Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Histórias com mezinhas e receitas - 1

Histórias com mezinhas e receitas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3096  11 de Novembro de 2010

 

 

Histórias com mezinhas e receitas - I

A sobremesa do Senhor General

 

As manas eram solteiras. Tinham ficado para tias, como ainda hoje se costuma dizer quando, numa família alguns elementos do sexo feminino não contraem matrimónio. Dispunham de algum rendimento e, como tinham casa própria, herança de seus Pais, subsistiam sem grandes percalços.

Tinham uma velha criada que as cuidava com amizade e quase poderia ser considerada herança de família, porque também já estava na casa quando a mais nova das manas nasceu.

 

Era gente de boa educação e bom-tom. Embora já fossem idosas eram tratadas por “as meninas”entre familiares, amigos e empregados. Até na rua onde sempre habitaram, desde o senhor da mercearia, ao carismático sapateiro da esquina que tudo sabia das vidas alheias por trabalhar com a banca na soleira da porta, eram referenciadas por: - as meninas da casa da  sacada grande.

Já ninguém se lembrava se haviam sido bonitas ou feias, ou sequer se haviam sido jovens. Havia muitos anos já que eram simplesmente “senhoras de idade”, ou, com alguma ternura: - “as velhotas”, como também eram designadas.

Em tempos, quando os pais viviam, saíam frequentemente de trem para passeios e visitas de circunstância. Agora, os amigos fieis que ainda conservavam, como “bens de herança”, uma ou outra vez, levavam-nas de automóvel a algumas festas de igreja, e, muito principalmente, a missas de aniversários, por alma dos que partiram…

À parte isso, pouco ou nada saiam de casa. Em contrapartida, continuavam, a receber para o chá, (como fazia a mamã) as visitas da casa, todas as quartas-feiras.

Então era um rememorar de lembranças, um evocar de histórias, tão cheias de pormenores que pareciam ser saboreadas com tanto deleite como os doces especialíssimos que sempre eram servidos quase com requintes de sadismo para uma assistência que vivia subordinada aos preceitos de dietas a que as maleitas crónicas impunham distância de açucares manteigas e ovos...

Afora isso, havia as datas de aniversários e festas de Natais e Páscoas em que os sobrinhos, compareciam, vindos de longe, talvez, mais em procura dos resquícios de memórias de infância que a casa e as velhas senhoras ainda configuravam do que qualquer outra fonte de prazer.

Então, as Tias aprimoravam-se. Voltavam a consultar os antigos livros, de receitas manuscritas, herdados de outras gerações, para reler o que há muito sabiam de cor e salteado mas a que a consulta dos velhos alfarrábios parecia emprestar um requinte especial.

Fulano gosta mais disto; beltrano, daquilo, evocavam. Fazemos tudo – decidiam! e que não falte a “barriga de freira “ para o senhor General, ajuntava a velha serva que o considerava o “meu menino” – tão brincalhão, tão divertido!

Então podes tu mesma faze-la – decidiam as manas e, entre as três

Recapitulavam a receita:

500 Gramas de açúcar - mais ou menos 5oo gramas de miolo de pão -18 gemas e mais 2oogramas de açúcar para o caramelo.

Esfarela-se o pão

Leva-se o açúcar ao lume até fazer ponto de pérola.

Introduz –se -lhe o pão para embeber a calda fervendo sem deixar queimar. Juntam-se as gemas, volta ao lume para as cozer deixando tostar levemente a mistura.

Deita-se o doce num prato raso – sem o alisar – e verte-se-lhe por cima o caramelo de forma irregular.

 

Tens que ter cuidado para tostar, sem que queime. Já sabes que o Senhor General, diz sempre que das barrigas de freira só gosta do tostadinho.

E, só de lembrar a graça coravam as três, pudicamente, dando em coro, pequenas gargalhadas guturais.

 

Maria José Rijo

 

estou: Histórias com receitas
música: Histórias com mezinhas e receitas

publicado por Maria José Rijo às 12:11
| comentar | Favorito
partilhar
10 comentários:
De Xavier Martins a 11 de Novembro de 2010 às 23:58
LIndo artigo.
Um texto tão intertessante.
Bem haja e Parabens por este post.
Também li no Jornal, é claro.
Vi que era o número 1 - o que quer dizer
que tem continuidade.
Gostei imenso.
Com amizade e admiração

Xavier Martins


De Maria José a 18 de Novembro de 2010 às 12:39
Meu bom amigo - nunca me cansarei de agradecer a sua presença e as considerações que este blog lhe tm merecido.
Na verdade este texto faz parte de uma pequena colectânea que se destinava a um livro.
Acontece que nunca tive jeito para lutar por qualquer coisa para mim, sempre isso me incomodava, e, como sabe, nada cai do céu. Decidi então oferecer o trabalho ao jornal e, creio que semana sim semana não, irão dando uma receita. Move-me acima de tudo o receio de que algumas delas se percam,porque são genuinas, aprendidas da boca das " bruxas" nas aldeias perdidas desse Alentejo profundo onde cresci.
Para mim são património,riqueza, testemunhos culturais que convém guardar.
Um abraço grande - maria José.


De Helena Ezequiel a 12 de Novembro de 2010 às 00:24
Lindo texto.
Sabes que gostei imenso de ter encontrado o
seu blog.
Gostei imenso das suas poesias.
Parabens

Com amizade
Helena Ezequiel


De Maria José a 18 de Novembro de 2010 às 12:44
Helena Ezequiel
Obrigada pela visita e pel apoio.
Não imagina como é "gostoso" para quem vive só aos oitenta e tantos sentir que ainda consegue ter algum préstimo , mesmo que seja apenas falando de alma.
Um abraço
maria José


De DOLOES a 14 de Novembro de 2010 às 00:15
Minha querida tia
A solidão é algo que não suporto...
Desculpe tantos dias de ausencia mas... o meu
Avelino está hospitalizado e está muito mal...
O pacemaker está com problemas ...
Nem sei o que pensar...

Tia gostei muito de ler este artigo.
quando o meu avelino voltar... se é que isso
vai acontecer... vou experimentar esta e
as próximas.
Muitos beijinhos
da sua sobrinha

DOLORES


De Maria José a 18 de Novembro de 2010 às 16:27
Mus Queridos - peço adeus que tudo tnhaevoluido para melhor e que já estejam de novo na vossa casinha sem mais preocupações.
Também não tenho pasado bem de saude, e, só por essa razão não vim mais ceo aqui falar um pouco com a minha querida Dolors.
E a Princezinha?- Tem estado com ela?
Acha que se tem adaptado bem?
Se puder conte-me qualquer coisa sobre isso.
Todos os dias a vossa angustia está no meu coração.
Saude e saudades.
Beijinhos tia Zé


De GUS a 14 de Novembro de 2010 às 18:41
Minha querida tia
que artigo bonito. Gosto do tema. Vai ser
uma boa colecção de artigos.
Os meus Parabens.
.

Desculpe a minha longa ausencia mas o trabalho
a casa, e todo o resto, ocupa demasiado o meu
tempo.
Esta semana vou estar mais atento. a minha
mulher foi passar uma semana à Russia por morte
de um familiar eu fico.
Tenho um novo cavalo - chamado Pégaso

é um cavalo alado símbolo da imortalidade. A sua figura é originária da mitologia grega, presente no mito de Perseu e Medusa. Pégaso nasceu do sangue de Medusa quando esta foi decapitada por Perseu. Havendo feito brotar com uma patada a fonte Hipocrene, tornou-se o símbolo da inspiração poética.

Achei também um nome interessante para
um cavalo.
Desta vez é um puro cavalo lusitano e é branco.
Muitos beijinhos tia

GUS


De Maria José a 18 de Novembro de 2010 às 16:44
Meu Querido - que mundo de coisas eu tinha para lhe dizer se este fosse o caminho certo para tal.
Por aqui a gente adivinha-se mais do que se conta.
Tanta alegrias que gostaria de partilhar nesta altura da sua Vida tão rica de emoções e esperanças. Como me apetecia imaginar a seu lado como o "nosso" Amigo Padre havia de sorrir com tanta notícia feliz.
Como gostava de perceber, se, como eu, agradece ao Santo Padre Pio esta reviravolta num caminho que chegou a não ter cor defenida.
Enfim! limitações que nos impôem estes meios sem "limitações".
Quero só dizer-lhe que fico feliz por si e que até gosto que o seu cavalo seja "lusitano" . É sem dúvida uma raça de elite.
Não tenho tido boa saude. Os anos fazem-se lembrar mais do que por vezes se desejaria...
Valem-me as presenças dos Amigos por qualquer forma que cheguem até mim.
Seja feliz! - Um beijo - tia Zé


De CILENE a 15 de Novembro de 2010 às 13:24
Minha queridissima Tia
Já estou em casa - sei que sabe onde estive.
Foi muito bom e o Aristeu foi muito querido porque
me ofereceu um retrato igual ao que ele tem na sal.
O dele é uma tela. O meu é uma foto da tela, mas eu
estou tão contente. Lindo o seu retrato. Só tinha
olhado ele, no seu blog.
Estou muito Feliz e gosto muito de si.
Beijinho no seu coração
da sua sobrinha e amiga
Cilene


De maria José a 18 de Novembro de 2010 às 16:56
Querida Cilene
Que bom saber de si!
Penso que a última vez que nos tinhamos comunicado ainda a sua Bébé mais nova não tinha nascido.
Veja quanto tempo!...
SE depois de duas filhas está tão elegante que passa modelos deve estar linda como dizem os nossos amigos, sempre foi e o seu marido deve viver muito feliz a seu lado.
Deus vos proteja. Como vê eu faço o seu retrato de memória enquanto a Cilene tem uma imagem de alguém que terei sido e não sou mais...
Beijinhos e os maiores desejos de a saber sempre feliz - Saudades tia Zé


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Parabéns Luciano

. CONVITE

. Cá Estou ... - 2

. CORAL PÚBLIA HORTÊNSIA DE...

. CRIANÇA - 1990

. Parabéns

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

. Cá Estou ... - 1

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@