Domingo, 4 de Março de 2012

Ponto de Partida - V Emissão

.

Se por feliz acaso tive a sorte de ter algum ouvinte que me escutasse e, se por mais
feliz acaso ainda, esse ouvinte estivesse interessado em entender-me penso que
poderia perguntar: - mas, afinal o que é a Poesia? - Onde está? -tem morada
certa? – o que é ser Poeta ? – o que teria eu para lhe responder ? –

 Umas quadras?

 

Poesia não é gramática,

não requer explicação.

Poesia é sonho da alma,

só a sente o coração.

 

Olhar as aves nos céus

e vê-las  notas de
música

da magistral sinfonia

que foi composta por Deus.

 

Achar que o oiro é palha

que nada vale na vida

e ver a palha como oiro

na campina ressequida,

 

é coisa que não se ensina,

se vive, sente-se somente.

Poeta é como ser mágico

dos sentimentos da gente

 

Ser poeta – como nascer

É tanto obra de Deus

Como é a noite e o dia

Como as estrelas nos céus!

 

Mas, – o que teria adiantado com a resposta? Sei lá!

 -- então de recorrer a Sebastião da Gama,
vá de citar dos seus “apontamentos
sobre poesia social no Séc. XIX as páginas 145, 146, 147.

“Bem se sabe da
poesia que é indefinível que é inapreensível, que é feita da mesma incógnita
matéria dos deuses. Lê-se um poema ou colhe-se um lírio ou sorri-nos uma
criança – e nós sentimos Poesia. Mas colher um lírio, é colher um lírio - é ter
mãos e ter lírios, coisas banalíssimas. Sorrir-nos uma criança, é sorrir-nos
uma criança e podia chorar que não seria isso menos natural.

No entanto… Lemos um poema, bem rimado, bem ritmado, com uma imagística fulgurante e

mais uma porção de predicados poéticos e logo o condenamos ou o exaltamos pela

falta ou pela presença de Poesia. Se nos perguntarem onde ela está, ou por que sinal

vemos que não está, não saberíamos explicar. Então que presença misteriosa é essa,
como se revela, como existe? Por mim furto-me à resposta.

Não venham também perguntar-me com que sentido me é dado apreender a Poesia -

só lhes digo que não é com nenhum dos cinco…

Creio que está decadente o critério que dava como Poesia tudo quanto fosse escrito em verso.

Para aplaudir ou desejar essa decadência não é preciso mais do que fazer o sacrifício de ler as
mil e uma festejadas habilidades métricas que ao longo dos séculos se foram
escrevendo – e que deram, por conta do dito critério, o nome de Poetas a quem
as traçou. Falta aí o tal misterioso quide sem o qual nada feito…

 Isto não quer dizer de modo nenhum que se não
tente exprimir ou captar pelo verso a Poesia. Acho que o verso não é um vaso,
um molde, uma carne em que a Poesia tome forma como geralmente se pensa: é uma
espécie de laço, armado pela manha do Poeta, a ver se a Poesia, incauta, vem ao
chamamento: ou um rito, uma invocação que a faça descer. Esta manha ou este
canto de sereia, ou pela invocação é que tomam formas, não a Poesia. O poeta
não tem à mão senão as palavras; joga com elas de modo a lisonjear a Poesia
naquelas qualidades divinas que lhe pressente.

E como pressente que a poesia é bela e é musical, tenta imprimir beleza e

musicalidade ao barro humano das palavras.

Temos portanto e resumindo que o verso não é ele próprio a Poesia, nem o vaso que a
contem, mas a maneira de captá-la.

 

Se, como diz Sebastião da Gama, o verso é uma
maneira de captar a poesia – o que poderemos nós concluir senão que a poesia
nasce e canta livre?

 

Assim sendo já estou em boa companhia para repetir o que outro dia aqui disse:

Poesia é também uma maneira de estar na vida. A sua talvez, quando aí na rua das
Parreiras, num beco ou na rua das Beatas cria beleza com o asseio e o apuro do
seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo.

A sua, que chega a casa com os pés inchados, desfeita por um dia de trabalho que a sua
saúde mal suporta, e, antes de descalçar os sapatos que a crucificam, antes de
se atirar para a sua cadeirinha do costume, ou para cima da cama que, como ela
já sabe de cor o peso do seu cansaço – vai – antes de tudo – antes de si dar
uma sede de água à sempre-flor mais à malva rosa ou ao carrasquinho que pendem
de folhinha murcha (Que o nosso verão é lume!) da parede onde se incrusta a sua
porta!

 

Olhe que ser poeta
– também pode ser isso!

Nunca o pensou?

 

Alguém me alertou outro dia que esta emissão seria, talvez, mais escutada pelas

pessoas de fora da cidade.

Se assim for, serei eu capaz de falar de poesia a quem a vive, a traz dentro de si e,

acha isso tão simples, tão natural que nem de tal se apercebe?

 

No entanto sinto que é isso que terei que fazer!

 

Terei que bater à sua porta.

Terei que me sentar à roda do seu lume na grande chaminé da cozinha.

Terei que a ver lidar na casa, com gestos seguros, como quem cumpre ritos

duma milenária religião!...

Terei que comer castanhas ou bolotas assadas na cinza quente incrustada de brazinhas miúdas...

Terei que beber do seu café gostoso que está sempre pronto ao rés do lume na cafeteira de barro
coroado pelo testo...

Seu marido se entrar puxará da navalha luzidia para fazer piogas com meias bolotas e paus de
fósforo para as crianças que houver (como já a seu pai e seu Avô vira fazer) e
ficarão rindo a faze-las dançar sobre a mesa da cozinha... Mas ficará ouvindo o
que se diz embora finja desinteresse...

Se lhe perguntassem como é – diria apenas: “conversas de mulheres!”

Eu provarei se for altura disso – das suas tenras broinhas, ou biscoitos

perfumados de erva-doce... Sentir dentro de
mim que você faz tudo isso naturalmente com simplicidade e amor – poeticamente
e, no entanto se eu lho dissesse – você riria... E, eu não digo. Penso e calo.

 

Perguntarei apenas fixando-me nas coisas práticas: como é a receita das broinhas?

ou dos biscoitos e ... Ouvirei da sua segurança sábia a resposta:

Tanto de açúcar

Tanto de ovos

Tanto de banha

Tanto de farinha, de leite, de fermento.

A erva-doce é a gosto!

Rematará sentenciosa.

 

Perfume a gosto pensarei eu – mas calo!

Que achei no pormenor uma certa poesia!

 

Você disse tudo de cor – porque até – se calhar – nem sabe ler! Mas.

Irá falar-me do caderno antigo que vai buscar para eu ver – e era de sua mãe ou mais antigo
ainda... – o caderno de papel grosso e áspero onde alguém apontou todas as
receitas que você sabe de cor... Desde a massa das azevias ao recheio – aos
nógados... enxovalhadas... biscoitos... queijadas...

 

Irá buscar o caderno que dormiu anos a fio por inútil na cimalha da chaminé bem ao
cantinho onde uma goteira à traição o ensopou e fez dele o borrão ilegível –
duplamente inútil – porque você não o leu e ninguém mais o lerá – e ambas o
olharemos consternadas...

 

Então uma confusa sensação a comandará sem que nada a contenha e você dirá: guardo-o na
mesma! – Sim cum’assim nunca o li – mas tenho-o desde mocinha!... Era da minha
mãe!... – E guardará o caderno soltando o fundo suspiro que entretanto lhe
sufocará o peito!

E, repetirá evocando:

Desde mocinha!

E ficará a recordar...

 

Se entretanto eu a interrompesse dizendo:-“Que Poesia! Na sua saudade!”

O seu rosto iria animar-se com um arzinho de troça e você responderia sincera e veemente:

Poesia?! – nã Senhora !

Mas... Eu não a acordo – não! – Embarco no seu suspiro e digo baixinho:

 

 

 

(Balada da infância)

           

Ai, mundo da infância,

como cabes neste mundo?

Ai promessas,

desejos que é bom não cumprir!

Ai anseios vagos de raro sabor...

Como a vida a cumprir-vos

Vos rouba o valor!...

 

…Eu lembro-me ainda!

E como esquecer o mundo das gavetas,

Proibido mexer!

As malas da Avozinha e das Tias,

Que só elas abriam …e em certos dias!...

 

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos…

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de pranto!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

De vestidos e arrebiques

De bodas e baptizados!...

Ai, tremuras dessas mãos

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

Onde dormiam as chaves ,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “Vês isto aqui minha filha?

“Este caracol tão loirinho?

Era de teu tio-avô, meu irmão,

O que está neste retrato…

Morreu muito pequenino,..

Coitadinho!..

Coitadinho!...

 

(Dizia a avó bondosa
repor o medalhão,

entre as dobras de algum fato)

Grande mundo das caixinhas,

Sempre fechadas!...

 

Algumas que se abriam a meu pedido

Tinham missangas, continhas,

Flores secas e plumas,

Restos de sonhos vividos

Que tinham sempre uma história,

Que eu escutava toda ouvidos!

 

- “Isto aqui...  

 

(Quanta saudade

Havia em seu recordar!...)

“ – É um pouco de cambraia

“ Que sobrou das camisinhas

“Do enxoval do teu Pai,

“E foram feitas da saia

“Do vestido que eu levei

“Na primeira Comunhão!

“ Recordo tanto esse dia!...

“Quando voltamos para casa,

“ Vinha eu entre os meus pais

“ E a ambos dava a mão!

 

-- E esta fita tão linda?

 

-- Não lhe toques, deixa estar!

 

(E uma nova emoção assomava ao seu
olhar!...)

 

–“ Foi a última que usou

“Antes de ir para noviça

“A minha amiga de infância,

“Minha prima, a Clarinha,

“Que chegou a ser superiora

“ No convento onde morreu

“E do qual era padroeira

“ A Virgem nossa Senhora!

 

-- E isto aqui, o que tem?

 

(Logo a avó com carinho,

Desmanchava para eu ver

Um embrulho feito em linho

não fosse a traça comê-lo.)

 

--“ É a trança do seu cabelo!...

-- Vês querida, como era belo?!...

…………………………………….

E enquanto febril extasiada,

Eu me quedava a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E ás vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

Foi essa mala tesoiro,

Foram caixas e retalhos,

Foram pontinhas de rendas,

Foram retratos e prendas

Dos noivos das minhas Tias,

(De minhas Tias solteiras,)

Foram leques, pedrarias,

Restos de sonhos sonhados,

Que a morte fez em bocados,

Que geraram, bem o sei,

Os primeiros sonhos que tive,

Os mais lindos que sonhei.!...

 …………………………….

 

Minha avozinha morreu…

Não mais mexe em suas malas,

Agora… mexo-lhes eu!...

                

                    Maria José Rijo                                             

 [MªJosé-19anos.jpg]

 

 

Penso que você, assim, saberá que os
seus suspiros de saudade, como as flores da sua porta podem ser sentidos como
versos dum poema como mensagem de beleza de um coração para outros corações.

 

 

    Maria José Rijo

 

 

estou: V emissão

publicado por Maria José Rijo às 23:12
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3 comentários:
De Xavier Martins a 5 de Março de 2012 às 10:58
D. Maria José

Esta sua balada da Infancia é uma maravilha, do
principio ao fim.
Esta emissão ouvi eu e tinha uma ideia do poema
que me tinha encantado.
PARABENS e estou-lhe gratissimo por o por on line.
As coisas de que gostamos - ou que nos disseram
alguma coisa - nunca se esquecem - como
aconteceu com este programa.

Parabens e boa continuação.
Com amizade e admiração

Xavier MArtins


De GUS a 5 de Março de 2012 às 11:05
Minha tão querida TIA
Esta emissão é excelente - foi e é - um belissimo
programa e esta sua Balada da Infância é um
coisinha LINDA - porque conta uma história de si
do que via e ouvia e depois acompanhada pelas
suas fotos de criança - dá mesmo para imaginar
o seu rosto a ouvir e a ver tamanhas maravilhas.
Fiquei deveras encantado de o ver entre este
magnifico programa.
Pena o meu amigo padre já não estar entre nós
para poder apreciar e deliciar-se com a sua
poesia.
Este Ponto de Partida é um belo programa - com
belissimas escolhas.
O nosso amigo xavier Martins e o luciano tiveram
o prazer de o ouvir pela radio eu não - mas
sinto o clamor da alegria de quem escutava,
o prazer de a ouvir falar ... tantos anos depois
continua a ser Um BOM programa sem sombra
de dúvidas.

Um grande beijinho minha Tia
GUS


De Flor do Cardo a 5 de Março de 2012 às 21:48
Oh minha amiga Maria José
Finalmente a sua Balada da infância...
Adoro isto - a minha mulher sabia-a toda de cor
e recitava-a desejando ter sido ela a escreve-la -
dizia muitas vezes e acrescentava - mas Maria josé
rijo só existe uma e é uma Grande Poeetisa.
O que eu concordo aliás sempre concordei co ela.

Parabens amiga.

Ah queria contar-lhe que o Gilinho comprou um
balão de ar quente para passear os nossos
amigos que não queriam morrer sem andar de
balaão - aliás nem eu... este fim de semana vai
ser uma fesrança - vai até matar um boi para a
petiscada. É só rir.

E a Maria José como está?
A sua saudinha vai bem?? Olhe eu desde que
coloquei o telefone de parte vamos andando
bem Graças a Deus.
E as sua Olaias já estão em flor??
Eu depois quero ver essas primaveras para
matar as saudades.
Um abraço
Luciano


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