Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

As empadas para presentes - 7

Jornal Linhas de Elvas

Nº  3.110   -  17 de Fevereiro de  2011

Histórias com mezinhas e receitas

As empadas para presentes -  7

 

 

Os tempos eram diferentes. Quero dizer: - diferentes eram os hábitos, que os tempos, esses, sucedem-se como sempre, estação após estação sem alterações na ordem de sequência.

Saber fazer toda e qualquer tarefa dentro de uma casa era compromisso de honra de toda a mulher, até porque, valia como dogma que, quem não sabia fazer, não saberia mandar

 

Assim o conhecimento passava de gerações em gerações e, algumas especialidades eram tão características de certas famílias, quase como traços de feição.

Aquelas duas Senhoras que moravam mesmo em frente no outro lado da nossa rua, haviam sido modistas de chapéus.

A sua casa fora frequentada pela elite da época na cidade. O seu trato fino, a sua ascendência distinta, faziam que fossem elas a escolher de quais das suas freguesas aceitavam amizade e, não, o contrário.

Eu tinha acabado de casar. Tinha vinte e um anos. Estava habituada a tratar com toda a deferência as minhas velhas Tias e Avós e a sermos chamadas por elas, minha irmã e eu, por “as garotas” e, de repente ouvir aquelas duas Senhoras com idades como as delas a tratarem-me por senhora dona causava-me uma imparável vontade de rir.

Disfarçava o melhor que podia até que me fui adaptando num convívio que as enternecia pela diferença de idades entre nós, mas que me era grato e fácil pelos hábitos familiares.

Eu vinha à janela dizer adeus ao meu marido quando ele saía para trabalhar e elas assomavam à sua para quebrarem a sua solidão distraindo-se a falar comigo.

Foi assim, pelo coração, que entraram na minha vida e, eu, na delas.

Foi com elas que aprendi que a Rainha Senhora Dona Amélia quando vinha de visita a Elvas ia rezar à capela de Nossa Senhora da Conceição e mandava comprar ameixas na casa Guerra.

Foi assim que aprendi como era a cerimónia do fechar das Portas de Olivença (na nossa rua) a que na juventude ainda tinham assistido e contavam com uma riqueza de pormenores que para alem de ouvir, eu, julgava ver…

Foi assim que entrei no secreto encanto de Elvas com o conhecimento das pequenas minúcias, desse supérfluo que, como um perfume, ou uma flor embelezam a vida.  

Foi também assim que aprendi a confeccionar “as melhores empadas do mundo”feitas com requintes de paciência, por elas, para em festas e aniversários presentearem os amigos especiais.

 

Empadas de perua de campo

Depois de morta, limpa e arranjada leva-se a perua ao lume a cozer numa tigela de fogo (já curtida), coberta de água e com os seguintes temperos: - uns fartos ramos de salsa, salva e mangerona, uma xícara de café cheia de vinagre, bastante cebola cortada em rodelas, abundantes dentes de alho, um pouco de pimenta em grão, sal quanto baste e um bom naco de toucinho.

Deixa-se cozer bem. Tira-se então do lume e descansa no próprio molho até ao dia seguinte.

Volta então ao lume para descoalhar, sacodem-se os temperos retira-se a carne, côa-se o molho que se reserva e picam-se as carnes por cores, em montinhos. Isto é: peito para um lado, carne escura para outro, fígado e moela para outro e metade do toucinho para outro.

 Com banha de porco e uma parte do caldo e farinha de trigo, faz-se uma massa tenra.

 

Com ela se forram as formas, de preferência de copo.

Com a metade restante do toucinho pisado com salsa fresca, picada faz-se um creme com o qual se unta por dentro a massa que forra cada uma das forminhas que só então se enchem com um pouco de cada uma das qualidades do picado – peito, carne escura, fígado, pele e um quadradinho de toucinho, para que todas tenham de tudo no recheio.

 

 Levam então uma colherinha do caldo da cozedura e são tapadas com rodelas de massa tendo no centro uma abertura feita com um dedal que permite fazer a adição de um pouco mais de molho aquecido quando as empadas vão à mesa.

Cozem em forno esperto, com as tampinhas pinceladas com gema de ovo.

 

Permito-me publicar, com esta receita e história verdadeiras, numa sentida homenagem de saudade uma fotografia das duas queridas senhoras cuja terna lembrança me tem acompanhado ao longo destes 64 anos.

 

       Maria José Rijo

 

Nota – tigela de fogo é uma espécie de alguidar em barro, próprio para cozinhar em lume de lenha. Considera-se curtido depois de ter ido ao lume, barrado com uma gordura e uma mistura de água e leite para ferver e curtir, para não deixar, posteriormente, gosto de barro nos alimentos.

 

estou: As empadas para presente

publicado por Maria José Rijo às 00:16
| comentar | Favorito
partilhar
6 comentários:
De Xavier MArtins a 20 de Fevereiro de 2011 às 16:10
Um excelente artigo.
Já o tinha dito e agora repito.

Os meus Parabens por esta série.
Gostamos bastante.

Com amizade e dedicação
Xavier Martins


De Dolores e Avelino a 20 de Fevereiro de 2011 às 16:12
Temos de experimentar
estas deliciosas empadas.

Que maravilha.
Gosto bastante desta nova colecção de artigos.
Os meus Parabens pela lembrança.

A nossa e sua também a Magé está um encanto.
Parece mesmo a minha filha.
Estamos muito comovidos.

E a tia está melhor dos olhinhos???
Espero que sim - cuide-se por favor.

Mil beijinhos

Dolores e Avelino


De KIKO a 20 de Fevereiro de 2011 às 16:14
Tiaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Tiazinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa Kida
nem imagina que me deu uma vontade
de comer empadinhas - não destas MAS
fui a uma pastelaria comprar - claro.
Nem imagina a vontade de uma empadinha.
Já comiiii !!

Muitos beijinhos tiazinha Kida

do seu KIKOOOooooooooo


Ah
e a Kika - tá boinha???
um Kiss pa ela.

e muitos pa si





De Maria José a 27 de Fevereiro de 2011 às 18:57
Meu querido Kiko
mas que sorte as empadas terem-lhe aberto o apetite.
O que faria se fossem mesmo as desta receita, que, garanto são uma delícia.
Pergunta por dona Kika! - para lhe dizer a verdade parece ter mais de macaca do que de gata. Anda por cima de tudo.Sobe para estantes e armários com uma rapidez incrível.Em boa verdade às vezes é problema.Mas, como diz o povo quem se sujeita a amar sujeita-se a padecer...
E, alem de meiga é linda.
Como tudo na vida tem seu lado bom e menos bom..
Os seus estudos vão bem?
Fico sempre feliz quando sei dos seus êxitos.
Um beijinho grande da tia Zé


De poetaporkedeusker a 21 de Fevereiro de 2011 às 15:18
Desta vez, penso que irei conseguir deixar o comentário nestas empadas de deliciosa aparência... digo que penso consegui-lo deixar porque o blog me abriu a janelinha sem qualquer dificuldade. Não fazia a menor ideia do que fosse uma "tigela de fogo"... nem mesmo tendo tido um pai - neste caso era o meu pai - que era um apaixonado pela loiça de barro e que parecia saber tudo e mais alguma coisa acerca dela.
Espero, do fundo do coração, que esta Primavera que, a medo, vai espreitando, lhe traga dias de muita saúde e felicidade!
Enorme abraço!


De eva a 25 de Fevereiro de 2011 às 13:30
Querida amiga - permita-me o termo que, neste mundo virtual pode parecer de fácil expressão mas que, no meu caso, é tão real como se a conhecesse pessoalmente - o seu carinho deixa-me sem palavras. Tomara eu ser aquela pessoa que descreve. Tenho pela sua escrita e pela sua pessoa grande admiração e bem pena tive de não conseguir visitar a sua exposição mas paciência, admirei-a de longe graças à boa vontade da Paula que teve a amabilidade de nos dar a conhecer um pouco através do blog.
A Maria José não só um exemplo de bem escrever mas também de sensibilidade pessoal e artística raras de encontrar.
Mais uma vez lhe agradeço por tudo o que nos oferta e à Paula pela dedicação a este blog
Bem hajam!


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 53 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
21
22
23

24
27
28
29
30


.posts recentes

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@