Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

A pomada para “os queimados” - 6

Jornal linhas de Elvas

Nº 3.106 de 20 Janeiro de 2011

Historias com receitas e mezinhas - 6

 

A pomada para “os queimados”

 

 

Miraldina conseguiu arranjar uma casa de família na cidade, para onde ir servir. Não foi fácil. Não conhecia por lá quem quer que fosse mas, uma tendeira que passava regularmente pela aldeia para vender roupas engraçou com ela e, depois de muita pedinchisse lá fez o jeito à rapariga.

Por ser a mais velha da irmandade, coubera-lhe naquela vida dura a pior fatia, fora ficando em casa para ajudar a criar os irmãos e, nem a escola conseguiu frequentar.

Aceitara a situação porque não via outro caminho e era jovem demais para recusar o que por ela decidiam. Afinal, era assim em todas as famílias da aldeia, que a isso obrigava a pobreza do meio, mas agora que a moçada já dava conta de si, pareceu-lhe a hora certa para se aventurar noutros mundos.

 

Chorou, berrou, “amarrou a burra, andou dias e dias de trombas, sem dar a salvação, nem ao pai, nem à mãe, levou porrada,” mas não cedeu.

Na aldeia todos sabem tudo da vida uns dos outros.

Tudo se comenta, todos dão palpites porém, se alguém conhece mezinha ou segredo da feitura do que quer que seja, então, aí a coisa muda de figura porque essa sabedoria é guardada avaramente até à morte.

Os priviligiados assumem a importância do conhecimento que os diferencia, prestam os serviços correspondentes aos seus conhecimentos, mas não ensinam as fórmulas.

Assim, preservam a importância que do saber lhes advém e fazem jus ao ditado que afirma:

“Do que o meu vizinho não sabe, o proveito me cabe.”

E, assim se vivia nas pequenas aldeias isoladas entre montados lá pelos anos trinta.

A maior parte da população nem sabia ler.

 As contas eram apontadas por risquinhos que somados davam o numero que se pretendia saber, fosse ele dos ovos que se haviam posto para aproveitar o choco de qualquer galinha, pata ou perua, fossem os dias em que levantavam da taberna o tabaco de onça, o pão, o café ou o açúcar fiados até novo ciclo de trabalho rural que permitisse pagar “os atrasados”

Todo o conhecimento da população, era mais ou menos empírico. Recorria-se à professora para ler alguma carta que surgisse e festejava-se a chegada para passar férias na aldeia dos filhos dos lavradores, que estudavam fora, como se fossem dias de nomeada.

 

Eles agitavam a pacatez ronceira dos dias de pobreza que se arrastavam ciclicamente. Vestiam de maneira diferente dos trabalhadores, dispunham de dinheiro falavam de coisas novas, riam, folgavam, faziam a diferença.

Às vezes por efeito do vinho e do desespero as brigas eclodiam como erupções incontroláveis. Muitas vezes no meio de murros e insultos aconteciam as facadas e aos gritos de: ponho-te as tripas ao sol, acudia a guarda que, montada, enquadrava o prevaricador a pé entre os cavalos e o conduzia humilhado e submisso até à cidade onde ficaria preso.

As mulheres choravam enquanto deitavam baldes de água para lavar o sangue que manchava o chão lamentavam a sorte dos feridos ou dos mortos que brigas com vinho, destapam os corações.

Miraldina fugiu a tudo isto e, porque teve a sorte de encontrar patrões que a trataram como família, a ensinaram a ler e a transformaram numa excelente cozinheira, ensinou como fazer a pomada dos queimados, cujo segredo vinha de gerações para acudir às escaldadelas que a preparação dos petiscos às vezes ocasionava.

 

Pomada para queimaduras

Fervem-se as cascas e os caroços dos marmelos numa boa porção de banha de porco até que a gordura frite na colher; o que acontece quando as cascas já estão negras e ressequidas.

Côa-se então o liquido obtido, que se guarda - e conserva durante anos – e se usa para sarar as queimaduras.

 

Maria José Rijo

 

 

 

 

 

*

 

 

algumas Imagens de:

Postais da colecção Trajes antigos do Alentejo
www.traje-antigo-alentejo.blogspot.com

estou: Pomada para os queimados- 6
música: Receitas com historias e mezinhas

publicado por Maria José Rijo às 10:25
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2 comentários:
De XAvier Martins a 20 de Janeiro de 2011 às 10:47
Oh que bom.
Regressou.
Já hoje comprei o Jornal - já tinha até lido o artigo
e vim ver se já cá estava. E estava.

Gostei imenso. Estas histórias são uma maravilha.
Os meus Parabens.
Com amizade

Xavier Martins

Espero que esteja bem de saude.


De Maria José a 25 de Janeiro de 2011 às 18:20
Meu bom amigo - pergunta pela minha saude - respondo confessando que cada vez acho mais cheios de sabedoria os ditados populares, especialmente o que afirma que em telhados velhos tudo são goteiras...
Não é que esteja mal, mas nunca se está muito bem com problemas de visão, como é o caso, mas vai passar. É só dar tempo ao tempo.
Um abraço grato
Maria josé Rijo


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