Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Ponto de Partida - I Emissão

I Emissão

                   

            Qualquer coisa – um quase nada - é - tantas vezes ponto de partida para um sonho novo, um trabalho diferente, um projecto, uma esperança, um remorso até!

        Qualquer coisa, ou quase nada, é - ás vezes, quantas vezes, ponto de partida para evocar uma paisagem, uma frase, um amigo, um momento vivido - um poema...

         ... Que fale de poesia me pediram.

         Que sei eu de poesia que todos não saibam.

         Não tenho trunfos na manga – não sou mágico - não posso fazer milagres, nem me posso escudar em diplomas que me autorizem a saber seja o que for.

         Mesmo assim, não me escuso.

         Aceito o “Ponto de partida”.

.

             Nada – nadinha mesmo - sabia de Poesia, a velha Carolina e, quando numa noite quente de fins de Abril o perfume das glicínias inundava o meu quarto - ela - que descansava o corpo moído de pobrezas e fadigas duma vida inteira - sentada no tapete como bicho fiel - ela, que só podia recordar abandonos, canseiras de apanhos de azeitonas, de mondas  e de ceifas, tarefas humildes e penosas, raivas e desesperos - ela que de alegrias - a que mais lembrava era nunca lhe ter faltado trabalho para matar o corpo, (como confessava). Com os seus pequenos e espertos olhos azuis semicerrados de gozo murmurou na sua voz cantada - sorvendo o ar com avidez beata:

    “ Há-de ser por isso que chamam-lhe ” delicinia” nã é Senhora?”

    E, perante o meu silêncio comovido e atento – concluiu:

    “ mêmo p’rós  pobres cum`a  mim viver é bonito!”

         Sem rima – sem métrica – sem preocupações de correcções morfológicas ou sintácticas. Só por um nada – uma coisa vulgar – sem importância.

        Será que não tem importância?!

        Só pelo aroma duma glicínia em flor - da boca desdentada duma velha, curtida pelo trabalho - como da boca duma criança que nada se sabe e tudo pode esperar - um poema de amor à vida.

        Chamava-se Carolina Malheiros, era analfabeta, nascera em Alter e repousa no cemitério de Elvas.

       É pois com um instintivo amor à vida – como o dela, com a mesma coragem de quem não sabe – mas sente - que faço desta bela  recordação que evoco em  sua memória o meu Ponto de Partida para falar de poesia.

       De resto – versos são como música - ficam-nos no ouvido aqueles que nos deleitam!

Não sei a quem atribuir a paternidade deste pensamento – nem sequer sei, também, quem foi o autor da bela quadra popular que retenho na memória:

 

Uma quadra é conseguir

Em quatro versos somente

Dizer o nosso sentir

No sentir de toda a gente

 

          Ficou-me no ouvido – como a outros fica a nota alegre dum assobio, o refrão da cantiga que alguém trauteou à sua beira, o choro da criança que se escutou por detrás  da porta fechada, um olhar de namorado... Um sorriso.

            Coisas pequenas – pequenos nadas que tocam a nossa sensibilidade e a afagam, a ferem, a despertam e se agarram a nós como versos soltos dum poema. Tudo quanto nos cerca, aliás, mais ou menos faz parte de nós. Fica em nós.

            Comigo até é engraçado. Sobressalto-me de dia e acordo de noite se o relógio pára, de tal modo o seu pulsar faz parte do meu ambiente. E, todos - elvenses pelo nascimento ou pelo coração, quantos pequenos nadas do dia a dia da nossa cidade temos  amalgamados em nós? Senão vejamos:

         Quantos não sentimos ainda um arrepio de mal-estar ao olhar a Igreja do Senhor Jesus da Piedade privada da companhia dos plátanos que roçavam os sinos e certamente molhavam raízes na pia de água benta. (não me canso de o pensar!)

 

 É tudo como a saúde – sabe-se quanto vale quando se perde!

 

      ... E, se de repente nos faltassem as glicínias debruadas em lilás, na alvorada da Primavera - por tudo quanto resta ainda de muro de horta, portais de quintal ou varanda antiga.

      E... se se apagasse o florir quase incandescente das velhas olaias do jardim por esse tempo?

      No entanto quantos de nós olhamos de verdade, defendemos de verdade as nossas árvores de cada dia - as árvores da nossa terra? E, elas aí estão - florindo para nós, respirando para nós - dando sombra para nós- inteiramente confiadas à nossa responsabilidade, ao nosso amor.

      Ao desrespeito - aos maus tratos tantas vezes - quando os românticos de pacotilha ou os inconscientes, de canivete em punho lhes esfaqueiam os troncos para gravar datas inúteis, corações, atentando contra as suas vidas como os fadistas de viela no Bairro Alto faziam às amantes dementados pelo vinho no tempo da Severa. Irracionalmente!

 

      E, não me perguntem o que tem isto a ver com poesia.

      Por muito pouca importância que se ligue à Poesia, ninguém desconhece o muito que a Poesia se liga à vida.

       Chamo aqui à lembrança de todos a presença de Florbela Espanca que nos diz em soneto:

 

 

          São mortos os que nunca acreditaram

          Que esta vida é somente uma passagem,

          Um atalho sombrio, uma paisagem

          Onde os nossos sentidos se poisaram.

 

          São mortos os que nunca alevantaram

          De entre escombros a Torre de Menagem

          Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,

         E os que não riram, e os que não choraram.

         Que Deus faça de mim, quando eu morrer,

         Quando eu partir para o País da Luz,

         A sombra calma de um entardecer,

 

         Tombando em doces pregas de mortalha,

         Sobre o teu corpo heróico posto em cruz,

         Na solidão dum campo de batalha!

        

        Penso que só uma Alentejana – um poeta do Alentejo podia captar esta força e ao mesmo tempo encontrar esta suavidade que a faz escrever: a sombra calma dum entardecer tombando em doces pregas de mortalha...

 

         Da mesma matriz é filha a inspiração que a fez fixar em árvores do Alentejo.

 

                  A planície é um brasido… e, torturadas,

                      As árvores sangrentas, revoltadas,

                      Gritam a Deus a benção duma fonte!

                   

             Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso Verão ao ponto de sentir terra abrasada se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso a sombra calma do entardecer tombando em doces pregas de mortalha.

Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso verão, ao ponto de se sentir terra abrasada - se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso:

E a sombra calma do entardecer quando António Sardinha o poeta Alentejano de Monforte

              Escreveu na sua:

 

      

Vesperal

 Se eu te pintasse, posta na tardinha,

 Pintava-te num fundo cor de olaia,

 -Na mão suspensa, nessa mão que é minha,

 O lenço fino acompanhando a saia!

                       

 Vejo-te assim, ó asa de andorinha,

 Em ar de infanta que perdeu a aia,

 Envolta numa luz que te acarinha,

 -Na luz que desfalece e que desmaia!

                       

 Com teu encanto os dias me adamasques,

 Linda menina ingénua de Velasquez

 A flutuar num mar de seda e renda.

                       

 Deixa cair dos lábios de medronho

 A perfumada voz do nosso sonho,

 Mas tão baixinho que só eu entenda!

 

           Não se vê, não se palpa que foi através do Amor que dedicava a Elvas, sua terra de eleição – que foi através da vivência íntima do homem sensível, do escritor atento que era com tudo quanto o cercava, e nos cerca que esse poema pode acontecer?

            Julgo poder afirmar que foi respirando o perfume das glicínias e dos lilases da sua Quinta do Bispo “ que foi a refrescar-se à sombra da Nora alta ou do majestoso plátano, que toda Elvas conhece...

          Que foi sentindo como é gostosa a cor das olaias em flor...

            Que foi tendo o próprio sangue carregado de tudo isto que é parte da nossa vida e é Elvas de parte inteira e – só assim – que lhe aconteceu falar do enlevo que sentira por sua mulher – como sendo ela parte deste todo – a cidade – a paisagem ambiente – a sua luz e, nela enquadrar o delicado encanto que a sua mulher o prendia como se de tudo ela própria fosse encarnação e fruto.

            Afinal – como Florbela (do nosso Alentejo) – também ele falou do sentir de toda a gente da nossa Elvas através do seu sentir.

            E, não me venham dizer que são coisas minhas...

Lá dos Açores de onde há pouco regressei os poetas falam de mar, de gaivotas, de búzios de praias...

            É essa a realidade que os perpassa.

 

             Almeida Firmino – açoriano de raiz já em 76 (in Tailandia) na sua “ilha sem voz” escrevia a certo passo:

                                   Vamos levantar os muros

                                          Que os sismos derrubaram

                                          E silenciar o desespero

                                          Dos camponeses que ficaram.

 

Luísa Mesquita(in Mar Incerto) – 1977, dizia assim:

 

Tudo em mim são espumas, ilha e areias negras,

sargaços e redes estendidas secando ao sol…                            

Tudo em mim são conchas e marés vivas,

salgueiros chorando vergados à beira do mar…

                       

Tudo em mim são ressacas e vagas altas,

canaviais na costa e barcos no porto…

                       

Tudo em mim são reflexos de luz nas águas,

vento largo levantando marolas na rocha…

 

tudo em mim são ancoras, cordas e velas,

mastros, navios saindo  e barqueiros remando...

 

Tudo em mim são flores do mar, peixes e ondas,

corais, grutas, recifes, naufrágios e mar...

 

Tudo em mim são sereias cavalos marinhos e búzios,

brisas frescas, atirando sal nas tuas vidraças...

 

nascida do fundo do mar, ao mar voltarei…

E lá nos longes do da eternidade

tudo em mim será, como agora, mar e mar…

           

Não me venham agora negar esta evidência...

Pois que até Nemésio – já longe dos Açores e enfronhado de todo na vida do Continente mergulhava

nas suas raízes ao escrever poesia e a água do mar escorria-lhe pela mão espargindo os seus versos...

veja-se:

 ODE  AO MAR --- que começa assim:

 

 Vejo-me só, de pêlo e pele, numa ilha negra.

 Meus irmãos homens desertaram

 Com os documentos em regra

 Narcos que me roubaram.

                       

 Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...

 

 Aí nascera.

 Lá, uma vaga dera

 Uma pancada rara

 (A vaga minha madrinha),

  Não sei com que força ou vara:

 Sei que a pancada vinha

 Direita ao meu coração,

 Que ainda hoje a reproduz.

 

  Outro dia que calhe havemos de voltar aos Açores, havemos de ler este poema todo e será daí

o nosso Ponto de Partida...

                       

     Maria José Rijo

estou: I Emissão

publicado por Maria José Rijo às 16:23
| comentar | Favorito
partilhar
3 comentários:
De Gus a 20 de Fevereiro de 2012 às 16:46
Mas que bella surpresa
UM PROGRAMA DE POESIA que a Tia fez para a
rádio local.
E agora vai estar todo aqui on Line.
Estou mesmo muito contente minha Tia.
Fora as suas poesias que agora me têm dado uma
grande ausencia... apareceu este programa.
Obg tia
Vou estar atento.

Parabens e bons carnavais... eu claro estou em Veneza..
Beijinhos

GUS


De Xavier Martins a 20 de Fevereiro de 2012 às 16:49
... Eis a primeira emissão...
1982 - como eu recordo bem -
gostava imenso de a ouvir ler tudo isto.
Era isto que lia ?
É a parte escrita do que eu ouvia?
Não é??

Sei que sim D,. Maria José e os meus Parabens e
à sua sonrinha que bem que aqui o colocaram.
Um grande abraço

Xavier Martins


De Flor do Cardo a 20 de Fevereiro de 2012 às 16:55
Minha amiga Maria José
Hoje cá estou com grande alegria.
Bem pode rir - mas foi o meu neto - o Gilinho
que me telefonou avisando que estava on line
o tal programa que eu falava tanto e o qual
tenho umas quantas gravações - não todas
porque falhei algumas - a minha mulher
adorava ouvi-la declamar - então a Ode ao Mar
de Nemésio - dito por si é uma maravilha.

Obrigado amiga
Por tão bons momentos - tanta recordações que
andam aqui à roda.

Parabens
e sabe temos varios ninhos do Zé de Barros a
construir por aqui então não faço mais nada do
que observa-los.
Adoro a natureza.

Parabens e obrigado SEMPRE por este maravilhoso
Blog.

Luciano


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 55 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. Apresentação do Livro de ...

. O Natal e os Poetas - 201...

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@