Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Com a prata da casa - 8

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.112   de  3 de Março de 2011       

Histórias com mezinhas e receitas - 8

Com a prata da casa

 

 

 

Na primeira metade do século XX (reporto-me aos anos trinta) no Baixo Alentejo, até os lavradores mais abonados, ainda, não possuíam automóveis. Quando o primeiro deles, quebrou a pasmaceira da aldeia com essa novidade a garotada de pé descalço corria perseguindo-o e vaiando: “ olha o gato mole! O gato mole! Expressão que mais tarde trocariam por “artenóve”!

As deslocações, faziam-se então, a cavalo nas visitas às herdades, por caminhos e veredas traçadas pelo vaivém de quem tinha que percorrer essas distâncias. Havia depois as estradas rurais por onde os trens, os carros de canudo, as carrinhas e as charretes, mais ou menos aos solavancos, faziam o transporte de pessoas. Para as tarefas das lavouras como carregar sacas de cereais, ou as escultóricas carradas de molhos de trigo, erguidas com precisão geométrica e “fechadas a um molho” dispunham das carroças puxadas pelas fieis bestas de carga – machos e mulas…

As carreiras de camionetas para transporte de passageiros, pela sua raridade, eram, como que, motivo de festa e ajuntamento de pessoal, pela curiosidade e pelo movimento que provocavam.

Até os poetas populares celebravam em versos, que depois eram cantados nos “balhos” esses grandes acontecimentos:

“Já temos mercado novo

Estrada nova, alcatroada

“Caminete da carrêra”

Falta a “engreja” amanhada!”

As distâncias maiores, não obstante, eram percorridas em comboios ronceiros, que queimavam hulha e carvão de coque e, que, de estação para estação comunicavam entre si, por telégrafo,em morse. Parachegar às estações, utilizavam-se os carros, ou caminhava-se a pé, conforme as posses de cada um…

Os mancebos iam fazer a tropa, nas cidades, capitais de distrito, e as famílias e namoradas, ficavam nas estações a cantar e a acenar com lenços.

 

“Lá vai o “camboio” lá vai-Lá vai ele a “assobiari”

Lá vai o mê belo amôri-Para a vida “mulitari”

Para a vida “mulitari”-Para aquela triste vida

Lá vai o “camboio” lá vai,- Lá vai lá ele na subida.”

E, lá ia, cada qual, levando às costas a sua bela taleiga feita pelas mãos hábeis de mães ou namoradas, em tecidos “enrameados,” de cores vistosas, com suas enormes borlas vermelhas aos cantos, a balouçar, contendo uma ou duas mudas de roupa interior e “alguns mimos para comer enganando a solidão”

Nesses tempos que tornavam as distâncias em lonjuras, sempre havia nos montes e lugares ermos, velhotas, “as comadres”, que faziam partos e mezinhas com que tentavam, quanto possível, suprir a dificuldade de ir a um médico, quanto mais em adquirir remédios de farmácia.

 

Então, com a prata da casa, qualquer “entendida” fabricava um tónico para velhos e crianças, ou para quem dele necessitasse.

 Receita:

Lave seis ovos frescos e coloque-os dentro de uma tigela de louça.

Sobre eles esprema o sumo de seis limões, e deixe ficar de um dia para o outro.

Ao outro dia os ovos não têm casca porque o ácido do limão gastou o cálcio. Abra então os ovos junte-os ao sumo de limão e bata-os muito bem misturando também um bom cálice de vinho do Porto, um naco de marmelada e um pouco de canela.

Toma-se em jejum ou, como reforço das refeições um copinho de cada vez.

Se a “maleita” fosse só fraqueza de ossos ou atraso na dentição, então, quando se tirava o pão do forno, aproveitava-se o resto do calor para torrar, em tabuleiros de folha de lata, as cascas dos ovos que se iam sempre juntado e, num almofariz, eram pisadas e reduzidas a pó fino, que depois de repartido e embrulhado em papelinhos como mortalhas de cigarros, em pequenas doses, se haviam de tomar, dia a dia com um copo de água em jejum ou diluídos numa colher de sopa às refeições.

 

 

Maria José Rijo

 

estou: Receitas e mezinhas - 8
música: Com a prata da casa

publicado por Maria José Rijo às 10:46
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8 comentários:
De xavier Martins a 3 de Março de 2011 às 22:22
Mais uma história desta colecção fantastica.
Já lçi no Jornal e acabei de ler aqui novamente.
Os meus Parabens.
também gosto muito das Paginas de Diário,
mais pequenas mas igualmente belas.
Os meus Parabens - mais uma vez.
Um bom Carnaval.
Com muita amizade

Xavier martins


ah é para dizer que amanhã vou para Italia
veneza ver o Carnaval.
Vai ser fantastico.
estamos muito emocionados.

Um abraço

Xavier martins


De Maria josé a 6 de Março de 2011 às 15:01
Queridos Amigos
Que a viagem seja boa e tão feliz a visita a Veneza que dela guardem as melhores recordações
Coincidência curiosa - é em Veneza que vive o meu sobrinho Gus . Tantas vezes, em espirito, aqui, neste blog, nos temos encontradoe, no entanto, podeis passar lado a lado sem que disso qualquer de vós se dê conta.
Bom Carnaval! - Se o meu coração me fosse mais fiel, a Veneza, eu voltaria certamente.
Um abraço - Maria José


De Dolores e Avelino a 3 de Março de 2011 às 22:28
Minha querida tia
As suas empadinhas são uma maravilha.
Estive a fazer esta semana.
Não fiz com essas formas que não tinha, claro,
mas tentei fazer tudo tal e qual.
O meu avelino adorou.
Sabe lembro-me tanto - quando a minha filha
descobriu o seu blog - e por cá - encontrou
as suas colecções de receitas - acredite - fez
todas - ela umas e eu outras.
Provamos tudo-
escuzado é dizer que ela tirou cópias e claro,
fez livros de receitas.
Ainda os tenho aqui comigo. Uma maravilha.
A minha filha era muito habilidoza.
Mas... então... nunca nos esquecemos dela.

E hoje - outra historia.
Também gostei muito. Parabens
Ah tia nuinca mais fez nenhuma pagina de
diário. Achei tão bonitas.
Parece que essas falam um pouco mais de si.
Já estou esperando por outra.
A segunda.

Tia que tenha um bom carnaval.
Nós este fim de semana vamos a Paris com os novos
pais da nossa neta.
Convidaram-nos.
Estamos contentes.

Muitos beijinhos tia
Fique bem.

Dolores e Avelino


De Maria José a 6 de Março de 2011 às 15:12
Meus queridos
A minha alegria pela boa relação que têm com a nova família da vossa querida neta é uma das coisas boas que me aquece o coração.
Obrigada por me contarem.
Fiquei contente por saber que já provou as empadas.
Agora já muito raramente as faço porque uma novidade em mim é a preguiça que me invade quando penso fazer seja o que for para além das minhas rotinas. Porém, se feitas a preceito, essas empadas são na verdade deliciosas.
Ainda bem que gostou.
Beijinhos tia zé


De Flor do Cardo a 3 de Março de 2011 às 22:37
Olá amiga Maria José
Já deve de estar a pensar que morri - já faz tempo
que ningém diz nada.
Mas não é nada disso - é que estivemos na fazenda
com o Gilinho porque ele gritou-nos que os
bébés iam nascer - imagine...
Mas ainda não era - falso alarme
mas tudo tem um qu~e.
a rapariga queria montar a cavalo porque queria-
então ele - e a amiga lembra-se do que
aconteceu da outra vez...
Bom tivemos de aparecer todos para que ela
não fizesse o que tanto queria.
Ora bem - com uma barriga que não via os pés
a querer montar a cavalo - de loucos acredite.
Um susto, uma arrelia desgraçada.
Agora tudo está mais calmo mas vão os dois
desfilar vestidos de D. Pedro e Inês de Castro.
Nem imagina o rigor dos faqtos e o dinheirão
que gastou - mas olhe ficam lindos - bem - se
ela não tivesse aquele barrigão - mas então...
deixe ver se não vão, as meninas - nascer no meio
daqueles bailes todos.
Uma imprudencia.

Depois lhe conto.
Comigo tudo ok - agora parece que tenho 18 anos
sinto-me perfeitamente.
E consigo está tudo melhor? E os olhos?
Trate disso - cuide-se .
Com grande admiração

Luciano


De Maria José a 6 de Março de 2011 às 15:39
Minha Gente Querida
Se é verdade que às vezes me preocupam, não é menos verdade que essa vida de família cheia de acontecimentos inesperados me diverte e, confesso o meu pecado: me dá um pouco de inveja.
Hoje, domingo de Carnaval, por exemplo, aqui estou eu, com a minha gata, sentada à brazeira, num socêgo de pasmaceira, apenas tirando algum conforto nestas pequenas conversas com os meus amigos.
Ora, diga lá: não é preferível que uma garota grávida ponha tudo em movimento com a ameaça de ir montar a cavalo?
Já pensou como tudo se resolveu em bem e como foi bom ter uma família para tocar a reunir?
Pessoalmente nunca esqueço a casa de meus Pais, com minhas tias, e minhas Avós sempre a darem opiniões e conselhos. Hoje reconheço como isso devia ser precioso para as suas vidas já sem outras obrigações.
De mim poderei dizer como no poema de Camões:- perdigão perdeu a pena não há mal que lhe não venha...
Já tenho a operação marcada pois garantem que é a catarata que agrava a visão de duas imagens.
Acredito e confio, porém para me divertir partiu-se-me um dente da frente.Deve ser para me rir de mim própria,e não levar a sério as pequenas contrariedades, o que faço sem esforço, creiam.
Agora uma pergunta indiscreta: - o Luciano não tem por aí um retratinho das "princesinhas" para me mandar?
Sabem onde moro, porquê, então?
Um abraço enorme e um beijo para todos - tia Zé


De GUS a 4 de Março de 2011 às 23:08
Minha querida Tia
Daqui de Veneza - um grande GRANDE beijinho
e um abraço bem apertado - nesta quadra tão
emotiva - e digo emotiva por estar nesta casa
linda onde cresci - onde fui feliz - e agora é a
minha casa - como sabe.
Esta quadra é cheia de saudades - a minha
saudosa tia divertia-se e fazia grandes festas
cá em casa - no salão de baile.
Não dou festas este ano - a saudade é bem
maior e a solidão - este ano - mão dá para
festas ...
Sei que me entende.
Espero que os seus olhos estejam melhores.
Cuide-se por favor.
Estou a construir novo jardim Japonês - com
muitas arvores Sakura. as cerejeiras do japão.
Lindas e perfeitas.

Sinto imensa - imensa falta dos seus poemas.

Beijinhos tia

GUS


De Maria José a 6 de Março de 2011 às 16:09
Gus, meu querido
Não tenho ,de momento, poemas para oferecer.
Ultimamente andei por aqui a revolver pastas de papelada e actualizei alguns escritos que ainda me diziam qualquer coisa. Há mais, mas na verdade,a saude dos meus olhos não tem ajudado. Por outro lado cada dia que passa me preocupam mais os meus livros,os meus trabalhos, estas coisas a que quero bem e fazem tanto parte de mim que me custa vê-las sem destino
Agora até me aflige pensar na kika. Está tão mimada, tão dona do seu lindo nariz que não vejo que alguém mais a ature.
Às sete horas, sete e meia, vai acordar-me para lhe abrir a porta da varanda e "baixinho conversa" tanto, tão ao meu ouvido que é impossível resistir-lhe.
Aliás segue os meus passos como uma sombra.
Aqui tem , meu querido como a sua velha tia vive a sua solidão "povoada"de saudades, lembranças e sonhos. Um deles conhece, era ve-lo de verdade, nesse jardim onde as fontes cantam e as cerejeiras dão perfume e cor. Eu passo e digo apenas: olá!
O Gus, pousa o livro,que lia, sorri e diz: estava à sua espera. Então eu abraço-o.
Como vê, já aconteceu. É só uma questão de fechar os olhos e acreditar.
Beijinhos Tia Zé


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