Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

CONVERSA DE VIZINHOS...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.058 – 31 de Agosto de 1990

Á Lá Minute

Conversa de vizinhos

 

Dizia alguém, que ouvi, com muito fina ironia, que Portugal desde o 25 de Abril é, sem dúvida, o país que tem “produzido” mais políticos por metro quadrado.

Não consegui deixar de sorrir e de pensar se esta repentina erupção iria suplantar, ou já suplantou a nossa romântica queda para a rima e nos condenaria a perder o título de “pais de poetas”.

Depois ocorreu-me outra faceta nossa muito peculiar - a de sermos tão convictamente como os brasileiros – “um país de doutores”

Penso que há doutores com tanta profusão que já são acarinhados com diminutivos – para facilitar o trato – por “sotor” e “sotora”.

Em Coimbra, até era uso os carregadores de malas perguntarem às pessoas à chegada dos comboios: “O Senhor Doutor é caixeiro viajante?”.

Mas, em boa verdade, se somos assim irónicos e bem dispostos, somos, também, muito mais.

Somos parte de um povo engenhoso, inventivo e sábio que diz com segura dignidade a sua opinião sobre assuntos, por vezes polémicos, desde que a sofrida vivência de um dia a dia de consciente entrega, o tenha levado, embora empiricamente, a esse saber de experiência feito.

 

Sentada à porta, olhos perdidos na imensidade do horizonte, a minha vizinha Clemência, evocando a aprendizagem de vida dos seus oitenta anos dizia-me com convicção:

“Antigamente, a gente tinha os filhos, acareava-os ao peito. Arrimava-os à gente, dava-lhes de mamar. Levava-os para todo o lado nos braços, aconchegados no xaile.

As crianças até conheciam a gente pelo cheiro, como os bichos.

Agora, as crianças nem sabem de quem são. Mal nascem, vão para os infantários. Não conhecem os braços das mães.

Andam de carrinho. Mamam no biberão. Andam de mão em mão. Não têm dono, nem sabem a quem hão-de querer.

Depois, as mães choram e dizem que os filhos as desprezam.

O que é que esperavam?

Os meus não me querem aqui deixar. A toda a hora me vêm buscar, e os netos também. É uma luta para ficar uns dias aqui na minha casa.

Criei aqui os meus filhos. Pouco mais tenho do que o que veio comigo quando casei.

Nunca trabalhei para comprar tabaco, ir ao café, nem para camas de bilros e luxo.

Ensinei os meus a trabalhar e a trabalhar para se governarem.

Faço a minha lida. À tarde vejo um pouco de televisão. À noitinha sento-me à porta a gozar do fresco e entretenho-me a pensar coisas da vida.

Isto tem mudado muito…”

 

Os costumes, sim. A alma do povo – não!

 

Maria José Rijo

estou:

publicado por Maria José Rijo às 17:01
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1 comentário:
De Xavier MArtins a 16 de Agosto de 2011 às 10:17
Mais um bello post.
Já disse outras vezes que gosto muitos das
A La Minutes.
Tem aqui uma boa colecção de artigos.
O que esta senhora diz é realmente assim e cada
vez é mais o que acontece.
As vidas são assim - agora.
Juromenha é uma povoação de gente boa e a
paisagem é belissima.

Parabens opor mais este artigo.
Com admiração

Xavier Martins


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