Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Histórias com mezinhas e receitas - 14

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.127 - 16 de Junho de 2011

Histórias com mezinhas e receitas - 14

O xarém

 

Uma das comidas mais conhecidas do Algarve é o xarém.

Afinal, xarém, é apenas a designação árabe dessa comida vulgar mas muito apetitosa que são as papas de milho.

 

Minha Mãe era algarvia o que me proporcionou desde criança um conhecimento, posso dizer, íntimo, com alguns usos e costumes dessa região, porque observados ou, vividos em família.

Recordo, muito pequena ainda, de ter estranhado, numa propriedade de uma das minhas tias, ver dar pratinhos de milho e outros cereais de esmola aos pobres que, naqueles tempos assediavam montes e povoados.

 

 

 

Lembro-me de perguntar porque davam às pessoas comida de galinhas e, de me explicarem que um pouco daqui, outro pouco dali, juntariam milho para moer para as papas, ou cereais para venda ou troca por outros produtos.

Afinal o milho equivalia, como base de alimentação, ao pão que, naco por naco, no Alentejo, permitia aos pobres juntar para as sopas da açorda.

Hoje, o xarém , tem cotação alta em restaurantes e casas típicas.

Hoje, o milho já se vende moído, pronto para o petisco que da mesa do pobre passou a iguaria digna de mesa requintada.

 

No Algarve, de há mais de meio século, em todas as casas havia para aparar a farinha, um “caparão” (cesta de empreita que as mulheres entrançavam com palma, que colhiam no campo, abriam, molhavam e manuseavam com sabedoria. No caso, uma espécie de esteira redonda com cerca de sessenta centímetros de diâmetro com bordos baixos) onde se colocavam as pequenas mós com as quais, em cada casa se moía dia a dia o milho necessário para as papas que eram a base da alimentação popular.

 

 

A forma da confecção era: - um pouco de banha de porco, água e quando morna, em chuva, a farinha, para não encaroçar, um pouco de sal, deixar ferver mexendo sempre, e acrescentar a água necessária, a pouco e pouco até cozer a farinha e adquirir a consistência necessária.

Assim se davam as papas às crianças com mel ou açúcar por cima, e assim se comiam com peixe frito, charrinho limado, com torresmos, ou sem acompanhamento conforme a bolsa do consumidor.

Entretanto, tal como a açorda no Alentejo, as papas subiram de estatuto e vulgarizaram-se também as formas mais requintadas de as confeccionar

“Xarém com baile de roda”

 

Faz-se um refogado de cebola com um dentinho de alho em azeite ou banha de porco. Junta-se-lhe água de cozer as conquilhas, ou as amêijoas e, ou, qualquer outro marisco – ou vários -  morna, não quente, então, mexendo sempre, junta-se a farinha em chuva e vai ao lume continuando sempre a mexer, para não criar grumos até a farinha estar cozida, retira-se então do lume, juntam-se os miolos das conquilhas, amêijoas ou o que for, e bastantes coentros picados, mistura-se bem e assim vai à mesa.

Em certas regiões do Algarve não tiram a casca às amêijoas e porque vão, ao comer colocando as cascas em redor da borda do prato, dizem: - xarém com baile de roda.

 

Nota: convém coar sempre a água da cozedura do marisco para evitar meter areia…

 

          Maria José Rijo

estou: Xarém
música: Histórias com mezinhas e receitas - 14

publicado por Maria José Rijo às 16:05
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3 comentários:
De Xavier MArtins a 16 de Junho de 2011 às 23:41
Excelente D. Maria José
Gosto imenso desta sua colecção.
É muito interessante.
Amanhã vai ser o nosso almoço. Disse a minha
mulher depois de ler.

Um grande abraço
Xavier Martins


De Alexandrina Silva a 17 de Junho de 2011 às 01:04
Parabens
Adoro o seu blog

Com amizade

alexandrina Silva


De Dolores a 18 de Junho de 2011 às 15:41
Olá boa tarde minha tia
Ca estamos com nova receita.
Esta eu já tinha ouvido falar mas não fazia ideia
da receita.
Muito obrigado por ela e hoje quero muito
contar-lhe uma belissima novidade.
Os "pais" da nossa menina foram recrutados
para trabalhar numa clinica imensa em Paris por
serem uns optimos medicos pelo que para o mês
que vem vão de mala e cuia para a nova casa e
a tia acredita que eles compraram um apartamento
grande a contar com este seu casal amigo???
Pois dizem que não nos querem separados da nossa
menina que a cada dia está mais parecida
com a mãe - por vezes até dói olhar para ela - pela
enorme semelhança que tem com a minha filha.
Estou tão contente que nem tenho palavras para
descrever o que , eu e o meu Avelino sentimos -
2 velhos sozinhos no mundo - só com esta menina.
Foi Deus que nos ajudou.
Conte também à Tia Barbara sei que ela ficará
também contente com esta novidade
Ah e ainda mais - parece que o apartamento tem
um jardinzinho - é uma cobertura - para que o
Avelino possa continuar a cuidar das orquideas
Nem sei o que pensar...
Deus nos ajude...
Muitos beijinhos minha tia querida

Dolores


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