Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

O cuco e as tengarrinhas - 5

Jornal Linhas de Elvas

Nº  3.104   - de  6 de Janeiro de 2011   

Histórias com mezinhas e receitas

O cuco e as tengarrinhas - 5

 

Toda a vida a Palmira e a família trabalharam nos campos. Já assim haviam feito seus pais e avós – avozes – como ela sempre dizia, porque ainda que se lhe quisesse ensinar a palavra correcta, a resposta era inevitável frente a qualquer esclarecimento: - a gente sempre se entendeu falando à nossa “manêra”, não temos nada que ver com o que fala a gente fina.

Logo portanto, estava dito, e assente que não havia alteração possível, e, na verdade, ela, tudo quanto dizia era de forma peremptória para que não restassem quaisquer dúvidas e, alguém ousasse contradize-la.

Vestia sempre de negro, exibia esse sinal de viuvez como uma arma de arremesso e, também, como um título de nobreza. Por via disso, à mais pequena desconfiança de que não recebera as devidas atenções punha um ar muito compungido e fazia soar o seu lamento: -lá porque sou pobre e viúva!...ou: - têm que “sabéri” que “nã” se brinca com uma viúva, pr’a mais de certa idade!

 A agressividade dependia da categoria social do interlocutor, mas o gostinho de especular nunca lhe escapava.

Rezava muito, benzia-se frente ao que a aborrecia, ao que admirava, ao que a fazia rir, verdadeiramente, por tudo e por nada. Já não era nem fé, nem superstição, era um tique.

Usava penduradas ao pescoço, por um grosso fio de prata, como “escapulário” a “cruz da caravaca”e uma bolsinha de baeta muito puída onde, dizia, tinha as relíquias do “Santo Lenho” herança que já vinha dos “ avozes”

Não me lembro de a ver de cabeça descoberta e, assim, o lenço negro que lhe embiocava o rosto só deixava que se lhe visse um pouco  do cabelo, já mais branco que grisalho.

Compunha afinal a imagem comum das mulheres – sem idade – que faziam mandados, lavavam roupas, caiavam e prestavam esses serviços avulsos que lhes rendiam algum dinheiro que as salvasse da humilhação da indigência quando a segurança social ainda não se institucionalizara.

Também, como as mulheres desses tempos, sabia um sem número de mezinhas e benzeduras, conhecia as ervas boas para alimentar os coelhos e, muito principalmente aquelas que os pobres colhiam para matar a fome – e, que agora, estão na moda p’rós ricos – acrescentava com amarga ironia.

Pedi-lhe então que me arranjasse umas acelgas( espinafres silvestres) para fazer sopa de grão de bico só temperada de azeite, dentes de alho e folhas de louro com mistura de mogango partido em pequenos cubos para fazer o caldo grosso, como em criança eu adorava comer na aldeia de Santa Victória, onde andei na escola primária, lá para os lados de Beja.

As mulheres metiam tudo na panela de barro, ou de ferro, ao mesmo tempo e, ali ficava, à beira do lume de chão, fervendo devagarinho, devagarinho, (levando volta e meia  para não agarrar “bispo” mais “uma penguinha d’água”, até à hora da ceia em que  perfumada com um farto ramo de hortelã que incensava a cozinha inteira, quente, ainda fumegante, a panela vinha à mesa para a ceia da família.

Que sim senhora, que, a comadre tal, os apanhava para vender, e que eu estava servida. Lembrei-me, a talho de foice, de falar no meu apetite de saudade pela sopa de cozido de feijão com carnes e enchidos de porco e as saborosas tengarrinhas (cardos rasteiros que se ripam para os livrar dos picos e têm o paladar semelhante a

Alcachofras) que, para não deixarem o caldo negro, devem ser escaldadas com água a ferver, antes de serem cozinhados. Usam-se desde tempos ancestrais, por todo o Alentejo, migadas em pequenos troços, como mistura de sopas e cozidos, como se faz com o feijão verde.

Oh! Oh! - Se conhecia! – Mas, isso agora, já  não era possível.

Só para o ano! – Por mor do cuco, que já veio – já lhes cuspiu para cima, já endureceram. Esclareceu com a maior convicção!

P'ró ano, se me alembrar com tempo – arregalo-a, mas tem que ser antes do cuco cantar, aí por começos de Março.

E recitou como aprendera, em nova, uma quadra que os rapazes cantavam nos “balhos” do seu tempo…

Tengarrinhas são sadias

Cá por mim, eu gosto delas!

Em vendo moças bonitas

Não me quero apartar delas

 

 Maria José Rijo

estou: Hisórias com mezinhas -
música: e receitas - O cuco e as tengarrinhas - 5

publicado por Maria José Rijo às 11:11
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4 comentários:
De Xavier Martins a 6 de Janeiro de 2011 às 15:23
Nossa cara amiga MAria José
Gosto imenso deste conjunto de Histórias que
agora nos oferece.
Os nossos Parabens.
A minha mulher quer mesmo experimentar
as receitas. Depois diremos como sairam.

quero também aproveitar para desejar
um FELIZ ANO NOVO de 2011.
Que seja muito benigno na escrita para que aqui
o nosso blog preferido, seja capaz de dar conta
das actualizações.
Com amizade

XAvier MArtins


De DOLORES a 6 de Janeiro de 2011 às 23:46
Minha querida tia
adoro estes seus artigos. Esta nova colecção.
Adoro a forma como a tia coloca e conta
factos do seu conhecimento, da sua historia,
e vida.
Gosto muito .
Parabens.
Nós ca vamos com imenso frio. O Inverno
é bem rigoroso.
A tia tome cuidado consigo. Por favor.
Muitos beijinhos

DOLORES


De Manuel Marques a 7 de Janeiro de 2011 às 09:40
Excelente BLOG
artigos - poesias - imagens...
Gosto muito de andar por aqui.

OS meus PArabens

Manuel MArques


De SP a 12 de Janeiro de 2011 às 13:43
Santa Vitória... Bela aldeia. Terra da minha familia e meus amigos.


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