Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Ponto de Partida - III Emissão

III Emissão Ponto de Partida

 

Aqui estou de novo e, desta vez, para vos fazer um convite.

Venham!

Venham comigo à rua de S. Francisco mas... através da sensibilidade, da palavra – da poesia de Casimiro da Piedade Abreu.

 

RUA DE SÃO FRANCISCO

 

Eu nasci numa rua, como todas as outras ruas

com casas, com os decantados vizinhos e com

alguma poesia.

A rua de S. Francisco tem qualquer coisa

de mágico para quem lhe desce a calçada.

Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma

mancha muito branca no sopé.

Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora,

é residência de um sapateiro.

À porta escalavrada lembra as invernias que

lhe lamberam o novo. Um cenário deveras

interessante !

Os “A la Minute” escolhem-na para fundo das

suas poses. Soldados do quartel vizinho,

encostam-se nele e deixam-se fotografar.

A rapaziada refugia-se no fundo da rua.

Ali seus divertimentos são mais extensos...

Passado um pequeno arco, à direita do

sapateiro, entra-se num pateozinho com

um urinol fedorento a um canto e uma

poterna na muralha a deitar para um jardim.

Ali, joga-se a bola.

Nos dias de grande movimento, quando há

feira lá fora, ou domingo no jardim, o

jogo é rasteiro e sem força.

Pela rua vai, então, o clamor da ciganada.

Entram e saem. As padarias vendem o trigo

amassado. Os dinheiros trocam-se e o olhar

come o pão que os dentes só, mais logo,

mastigam.

Ainda muito antes que o sol desponte, na

minha velha rua de S. Francisco acotovelam-se

os pensamentos mal despertos. Sonham-se os

ditos. Há luta no pátio situado para além do

arco que está no fim da rua, à esquerda.

A bola cai no urinol: há que a pôr a secar!

O sapateiro abre a porta escalavrada da sua

loja.  Olha a freguesia do pé descalço.

Vai à banca. Sai um cigano com pão da

primeira fornada. Tem fome nos olhos.

Miúdos começam a ensaiar o “estender

lamentos” ; são ciganos espanhóis e nacionais;

misérias vizinhas e de longes terras ...

Em São Francisco...

Ciganos sobem a rua,

Trazem jornadas nos olhos...

Entoam canções fantasmas

Que entram, por nós, aos baldões...

E ouve-se: -- São portugueses?

Malandros! Gente Perdida!...

Nossos irmãos espanhóis?

Canalhas!... A mesma cantiga

 

Sobem a rua a correr

Ou saem das padarias

Onde o pão esteve a nascer.

É tanta a fome nos olhos

Dessas misérias vizinhas!...

 

... Na rua de São Francisco

Calam-se as alegrias;

Bulem, antes, agonias,

Rezas a aparecerem sinais.

 

E a legião das feiras

Cruza a calçada ardente

 

(O mundo está pendente

duma tenda e dum suspiro,

Em cenário de lenda, caiado,

No sopé duma muralha

Dum burgo abandonado...

... Onde ciganos e lendas

armaram as suas tendas!

           

... Onde morre, em cada beco,

um eco estrangulado

E um sabor a pecado

Fica, nos lábios, colado.

 

Riem-se as velhas calçadas

dos queixumes das mulheres.

Ladeiras correm encostas

sem ninguém o perceber ...

Muralhas fazem cinturas

E o ar fica de fora...

--- Uma lenda em cada pedra;

Um sonho em cada enxerga

Um romance; uma saudade;

Uma canção; uma reza!)

 

Eu sei que essa legião

Luta à conquista do pão.

Oiço pragas e adivinho

Casas a venderem vinho.

Canções correm telhados

Até que os ecos, cansados,

Perdem a voz e recolhem

A alma que os sonhou...

 

Bamboleiam-se ciganas;

Corpos tisnados ao léu,

Lá nessa tenda do céu!

 

Ciganos trazem jornadas

Nos seus corpos escorridos,

Cajados firmes nas mãos

Superstições nos sentidos

 

E o Sol que parte a calçada

Não tem quem lhe diga nada!

 

Casimiro vivia na rua de S. Francisco numa casa, quase fronteira a essa outra onde viveu Domingos Lavadinho – a quem este poema foi dedicado.

Casimiro fixaria a poesia da vida da nossa cidade com os costumes de então, apreendendo-a e particularizando-a no olhar de amor feito do conhecimento profundo que tinha da sua rua. A rua da casa de seus Pais, a rua onde brincou, onde cresceu com seus irmãos e, onde sonhou os seus caminhos de Homem.

Domingos Lavadinho – a meu ver – foi também poeta d’Elvas porque fez da sua vida um poema de amor a esta sua terra que serviu devotamente.

Nunca é demais que Elvas o recorde...

Para Casimiro Abreu há 27 ou 28 anos era assim a rua de S. Francisco. Hoje lá longe em África assim o recordará.

 

E... para si?... Para si que nem sequer tem 20 anos; ou tem 30 ou pouco mais? Como é a Cidade? Como é a sua rua? Como é a rua de S. Francisco?

 

É só o atropelo das pessoas apressadas? São os encontros frutuitos? Os passeios ao acaso; os namorados pelos cantos, a algazarra dos garotos da escola, os estudantes de blue geans? – Os enxames de espanhóis? – Não de meninos (dos que fala o poeta maltrapilhos, pedinchões, que os tempos cruciantes da guerra civil forjaram...)

Não! – Antes pelo contrário pois agora são os espanhóis prósperos que nos visitam (e que quase como na cantiga do Sebastião barrigudo de há trinta anos) compram tudo... tudo... Tudo!...

 

Já pensou que é isto e mais as camionetas que atravancam as ruas e nos espalmam contra as paredes quase como nos desenhos animados... e mais os automóveis que passam loucos e os que passam prudentes e as motoretas

 

despudoradas como varejeiras incomodas de guinadas imprevisíveis e mais os mini – mercados e os super (qualquer coisa) e os maxi (não sei quê) e a policromia da bonecada de barro sarapintada e as flores artificiais de papeis e de plásticos que espreitam por tudo quanto é loja, de travessa ou esquina, ou praceta, por escura que seja! Enfim! Tudo que constrói o nosso dia a dia de agora – que dá – ou dará – ao poeta de hoje – as pontas do fio com que tece a poesia da cidade de hoje – ao falar de qualquer rua do centro, ou seja ela a de Alcamim – Olivença – Chilões – ou São Francisco.

Ruas tão diferenciadas das ruas castas, retiradas, recolhidas como “Espirito Santo” – Parreiras – Beatas – esses postais vivos – brasonados pelo povo com os símbolos heráldicos do amor eterno – as flores.

 

Porém – para quem possa olhar para mais longe no passado – a lembrança avivará com saudade – o que os novos já só ou ainda poderão saber se lerem por exemplo Eurico Gama (esse outro poeta do Amor a Elvas) esse ferrenho estudioso que quase perguntava a cada pedra da calçada – o que sabes da minha terra? Quem viste passar aqui? – E desenterrava a verdade e ressuscitava a história... Com a ternura de elvense atento que foi – e que ilustre e afamado se tornou – por amor – amor a esta sua terra – a esta nossa – Elvas.

 

Aos que recordam mais longe no passado, dizia eu, ouviremos então falar no caramelo branquinho, feito de açúcar que se comprava no Bolacheiro – ali na rua de S. Lourenço e se ia saborear derretendo-o na boca com a água fresquinha da cisterna ao fundo da rua de São Francisco.

 Ouviremos falar dos passeios de trem e chars-a-bancs das famílias abastadas.

 Dos almocreves regressando à cidade à noitinha – das cocheiras hoje “ promovidas” a lojas e a garagem – de onde nesses tempos no silêncio das ruas mal iluminadas (do mundo encerrado por detrás das portas fechadas, como diz o Poeta) – se escapavam os ruídos inconfundíveis das patas dos cavalos acompanhados do resfolgar de conforto que fruíam presos frente à manjedoira farta.

Evocaremos também os cordões de povo endomingado saindo e entrando pela poterna do Jardim em dias e noites de arraiais de S. Mateus...

E recordaremos as saias cantadas – ao som das pandeiretas que as camponesas manejam com tanta alegria.

 

Não chores não vale a pena

Também vais ao S. Mateus

As meias são emprestadas

Os sapatos não são teus

 

 

O Senhor da Piedade

Tem 24 janelas

Quem me dera ser pombinha

Para poisar numa delas

 

Que sábio Poeta é o Povo!

 

Com que graça, discreta e fina ironia refere a mingua do seu quotidiano, e, como encontra a solução jocosa para a superar e, sabiamente, rir de si próprio ao mesmo tempo que mostra que sabe perfeitamente que a festa é de todos sem excepção.

É assim como quem diz:

 

se nada mais tens, tens-te a ti mesmo e continuas a ser filha de Deus e filha desta terra, tudo te pode faltar – tudo menos – a oportunidade que te é reconhecida de ir à festa – que só será festa porque de todos e para todos – como é a festa da vida! – Pela graça de Deus!

 

Julgo que não é possível dizer mais e melhor apenas em quatro versos.

 

E a outra quadra? Alguém que a ouça não sabe de que cor é a pombinha?

Alguém terá dúvidas de que a pombinha é branca? É branca! E não podia nunca ser de outra cor.

É sempre branca da cor da pureza, o anseio de mais alto – o anseio de Paz que pulsa na alma da gente.

Quanta candura nesta avidez de mais além que um simples suspiro às vezes encerra – Quem me dera!!!

Talvez fosse essa também a sede de Mário de Sá Carneiro– (um Poeta que não é alentejano, nasceu em Lisboa em 1890 e suicidou-se em Paris, em 1916) quando escrevia em:

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

Para atingir faltou-me um golpe de asa

Se ao menos eu permanecesse aquém

 

Talvez fosse esta a forma poética elaborada, a maneira genial pode dizer-se que o poeta encontrou na sua elegante linguagem para o grito ancestral – que como um atavismo – todo o ser humano herda ao nascer – o sonho de mais alto, de maior pureza, este:

 

Quem me dera ser pombinha

Para poisar mais além

 

 Talvez! – Quem sabe! Tenha o mesmo peso de frustração deste maravilhoso lamento de fatalidade

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

 

Quem sabe!?...

Mas voltemos à Rua de São Francisco – que foi nosso ponto de partida de hoje.

Voltemos para lembrar que a verdade passada e a presente – fazem juntas a verdade de sempre – a história – a vida da cidade com seus costumes, suas casas, suas praças, seus becos e suas ruas... neste caso a rua de São Francisco que termina na muralha – frente ao sítio onde muitos anos morou um sapateiro que ocupou o lugar que foi da casa de S. Francisco.

 

É um remate feliz para uma rua cheia de história e isso e mais ainda – é como que um aceno de Beleza – criada por Rui Nogueira e Maria do Rosário de Melo e Sousa.

Maria do Rosário foi uma verdadeira apaixonada por ElvasMaria do Rosário lutava, defendia, pugnava por tudo quanto embelezasse, engrandecesse esta sua terra – esta nossa terra. Daí – que de mão dada com Rui Nogueira à sua maneira elegante a tenham marcado com toda a poesia das suas almas fazendo colocar e emoldurar com viçosa hera os belos nichos que acrescentam tanta beleza a dois pedaços de velha muralha.

É como quem assina uma carta inteira dirigida a Elvas confidenciando-lhe: Amo-te!

É de Maria do Rosário que a meu ver foi mais poeta ainda na maneira de ser e estar na vida do que em obra escrita realizada, este soneto que obteve o 1º prémio nos Jogos Florais Luso Espanhóis (S. Mateus 1945)

                          

 Deus é mais Forte

Demora o teu olhar preso no meu

quando o meu corpo, inerte, sobre o leito,

for farrapo inútil e desfeito

que a morte há-de arrastar, como um troféu!

 

Beleza…graça… tudo se perdeu!

Convulsamente …a arfar… o meu pobre peito

regressará ao nada de que é feito,

Pois que “NADA”-  repara! - és tu...sou eu!

 

Aperta a minha mão húmida e fria

nesse supremo instante de agonia…

…e não conseguirás roubar-me à morte!

 

…Não te revoltes! Ajoelha… e reza!

…Aceita o teu destino com firmeza…

...porque Deus, meu amor, é o Mais Forte!!!...

 

Este soneto que agora – á distância – se nos afigura quase profético... deixo-o como uma saudade em sua memória.

E... já vai longa a conversa. Hoje ficamos só quase pela nossa terra! – Gostava que me tivessem escutado. Gostava!

Gostava de vos convencer que poesia não é pieguice, fraqueza de ninguém, doença ou loucura mansa...

Poesia é também uma maneira de estar na vida, a sua maneira – talvez – quando aí na rua das Parreiras, num beco, ou na rua das Beatas enfeita a sua porta criando beleza com o asseio e o apuro do seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo mas... disso falaremos doutra vez se Deus quiser...

 

Maria José Rijo

estou: Programa de Poesia
música: III Emisão de radio

publicado por Maria José Rijo às 16:41
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5 comentários:
De Xavier Mrtins a 25 de Fevereiro de 2012 às 18:22
e eis a 3 emissão.

Os meus Parabens - desculpe repetir-me tantas
vezes mas é que este programa foi mesmo BOM.
Adorei ouvir a sua voz - a declamar os poemas -
naquele então.

Adorei !

Com amizade

XAvier MArtins


De Flor do Cardo a 25 de Fevereiro de 2012 às 23:04
Muito bem... terceira emissão...
Nem imagina o que nós gostavamos de ouvir estas
emissões de poesia - é que a sua voz ao micro
é uma coisa linda depois a forma como lia os
poemas - bom ficamos maravilhados.

Grato por estar a por on line este seu programa
que fez para a emissora.
Parabens sempre
este blog é um prodigio.

Por cá vamos caminhando como deus quer.
E consigo???

Um abraço
aqui da sua familia do Brasil

Luciano


De Maria José a 3 de Março de 2012 às 19:24
Querida Família
Luciano meu bom Amigo
Nem avalia como é lisongeiro para mim ver que se recorda deste programa. Afinal não passa de uma conversa informal sobre um tema que nos era agradavel de tratar.
Minha Mãe sabia imensos poemas de cor,principalmente de João de Deus ede Guerra JUnqueiro e minha Tia Feliciana Isabel, também, embora essa gostasse também muito do conde de Monsaraz e de Camões. Daí que desde crianças nos habituassem a ler poesia em voz alta e me tenha ficado esse habito,e, esse gosto.
Parece que assim se solta melhor das palavras.
Gostode o saber de saude e com a vida cheia com as presenças dos seus tão queridos familiares.
Que Deus vos conserve assim por longos anos é o que peço e desejo
Um abraço grande para todos da vossa Maria José Rijo


De GUS a 26 de Fevereiro de 2012 às 11:29
Querida Tia
O seu programa é mesmo muito bom.
Tem uma boa escolha de poetas e poetisas.
Assim - atraves desta sua escolha podemos
obter a força da sua sensibilidade.
Gosto de perceber as nuances na conversa
que nos leva de uns para outros.
Só tenha uma pena infinita de não a ter ouvido
pela radio - enquanto passou o programa.
Pode ser que a prima com o tempo - eu não
percebo nada de blogs - como se faz e tal - mas
quem sabe algum dia possa por a tia aqui - on line
a ler um que outro poema.
Digo isto pelo que li nos outros comentarios.
Força prima - aprenda lá. Aprende??

Eternamente grato tia.
Gosto muito de si

do seu sobrinho que - ainda não sabe - mas MAS
regressei aquela casa do inicio - bem defronte da
floresta negra. Recorda?
Pois cá estou de novo e feliz .
Muitos beijinhos

GUS


De eva a 27 de Fevereiro de 2012 às 12:28
Poesia é também o texto que acompanha e encadeia a "poesia". Uma maravilha!
Obrigada à Maria José e à Paula, pela escrita e pela disponibilidade e habilidade em nos deliciar com este blog.
Bem hajam!


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