aqui BEM - estou em Londres na casa de um
primo e estamos muito bem.
Agora vou para a piscina espantar o calor.


Adorei este seu artigo. Adorei a forma que usou
para explicar a morte.
20 valores. Bravo !

Milllllllllllllllllllll Beijinhossssssssssssssss

do seu
sobrinho

KIKOoooooo


De Maria José a 5 de Agosto de 2010 às 13:23
Oh viajante feliz! - que bom ser jovem e ter sabido merecer tão boas férias!
Quando leio os seus comentários , tão , tão, tão, ao jeito da sua juventude, para além dum sorriso que não consigo reprimir, só me apetece dizer ; - Viva o Kiko!
Viva! - beijinhos - tia Zé


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

. Cá Estou ... - 1

. OLÁ Dolores

. 2007 - 2017 = 10 º Aniver...

. ENCONTROS DE CIRCUNSTÂNCI...

. Recado para os Sobrinhos ...

. Saudades

. A Feira de São Mateus 201...

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@