Sábado, 24 de Março de 2012

Ponto de Partida - VIII Emissão

.

Talvez porque a minha consciência de ser se confunde com a consciência de ser alentejana,

gosto de vir hoje lembrar Francisco Bugalho de quem Régio disse:

 

“ O rodar dos anos, a dança das estações a sucessão dos dias,

a volubilidade dos instantes – coisas são, que os sentidos

do poeta apreendem  e fixam, sobretudo nos seus mais subtis

cambiantes, direi um pouco à maneira de um impressionista

poeta”.

 

Querem ouvir poemas de Francisco Bugalho?

Eu leio alguns:

 

GANHÃO

 

Minha junta vai puxando

Morosa, lenta, cansada;

Que a leiva que vai virando,

Vai ficando bem virada.

 

Passam dois corvos grasnando

E à minha volta mas nada

 

A relha que rasga a terra,

Rasga e beija docemente,

- Breve se acaba esta guerra,

Só de semear a semente.

 

Nos vales de terra molhada

Piam os abibes em bando

 

E a leiva sobe na aiveca

E vai ficando tombada,

Ao seu feitio moldada

Sobre outra leiva já seca

 

 

Minha junta vai puxando

Pesada, lenta, cansada…

 

Ao fundo, no horizonte,

Só um sobreiro pasmado;

Nem um ruído de fonte,

Nem um chocalho de gado…

 

Nem algum cantar perdido

De certas horas felizes,

Só conta no meu ouvido

Este estalar de raízes.

 

A leiva que vou virando

Vai ficando bem virada…

 

QUEIMADA 

Lenta, ondulante, latente,

Fulgurante ou decadente,

A longa queimada vem,

Na faixa do horizonte.

 

Avança desde o poente

Enche a noite e cala a fonte.

 

Tudo se cala, se encerra,

Em volta, na escuridão,

Toda a paisagem se aterra,

Não há estrela na amplidão:

-- Que o lume, raso da terra,

Matou-lhe a cintilação.

 

Há cheiro a palha queimada,

A matos secos ardendo,

Gritos soando, na noite,

Á caça, louca, correndo,

Sem saber onde se acoite,

À espera da madrugada.

 

E a minha noite é toldada

Deste trágico fulgor.

Não sei que vago amargor

Surge de nada pra nada;

-- Parece trazer-me dor,

Ardendo, em mim, a queimada.

 

 -----------------------------

TOSQUIA

 

Rente, rente, rente

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Vem do campo, em volta,

Mágico fulgor

De aroma, que solta

O feno, inda em flor.

Aperna-se o gado,

Pra tirar-lhe a lã.

Ficou encerrado

Desde esta manhã.

 

Rente, rente, rente;

Que a tesoura corta

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Um halo de neve,

Espuma ou algodão,

Envolve de leve

As reses no chão.

 

Na luz forte, em roda,

Zumbem as abelhas.

E há balidos soltos

E tristes, de ovelhas.

 

E ao soltar aquelas,

Livres, já, dos velos,

Parecem gazelas,

Em saltos singelos.

 

Rente, rente, rente,

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Não é verdade que alguns  destes poemas sugerem música ou até pintura?

……………….

Francisco Bugalho

que teve lavoura em Castelo de Vide onde se radicou,

foi conservador de registo predial e morreu em 1949 com 44 anos – nascera no Porto em 1905.

Tornou-se um poeta do Alentejo porque amou e entendeu as nossas paisagens e costumes.

……………………

 

Que o Alentejo – como já li algures é como que uma Pátria dentro de outra Pátria.

 

E, eu que venho lá de outra parte do Alentejo imenso quente e nu – da terra da cor do barro, cor de

.....................

carne viva; que cresci ao som de palavras que entendi,

quentes e gostosas como chaparro --  tarro – seara – almeara – restolho –

palavras que o alentejano arrasta, como se arrasta a ansiedade

da sua alma de homem solitário que tem pudor de rir,

recordo os seus cantos esses mágicos prantos –

única brecha por onde se vislumbra a sua vida interior…

Assim, por lá, havia cantigas quase sobre tudo quanto acontecia. 


..........................

Desavença de namoro (por exemplo) originavam algumas como esta:

Ó José ou Manuel ou … se acaso queres

a tua roupa lavada

paga a uma lavadeira

que eu não sou tua criada …

 

Eu não sou tua criada

Eu não sou criada tua

Ó José se acaso queres

Pega a roupa e vai p’ra rua.

 ...............................

Isto – porque era de bom-tom as noivas cuidarem dos noivos para provar

a sua aptidão para o casamento.

…………………….

Sobre a possível separação de apaixonados pela morte e a esperada felicidade para além túmulo.

Esta :

Fui-te ver estavas lavando

Na ribeira sem sabão

Lavas-te em água de rosas

Fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão,

Fica-te o cheiro no fato.

Se eu morrer e tu ficares

Adora-me o meu retrato.

Adora-me o meu retrato

Vai-me ver a sepultura.

Se eu morrer e tu ficares

Adora a minha figura.”

………………….

 

Outro exemplo – mas desta vez á cerca da curiosidade que, sempre suscitava em meio

 tão pequeno a mudança de hábitos de qualquer rapariga nova:

 

Estando eu muito bem sentada

A gozar do fresco sem ser adorada,

Olha as calhandreiras a quererem saber

Dos amores novos

Que estão para haver

 

( Calhandreiras à é o que aqui na região se designa como vateiras).

……………………

Era uma aldeia pobre de gente simples, onde a fora o ferreiro, o dono da moagem, os sapateiros, os donos das vendas (pequenas mercearias onde mais se vendia vinho do que géneros), o barbeiro, o abegão, toda a gente trabalhava nos campos em redor, que eram propriedade de 2 ou 3 lavradores de quem todos dependiam economicamente.

Como excepções contavam-se as professoras primárias.

Não havia padre, nem médico.

Os velhos tornavam-se mendigos e as velhas lavadeiras -

enquanto era possível depois, faziam mezinhas, benzeduras, “aparavam”, como lá se diziam

as crianças que nasciam e eram respeitadas e temidas como bruxas, mas como é lógico acabavam a mendigar.

Um dia caí, magoei-me num braço e, uma delas (protegida de minha Mãe)

socorreu-me e benzeu-me mais ou menos assim:

 ..........................

Eu te coso por carne quebrada e nervo torto

Melhor cose a Virgem – que eu coso

A Virgem cose por vão, eu coso o osso.

Em louvor de Deus e da Virgem Maria

Padre-nosso e Ave-maria! “

 

Talvez pelo medo que dela tinha – fiquei curada!         

………………………

Fala-se à boca pequena de maldições sobre caminhos e encruzilhadas onde havia quem jurasse dançavam lobisomens ao bater da meia-noite com almas do outro mundo.

…………………….

E, se é verdade que a ignorância permitia o pulular de histórias fantásticas, de desconfianças e pavores tais, que, por vezes, terminavam em cenas de facadas ( de mortes até) nas tardes de festas e domingos em que o  jogo da malha era pago em copos de vidro – que exaltavam os ânimos e libertavam os instintos – também é certo que cada um em seu oficio e arte era perito e disso se gabava com ingénuo orgulho!

Eram as mulheres que mondavam, não sei quantos regos da seara ao mesmo tempo …

Eram os homens que atavam molhos de trigo, não sei de que jeito …

Eram os que charruava o alqueive como ninguém.

Eram peritos no varejo da azeitona.

Eram os cortadores de lenha que a empilhavam em medas de forma geométricas exactas empiramente encontradas …

Eram os tosquiadores que deixavam borlinhas, marcas e desenhos no dorso dos animais.

Eram os tiradores de cortiça, os homens da limpeza do arvoredo, os das matanças, os das rouparias, os hortelões.

 

Era toda uma cultura rural, virada para o prático, o necessário, de utilidade incontestada que faziam daquela aldeia – daquelas pequenas aldeias de há 50 anos – colmeias vivas onde cada um era obreiro, fazia o que sabia porque cada um sabia o que era preciso fazer e onde até a crueldade aparecia como uma natural luta de sobrevivência e nunca como indicio de falta de carácter. Os homens batiam nas mulheres e esfaqueavam os rivais porque eram homens – as mulheres obedeciam porque as fêmeas deviam ser pacientes, resignados e humildes …

…………………….

 

Era o Alentejo tragédia da terra fecunda como um ventre macio.

……………………….

 

Era o Alentejo que Armindo Rodrigues, que é natural de Lisboa, onde nasceu em 1904 mas que é de ascendência alentejana e tem uma obra poética reunida em 14 volumes publicados entre 1970 e 1978, referiu assim em:

Motivos Alentejanos

Os sobreiros sonham

sonhos desvairados,

que só os pastores

e as pedras suspeitam

 

Sonham que são livres

e vão pelo mundo,

com raízes de água

e cabelos soltos

 

No céu por lavrar,

as nuvens são cardos

e o sol milhafre

que esvazia os olhos.

 

Dos sonhos só resta

a angustia que os ousa

A angústia é concreta

Os sonhos são sombras.

 

Seguros á terra

com garras de bronze

os sobreiros sonham

impossíveis rumos.

 

Arde o Sol

A terra cheira

a pão mole,

a vinho, a poeira.

 

Na vastidão contrita,

com moinhos erectos

cada pedra medita

e os próprios sonhos são objectos.

 

Encharca-me a pele

um suor paciente

Um gafanhoto cor de mel

salta mecanicamente

 

O ar sufoca.

É uma fornalha, o dia.

Até a boca

me sabe a melancolia.

 

Lento, canta um pastor,

Guardando gado.

Do tronco de um sobreiro degolado              

corre um sangue que empapa o chão em flor.

Lento, canta o pastor,

guardando o gado.

 

Desabrocham-lhe cravos do cajado,

cheira-lhe o corpo a cio e a urina,

soltam-lhe aves do olhar estagnado

O sol é um bolo encarnado,

com inocências de menina.

 

De amor,

estão as pedras ofegando,

adormecem borboletas no ar brando,

um fio de água geme num valado.

Lento canta um pastor,

Guardando gado.

 

……………………

 Era – é o Alentejo dos dias de calma sufocante onde nem pássaros cantem e só a cigarra cante

É o Alentejo de Inverno, frio, arrepiante onde só um ventinho cante

É o Alentejo de sempre onde o silêncio mais a solidão geram o Pão em bebedeiras de luz.

 

Maria José Rijo

 

estou: Emisões de radio
música: Prog POESIA - 1982

publicado por Maria José Rijo às 19:18
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2 comentários:
De XAVIER MARTINS a 24 de Março de 2012 às 19:26
O programa já é uma maravilha
e depois as ilustrações fazem-no muito
mais bonito e agradavel de ler.

Os meus Parabens SEMPRE
mais um torrazinho de açucar.

Com muita amizade
em abraço daqui da madeira onde estou a passar
uma semaninha

Xavier MArtins


De GUS a 25 de Março de 2012 às 00:56
É o Alentejo de sempre onde o silêncio mais a solidão geram o Pão em bebedeiras de luz.


LINDO...
A sua escolha de poemas +e uma maravilha MAS
o que está entre eles - a conversa que os leva
para eles... as suas palavras feitas de pedaços da
sua alma - porque são frases que por si só são
poemas...
Gosto do programa - da escolha dos autores
MAS
o que eu adoro de verdade são as suas frases
poeticas e os seus poemas neles contidos...
Aí reside o verdadeiro programa de Poesia.
Não são apenas as escolhas dos outros
autores - para mim o que tem mais valor
é o que está entrelinhas - não sei se me faço
entender - mas em cada post - procuro e
encontro sempre a sua alma a falar mais alto.
É aí ... que est´a minha tia e é aí que está a
verdadeira poetisa.

Obrigado minha Tia e muitos Parabens
por me deixar olhar de perto o seu sentir onde
late um coração Alentejano - de seiva pura.
Grato Senhora minha Tia por estar-nos a mostrar
esta maravilha.

Com muita admiração e dedicação
do seu sobrinho

GUS


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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@