Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Ponto de Partida - VII Emissão

.

O Poema que vou ler é, talvez demasiado triste.

Talvez!... Porque também a vida às vezes parece poder ser apenas triste… mas, se pensarmos que o seu autor – José Duro – que como se sabe era natural de Portalegre – não chegou a viver 30 anos – pois nasceu em 1873 e morreu em 1899 – se o pensarmos… então talvez o possamos entender e, aceitemos até – que o seu único livro se tenha intitulado “Fel”.

Tanto mais que sabemos que antes de ser de Fel o gosto que lhe deixava a vida, ele se estreara como escritor com um folhetozinho intitulado “Flores”.

           

Lugar então para José Duro em:   

   “Doente”

 

Escrevo e choro, dói-me a alma, tenho febre.

Não sei a quantos graus - Calor insuportável;

- Moderno Lázaro! - oh! Que vida miserável!

Eu vivo aqui doente e só no meu casebre

 

Agora compreendo a dor de não ter Lar

E a dor de viver só, desventura tamanha!

É ser mais triste do que os cardos da montanha,

As urzes do caminho e as noites sem luar…

 

Meus tempos de criança! e fui fadado assim!

A minha mocidade é como que um deserto;

Não creio que haja alguém que possa amar-me,enfim

E Deus, se Deus existe, odeia-me decerto…

 

Confesso que estou pronto, e, se me vejo ao espelho…

-- Desceram-se-me á boca em risos de desdém…

Imagem do que fui, -eu nunca fui ninguém –

E, ò má fatalidade encontro-me hoje um velho,

 

Cravou-me a Dor na face, as rugas do desgosto,

Meus olhos de chorar vão-se tornando cegos,

E quando os chamo a ver aquilo que dá gosto

Escondem-se na treva, assim como os morcegos…

 

Dilui-se-me  o pulmão e sai-me pela goela

Á força de tossir bastante enrouquecida,

E se ainda vivo assim é porque a minha vida,

Amarga como é, não posso dispor dela.

 

Porque a verdade é esta: a vida que se arrasta

Do nada até à flor, do verme até a pedra,

É sempre a mesma vida incómoda, nefasta…

Que a Dor do Universo em toda a parte medra.

 

Assim talvez um dia eu que prefiro a Lua

A tudo quanto é bom, a tudo quanto é são,

Me torne por destino em pedra duma rua,

Que a multidão acalque, a doida multidão.

 

Talvez eu venha a ser a flor de um cemitério;

A estrela do Azul, a areia do Oceano;

A vida não tem fim como o Destino humano,

E se o Não-ser é tudo, o Nada é um mistério…

 

E eu que era, noutro tempo, enérgico, robusto,

Quando no meu jardim floriam as roseiras,

Padeço horrivelmente, já respiro a custo,

E a minha tosse lembra a reza das caveiras…

 

Quem sabe lá !talvez nas grutas do meu Ser

A Morte, agora esteja abrindo algum jazigo…

E os vermes por desgraça escutem o que digo,

Vivendo dentro de mim sem eu os perceber.

 

Que negro mal o meu! Estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco, virgens de olhar cálido…

E os velhos quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si:- -- Coitado, está por pouco !...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço…

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente.

Adoro como Põe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror ás multidões.

 

E amando doidamente as formas incompletas

Que ás vezes não consigo, enfim, realizar.

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e de uma dor qualquer,

Meus sonhos de nervrose horrivelmente histéricos…

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Boudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas…

E aos lábios da Mulher, a desfazerem-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ansiar de mórbidos desejos.

 

E é em vão que medito. E é em vão que sonho!

Meu coração morreu, minha alma é quase morta…

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra á minha porta…

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança! -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as tímidas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao doutor: - Então?... – Hei-de curá-lo…

Porém já não me importo, é bom morrer e deixá-lo!

Que morrer – é dormir´...dormir… sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste,

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O Poeta nunca morre embora seja agreste

A sua inspiração e tristes os teus versos.

 

Li todo o poema – porque ele é em si como que uma amarga biografia e o meu intento é fazer que os poetas, especialmente os do Alentejo – sejam menos estranhos para nós.

Ouvindo esta confissão estivemos ao lado do pesadelo de quem sofreu ou de quem sofre aguilhoado a uma doença incurável e talvez possamos perceber melhor como ás vezes o desespero ou a angustia nos parecem as posições mais legítimas – as únicas possíveis!

 

 Porém, se a dor é legítima, temos que saber e acreditar que também é bem legítima a esperança.

 

Temos que sentir que:

 

Todos os dias amanhecem

 crianças,

 pássaros,

 e flores!

 - e por sobre a noite

 das crianças,

 pássaros,

 e flores,

que já não amanhecem

 Amanhecerá !

 

Vamos pois deixar  entre em nós toda a beleza da poesia de  José Régio --  a quem para ser considerado poeta do Alentejo  -- bastaria  a sua “Toada de Portalegre” .

Vamos abrir as janelas – olhar os longes – deixar que a Primavera que se avizinha – nos acene no amarelo perfumado das mimosas em flor!

.

 CÓPIA DO ORIGINAL ESCRITO PELA MÂO DE RÉGIO

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....

 

Que importa que Régio tenha nascido lá longe perto do mar, em Vila do Conde no ano de 1901?

Que importa que tenha sido desde 1929 o professor Reis Pereira do Liceu de Portalegre?

Que importa que tenha morrido na sua terra em 1969? - Que importa?

Quando alguém consegue contar desta maneira o que lhe vai na alma
– deixa de ser de aqui ou de acolá – passa a ser apenas – Poeta – e, neste caso, por graça de Deus –

e ventura nossa: -- Poeta Português. 

 

 

   Maria José Rijo

 

estou: 7ª Emissão
música: programa de poesia (radio)

publicado por Maria José Rijo às 23:37
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6 comentários:
De xavier Martins a 16 de Março de 2012 às 23:49
Estava mesmo à espera deste
José Regio com a sua toada de Portalegre e
José Duro com o seu poema Doente.

Ainda me recordo de a ouvir ler estes poemas.
Adorei .
Obrigado por estar a colocar on line este SEU
BELO PROGRAMA DE POESIA
que as radios deveriam voltar a reproduzir
para nos encantarmos com a sua belissima
leitura.
Parabens sempre.
Adoramos o seu blog - digo-o sem favor porque
aqui está a obra de uma grande poetisa.
Os meus Parabens
e bom fim de semana.

Com amizade e muita admiração
Xavier Martins


De Maria José a 22 de Março de 2012 às 17:44
Xavir Martins - meu amigo
Acredita que nunca imaginei que este "Ponto de Partida"pudesse agradar tanto. Se na altura eu tivesse percebido isso teria escrito mais, porém como ninguém mostrou interesse e eu nunca me acreditei capaz de fazer coisas de jeito - parei e esqueci. Foi a Paula que ao ver-me destruir os meus escritos salvou essa tralha toda.
Coisas da vida!
Agora é tarde.
Um abraço grato
Maria José


De GUS a 17 de Março de 2012 às 18:47
Minha querida Tia
Cada emissão - é uma surpresa porque a escolha
que nos oferece é magnifica o que quer dizer que
a sua cultura poética é enorme.
Dois poemas magnificos e fica-me a pena de não
os poder ouvir por aqui - o que lamento
profundamente mas acredito que não seja facil
- incluir aqui - o som - mas de blogs eu nada
percebo.

Estou-lhe muito grato por nos mostrar os seus
belos trabalhos e eu sou da mesma opinião do
amigo Xavier - as radios poderiam e deviam passar
programas BONS como este.
Os meus Parabéns e já aguardo o outro.

O ìcaro - é um cavalo formidavel.
Grato pela escolha do nome.

beijinhos tia

GUS


De maria José a 23 de Março de 2012 às 12:32
Querido Gus alegrou-me saberque
gostou do nome que propus para o cavalo.
Também a mim me pareceu próprio para a imgem que guardo desses queridos e belos companheiros a galopar de crinas ao vento como se voar também ihes fosse possível.
O primeiro conto que escrevi para a Emissora Nacional tem como personagens principais um menino e um cavalo que voava...
velhos sonhos.
Afinal todos temos um pouco de Ícaro. Todos procuramos o sol mas raros são os felizes que não queimam as asas...
Gosto muito de si
beijinhos tia Zé


De Flor do CArdo a 19 de Março de 2012 às 17:48
Minha cara Maruia José
Realmente este programa é uma maravilha
sabe que descobri umas cassetes que a minha
saudosa Luci gravou - já nem tinha memoria
das cassetes e foi o Aristeu que as encontrou
pois nem sabe temos ouvido todas as
emissões .
Realmente a sua voz a declamar é uma
Maravilha. Adoramos - é escusado dizer.
Emocionados de a ouvir.

Parabens Maria José
Um grande grande abraço.
Com muita admiração e amizade

Luciano

Ah a Magnolia, a minha nora levou para a
universidade para que os alunos dela
ouvissem os poemas. É verdade que é de
Filosofia a àrea mas ela não resistiu e eles
adoraram.
Ficaram encantados.
Os nossos Parabens


De Maria José a 23 de Março de 2012 às 12:55
Meus queridos
Ainda bem que vivi o bastante para ter oportunidade de saber que , naqueles tempos em que eu fugia de toda a gente com vergonha das coisas que me apetecia fazer e, às vezes até fazia... tive ouvidos amigos que me escutaram e entenderam.
Conforta-me saber que isso aconteceu. Assim ficam mais leves outras lembranças que, quase me calaram de vez.
Verdade, verdade, que, por aí nenhum mal veio ao mundo.
Obrigada hoje muito especialmente à Mag que vendo-me pelos vossos olhos me valoriza mais do que mereço.
Em qualquer caso a amizade não se paga - retribui-se
Aqui me têm muito grata por tudo.
Quero ainda confessar que me comove e enternece muito tudo que me tem contado da Senhora Dona Luci em relação ao meu trabalho.
A vida é assim! às vezes as coisas passam-nos ao lado e perdemo-nos delas...
Que enriquecedor teria sido para mim fruir dessa amizade preciosa.
Mas, foi como foi!! Agora, tão distantes estamos juntos finalmente.
Um abraço imenso
vossa de coração
Maria josé


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