Sábado, 18 de Dezembro de 2010

As talhadas de Santa Catarina - 3

Histórias com mezinhas e receitas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.100   - 9 de Dezembro de 2010    

As talhadas de Santa Catarina - 3

.

Fora um casal abastado. A casa, o trem, as criadas vestidas de negro com aventais de renda e crista, o cocheiro impecavelmente fardado, mostravam a olhos vistos o estrato social a que os patrões pertenciam.

Filhos não tiveram e todo o negócio de Bancos e Bolsa que sustentava os seus requintados hábitos era dirigido pelo marido exclusivamente.

Sem sobressaltos tudo corria de acordo com as normas e, já fora assim havia tanto tempo que parecia imutável.

Sem herdeiros directos e já se sentindo um pouco pesado de anos concordou o casal que chegara a altura de viver do rendimento do capital que aplicaram em títulos do tesouro.

Assim fizeram.

Entretanto, terminou a grande guerra e em 1929 só se falava da Crise Económica Mundial. Estava-se perante um mundo cheio de novidades que alteravam as certezas tidas como eternas até então.

Nos primeiros tempos ainda viajaram. Pouco. Mas, cedo se acomodaram ao rame-rame do dia a dia burguês na pequena cidade de província onde viviam a gosto.

Faziam e recebiam visitas, jogavam mahjong e bridge aos serões com os amigos e, algumas vezes, também tocavam piano e dançavam um pouco.

Frequentavam as festas do Clube, porque era de bom-tom comparecer, sem ter coragem para confessar que se aborreciam mortalmente.

Quanto a saídas, optaram apenas pelas temporadas nas Termas da Curía ou no Hotel do Buçaco. Ainda experimentaram o Luso, mas faltava-lhes lá o grupo. Desistiram.

 

 Entretanto uma inesperada e súbita doença desfez o casal. O marido morreu.

O mundo não parou, mas com a guerra, a desvalorização da moeda e uma série de acontecimentos que se precipitaram; o que parecera uma situação económica estável esvaiu-se como fumo quando os “títulos”, se tornaram apenas em “papeis”sem valor.

A breve trecho, discretamente, as jarras de vidro coalhado, as porcelanas, as louças da Companhia das Índias, as imagens de marfim, os quadros, tudo, foi aparecendo nas salas das amigas e, sempre transaccionado a preços de saldo. Dizendo-se beneméritas por adquirirem o que lhes não era necessário, espoliaram-na lentamente, numa tortura a que não soube – ou – não pôde fugir.

Alguns anos decorreram e até a casa de habitação passou a ser de renda e, na sala enorme, agora, quase só decorada com os retratos de família nas paredes, negro, polido, lustroso, restava o piano de cauda. Enorme, mudo, como que de luto por todo o passado era, agora, o “fiador” do aluguer.

 

Num dia a dia penoso em que, só os mais fieis, apareciam com alguns mimos, Senhora e Criada, Rainha e Aia, como Mãe e Filha, unidas como duas metades de uma mesma mágoa, vencendo o reumatismo e as artroses, repartindo, tudo, até as privações, rezavam, cultivavam flores e faziam por encomenda para vender, as “Talhadas de Santa Catarina” que tanto deliciavam as visitas noutros tempos (guardando ciosamente o segredo da receita) que a fiel servidora, só confiou – por carta - aos poucos amigos que nunca as abandonaram depois do falecimento da velha Senhora

 

Talhadas de Santa Catarina:

 

250 g – de açúcar

250g – de amêndoa

5 ovos (só duas claras) uma mão cheia de farinha, uma colher de canela e três tangerinas cristalizadas.

Tira-se a pele à amêndoa e os caroços às tangerinas e passam-se juntas pela máquina.

Põe-se o açúcar ao lume para tomar ponto baixo – após o que se lhe junta a amêndoa passada com as tangerinas. Mexe-se tudo muito bem e juntam-se-lhe os ovos depois a farinha mexendo tudo muito bem. Por último deita-se a canela.

Com a colher de pau e com uma faca experimenta-se se já se conseguem tender as talhadas que vão ao forno a tostar ligeiramente. Retiram-se então do tabuleiro e polvilham-se, ainda bem quentes, com açúcar e canela.

O formato é como de uma grande pétala de rosa com mais ou menos 8 centímetros de comprimento, e 4 na parte mais larga, terminando em bico, nas extremidades. Mais ou menos como se fossem broínhas de Natal.

 

Maria José Rijo

estou: Receitas e mezinhas
música: As talhadas de Santa Catarina - 3

publicado por Maria José Rijo às 19:18
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6 comentários:
De Xavier Martins a 18 de Dezembro de 2010 às 19:36
Minha Senhora
Esta sua - e nova - colecção de artigos
dá um livro especial e delicioso ao mesmo
tempo.
Eu e a minha mulher gostamos imenso dos
assuntos. Estamos a colecciona-los.
Os nossos Parabens.
Com amizade

Xavier martins


De Maria José a 23 de Dezembro de 2010 às 11:18
Meus queridos amigos
A melhor coisa que me pode acontecer por contar estas pequenas histórias é ganhar esta companhia espiritual que vai compensando a solidão que a idade acarreta.Gostaria de ter editado este livrinho, porque acho importante conservar o testemunho desta faceta social dos meios rurais de há setenta anos, mas já não tenho estaleca para aventuras e menos ainda coragem para me intrometer em meios cada vez mais afastados do meu dia a dia.
Boas -Festas e sempre, sempre a gratidão e amizade da
Maria José Rijo


De GUS a 18 de Dezembro de 2010 às 19:43
Minha querida tia
Sabe que gosto imenso destes artigos?
É verdade - porque além de nos contar histórias
- que penso serem verdadeiras - ainda nos
elucidam e nos dão belissimas receitas.
Não preciso de dizer que adoro esta sua
forma de contar - de nos levar - por esses
caminhos que os seus olhos vêm - ou viram.

Parabens tia.
Sabe - já tenho novamente um jardim japonês
e hei-de voltar a ter o que já se foi.
Dos cavalos - os gatos e mais o que der .
Vai ver que sim.
Sabe mandei fazer um busto do nosso amigo
padre - para o meu jardim e ja mandei fazer
um seu - de uma foto. Está em mãos do
artista.
Depois lhe conto.
Muitos beijinhos do
GUS


De Maria José a 23 de Dezembro de 2010 às 11:33
Meu querido Sobrinho
è sempre reconfortante encontra-lo por aqui pelo que gosto de si, e,também porque tenho muito em conta as suas opiniões.
Claro que sei como o tempo se esvai por entre os dedos, muito principalmente quando se vivem épocas felizes e, como se torna difícil fazer tudo quanto se deseja.
Longos. longos são os tempos de quem já pouco mais faz do que recordar. Daí que seja reconfortante com estas pequenas histórias - sempre assentes em factos, embora fantasiadas - ainda conseguir prender a atenção daqueles que trazemos no coração.
Conte! conte mais coisas felizes! faz-me bem sabe-lo contente
Beijinhos de Boas Festas da tia Zé


De DOLORES a 19 de Dezembro de 2010 às 17:28
Minha querida tia
Li e reli este artigo. Gostei muito e vou fazer a
receita - só espero seja capz e depois me fique bem.
Hoje estou muito contente.
A Magé foi uma queridinha - deu-me daqueles
abracinhos que a tia bem sabe - quais são.
Estamos os dois muito felizes - Foi a nossa prenda
de Natal. É que não esperavamos.

E a tia já está preparada para o NAtal?
Vai passar junto da tia BArbara - ou ela consigo.
Ainda bem - gosto de a saber junto da sua mana.
É muito triste passar o Natal sem a familia.
Tenha cuidado com os frios - aqui temos muita
neve - temos medo de cair e partir a perna.
Ah sabe que este Natal vamos assar o Babinho
é um porquinho lindo que criamos.
É a nossa ceia de Natal. Adoramos leitãozinhos
assados - Como sabe.

Muitos beijinhos tia querida.
Dolores e Avelino
Festas Felizes


De maria José a 23 de Dezembro de 2010 às 11:55
Meus queridos
Não imaginam como fiquei feliz ao saber que a Magé vos abraçou de todo o coração.
A cabecinha das crianças leva muito tempo a "digerir" o que de estranho acontece nas suas curtas vidas. Vão passar anos até que ela possa entender o porquê, até, do que terá sido melhor para ela.
Tenhamos fé e esperança que tudo irá correr bem.
Se chegar a fazer as talhadas depois diga se gostaram, eu recordo com muita saudade aquele gostinho de tangerina que sempre sobressaía do paladar da canela.
Como calculam vou sempre lendo os comentários com muita atenção e alegrou-me imenso que tenha surgido essa oportunidade do Avelino trabalhar no que mais gosta. Espero e desejo que tudo corra bem.
Este ano não passarei o Natal com minha Irmã. Nem ela nem eu estamos com saude que permita deslocações. Assim fica cada qual no seu canto com a prata da casa,é também por isso que atrazo tantas vezes a resposta aos comentários .Não é nada grave - graças a Deus - apenas peso de anos.
Beijinhos meus queridos da tia Zé



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