Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Entrevista - Dezembro de 2011

Entrevista

29 de Dezembro de 2011

Jornal Linhas de Elvas Nº 3.155

 

 

Costumes gastronómicos de Natal

À mesa todos fizeram por manter as suas tradições

 

A crise não impediu que os portugueses cumprissem as tradições
gastronómicas do Natal, com as vendas de bacalhau, frutos secos e doces a irem
ao encontro das expectativas do comércio tradicional.

O Linhas quis saber quais são as tradições de Natal junto de
quatro entrevistados que aceitaram o repto lançado de partilhar com os nossos
leitores quais são os seus costumes familiares, os gostos gastronómicos e as
diferenças de um Natal vivido na sua terra natal ou, em contrapartida, na
cidade onde residem há largas décadas.

Do norte ao Alentejo ou de Elvas à Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
foram percursos únicos contados na primeira pessoa, sobretudo, com base nas
recordações de infância que lembraram histórias felizes, de dificuldades e até
daquele anseio pela chegada do Menino Jesus ou do Pai Natal.

 

 

 

Maria José Rijo, 85 anos

“Peru era um mártir no Natal nos lares abastados”

 

O quente da salamandra afasta por momentos o Inverno, que acaba de chegar,

e a companhia fiel da poetisa Maria José Rijo, a gata Kika, haveria de escutar,

descansada, na sala da residência onde revisitámos o Natal de outros tempos.

Maria José Rijo nasceu em Moura, mas foi na Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
onde cresceu e melhor se recorda da época natalícia e das tradições
gastronómicas vividas no Baixo Alentejo.

 

“Em qualquer uma destas terras, especialmente nas casas abastadas, o peru
era um mártir no Natal, mas noutros lares era o frango ou a galinha que pagava
as favas porque o peru era muito caro”, conta-nos.

Naquele tempo já o arroz doce, os sonhos, as filhós e os pastéis

com recheio de abóbora ou de batata doce acompanhavam o espírito

natalício da época – hoje completamente diferente daquele tempo.

“Agora fala-se imediatamente em Natal e as pessoas enlouquecem com as
compras quando no meu tempo não era assim. Compravam-se os chocolates para dar
às crianças, éramos miúdas nesse tempo – a minha irmã, os meus primos e eu – e
aquilo que recebíamos eram os chocolates, uma ou outra peça de vestuário mais
bonita, que iria servir à mais velha, e depois passava pelas outras todas”,
refere Maria José Rijo.

Na quadra festiva organizavam-se pequenas récitas de Natal ao estilo de
curtas peças de teatro, “algo ingénuas”, assentes numa poesia de João de Deus,
que a mãe da poetisa sabia de cor.

“Ensaiavam-nos umas coisinhas para nós encantarmos as visitas e para isso
contribuíam também a roupinha a par dos lacinhos na cabeça que nos faziam ficar
muito bem compostas”, disse.

No Baixo Alentejo desde sempre que à mesa existem as comuns fatias
douradas e os nogados. Em Beja, por exemplo, os nogados fazem-se com amêndoa e
mel, sendo depois colocados em cima de folhas de laranjeira, conferindo “um
certo perfume e requinte de beleza”, parecendo-se com “pequenos rebuçados”,descreve.

 

Mas, tal como explica Maria José Rijo, na gastronomia de hoje “o coração
das coisas é o mesmo mas por fora exagera-se no doce, esquecendo-me daquilo a
que estava habituada, ou seja, dos bolos puros. Compram-se mais coisas feitas e
vive-se, sobretudo, para o efeito visual”, justifica a experiente poetisa.

As diferenças para a sociedade de hoje são consideráveis, pois se naquele
tempo as tabletes de chocolates com uma pequena nota colocada por debaixo de
uma fita satisfazia o desejo da pequenada, hoje o quarto dos petizes mais se
assemelham a uma loja de brinquedos.

“Todas as crianças tinham um mealheiro e ninguém dispunha do dinheiro sem
perguntar aos pais, que nos aconselhavam a guardar, o que, por um lado, nos
ensinava a suster o impulso de gastar em detrimento de juntar para algo
melhor”, sublinha.

 

Para Maria José Rijo, os mais novos estão hoje “afogadas em excesso, o que julgo

ser altamente deformador do carácter de qualquer criança. É impossível que qualquer

criança cresça com sentido de justiça e com senso do que é essencial ou supérfluo

quando tudo lhes é dado de uma só vez e, por isso, estão afogados em desejos e

caprichos sem tom nem som”.

 

O Natal, este ano, tal como no ano passado, foi passado na companhia da
Kika, a fiel gatinha de Maria José Rijo, que por ser gata não merece ser
traída” nesta altura só pela sua condição animal quando no restante período do
ano “vive aqui só, não passeia e está sozinha comigo”.

Da família, que se disponibilizou a vir buscá-la no Natal, recebe
telefonemas com frequência, mas, como explica a poetisa, “eles compreendem que
preciso da minha comodidade, do meu canto, do meu sossego até porque a saúde já
não me permite grandes avarias”.

Para este período ainda contagiado pelo Natal e numa altura em que se
aproxima o novo ano, Maria José Rijo sugere que “cada um deve olhar para dentro
de si próprio e fazer uma certa introspecção à procura do sentido das coisas e
da coragem para fazer o que se pensa que está certo”.

estou: entrevista
música: Costumes gastronómicos de Natal

publicado por Maria José Rijo às 20:45
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5 comentários:
De Aristeu a 12 de Janeiro de 2012 às 20:17
Olá tia
Gostei da sua entrevista - como sempre adoro
a forma como fala do passado - como o conta.
Espero que este 2012 seja nuito bom para si,
com muita saude e rico em prosa e poesia - para
nos deliciar.

Oh tia o meu Pai fala de um programa de Poesia
que a tia fez para a radio - não podemos ... nem
sei ouvir? - ver aqui escrito ???
Nem sei se estou a falar bem ou mal - deve de
ser dificil fazer um blog - eu não sei...
Mas ele diz que era muito bonito e bom -
não se recorda do nome - mas ouviu todos e cada
um dos programas.
Veja se nos pode oferecer essa maravilha.

Beijinhos


Aristeu


De Maria José a 21 de Janeiro de 2012 às 14:57
Muito Querido Aristeu - ando há tanto tempo longe do que me pede o coração que até me envergonho de mim. Mas, paciência, não é fácil a adaptação "à nova dinâmica" como se diz agora, até porque neste caso a adaptação seriá à apatia.
Ficar horas quieta a pensar, lembrando vida já vivida ou, ainda sonhando hipóteses de fazer qualquer coisa diferente, ainda me acontece, porém, a novidade é que adormeço sem saír do marasmo e, cada dia termina com mais um pouco de desalento.
Estou muito longe da família e,nas circunstâncias em que se vive agora no País torna-se difícil para quem tem filhos pequenos e obrigações constantes fazer até Elvas aquelas visitinhas fugidias que mantinham a chama.Acho que o meu mal é apenas distância, ou, melhor: distâncias...
Peço que esta mensagem seja também para meu bom amigo Luciano e para o querido Gilinho para ver se assim consigo por mais ou menos em ordem este meu correio.
Seu pai tem razão no que se refere ao programa de poesia, chamou-se "Ponto de Partida" penso que a Paulinha também o tem nos seus arquivos e pensa, quando puder po-lo no blog. O que acontece é que ela tem em casa duas tias inválidas, tem o trabalho e, só a sua muita amizade e paciência lhe permitem gastar tanto tempo comigo, tanto mais que ela tem a paixão da fotografia como se pode ver no seu próprio blog.
Não fora isso e quem sabe se já teriamos arranjado um detective para descobrir a vossa morada e irmos aí conhecer essas menininhas - que nem em retrato vimos - etc. etc. etc...
No véspera do dia de Nossa Senhora da Conceição estivemos na igreja em vila- Viçosa - rezei por vós todos e fui ao tumulo de Florbela que estava cheio de arranjos florais maravilhosos.
Neste momento acabei de ler no último exemplar da revista "Callípolé"o papel importante que o Senhor Cónego Alegria teve em toda a controvérsia que rodeou a sua obra.
Fiquei estarrecida. às vezes aos grandes homens não falta saber - talvez até sobre! - o que falta é ino cência
Obrigada por não terem desistido de aparecer, apesar dos meus silêncios
Beijinhos para todo e saudades .
Que este ano vos traga tudo de bom
Um abraço - tia Zé


De Dolores a 12 de Janeiro de 2012 às 21:11
Olá Tiazinha
FELIZ ANO NOVO - espero que tenha entrado
com o pé direito neste novo ano.
Nós cá estamos na Graça de Deus -felizes e
contentes.... até tenho medo de o dizer - não o
diabo tece-las - como se costuma dizer.
Nossa querida tia
Adoramos a sua entrevista e a sua foto está
muito linda. Lindos 85 anos.
A sua Kika é uma maravilha de bichano - é tão
fofinha e até o pelo parece macio.

Obrigado tia por nos mostar aqui as suas
recordações do que era antigamente o Natal
hoje em dia tudo se está a perder.
Enfim... é a vida...
Muitos beijinhos tia

Dolores


De Maria José a 21 de Janeiro de 2012 às 15:17
Meus queridos sobrinhos
Como tudo mudou!
Não é que nos esqueçamos uns dos outros! - sabemos bem que não é isso! - mas é o ritmo da vida a impor regras diferentes.
Felizmente, graças a Deus que têm a vossa neta por perto que a vêem crescer com saude.
O tempo corre e, qualquer dia já ela será uma mulherzinha.
A minha companhia é esta beleza de gata que a paulinha vai mostrando de vez em quando, porém, criou-se aqui uma situação em que não sou eu que tenho uma gata, é ela que me tem a mim como prisioneira. Segue-me como uma sombra e senta-se na minha frente , miando miudinho como se estivesse a conversar e a pedir-me contas se me afasto muito tempo.
Resumindo: arranjei uma "patroa" exigente.
Que este novo ano vos traga tudo de bom e vos dê saude.
Era bom ter-vos por perto, mas a vida é como é...
Beijinhos grandes e um abraço da tia Zé


De eva a 13 de Janeiro de 2012 às 19:18
E que a sua sugestão seja interiorizada por todos os que a lerem.
E que 2012 nos continue a trazer os seus textos e lhe traga saúde e muitas felicidades.


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