Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

Ponto de Partida - X e última Emissão

 

 

Termino hoje esta - quase – dúzia de conversas que até aqui tive com aqueles de vós que tiveram ou terão tido paciência para estar comigo. Não admira pois que tenha preocupação de o fazer com o máximo de beleza que me seja possível

Não admira pois que tenha escolhido para ler um texto exemplar de António Sardinha sobre Elvas e um soneto.

 

ESTA ELVAS

 

Com os seus baluartes, as suas torres, os seus eirados e o seu aqueduto. Elvas é para caminheiro que passa um apelo súbito às energias mais fundas da nossa sensibilidade. Qualquer dos grandes peregrinos literários de quem herdámos o veneno romântico do amor ao que se foi para nunca mais – Chateaubriand ou Barres, bem poderiam ter-se sentado à sombra das suas muralhas e ouvir, de coração encostado a eles, a marcha compassada do tempo, marcando o ritmo da eternidade. Em cada pedra borbulha aqui uma nascente heróica – uma estrofe solta de epopeia, a que a bênção serena das igrejas comunica doce tranquilidade da tristeza cristã. Verdadeiro sanatório para almas isoladas e insatisfeitas, Elvas tanto nos fala e prende á hora pérfida do crepúsculo, como levantada em glória entre halalis raivosas de cigarras, por um céu inclemente de Julho.

Frequento-lhe ás tardes a desesperança melancólica dos muros desertos, e é num círculo avoejante de fantasmas que, sonâmbulo, divago, sempre que me abandono ás vozes secretas que crescem dos fossos, que ascendem da terra, que se exalam, como ais de moribundos, dos fortins ao desmantelo.

Tem o seu ar de mesa de sacrifício a boa sentinela fronteiriça, erguendo-se, denteada, dum chão argiloso e enrugado, -- chão de cem batalhas, campo largo de holocaustos, ainda agora inapagados e gritantes. Mas, como um convento brando de freirinhas, para que em tudo Elvas repouse na dignidade das antigas necrópoles, as oliveiras cercam-na prateadas e reverentes, enchendo-lhe a paisagem adusta – paisagem só para profetas e soldados! – Dum inesperado perfume feminino.

Eu não contarei desta Elvas exilada dentro de si própria – dentro do colar cerrado dos seus baluartes, os longos diálogos  em que nós ambos – Elvas, a das torres  cismadoras e aguerridas, e eu, pobre pequeno Barbey de província, entretemos as demoradas ansiedades do nosso interminável desterro ! Nunca os meus lábios carnais se abrirão para que sejam dos outros as revelações que Elvas me confia, ou amortalhada na nupcialidade enregelante do luar de Inverno, ou reverberando as alucinações de fogo canicular.

Mas não me furtarei a denunciar o encontro de certo jardinzinho esquecido, que Elvas traz ao regaço com um carinho cioso, jardinzinho

de buxos agonizantes e marmóreas urnas versalhescas, onde Beckford conversou com o abade Correia da Serra, que parece ter conhecido a presença de Lord Byron á sua passagem para Espanha. No sussurro da fonte lastimosa, no trato cortesão das laranjeiras, com montanhas azulinas na distância, na rusticidade dos branquinhos de idílio confidencial, que admirável fundo de leque, em que os meus olhos se deliciam, sonhando com açafatas, leves como asas – sonhando com uma «cabra-cega» dourada, fútil, palaciana! Depressa, porém, a fantasia se esvai – depressa se esvai esse rebanho fluidíssimo de Watteau! E na noite que desce – na penumbra que improvisa caprichosos motivos de indecisão e de assombro, Elvas, com a Cruz e a Espada, proclama bem alto a sua genealogia de cidadela infranquiável, que venceu o combate dos séculos e, por sobre a seara ceifada das gerações, desafia ainda agora a face vítrea da morte.

Abismo-me com a fortaleza na treva que avança. O aqueduto, exausto duma galopada que dura há centenas de anos, aquieta-se no escuro como a carcaça inconcebível dum monstro das primeiras idades. Só os sinos, riscando a passagem das horas, acordam nos ecos suspensos a ressonância dos grandes momentos extintos – rebates de assédio, embaixadas entrando, o senhor bispo de «Hissope» chorando convulso, a Câmara que se ostenta, de vara na mão, atrás de S. Jorge emplumado e encouraçado. Esta Elvas! … Esta Elvas! … Como um cemitério que se agita, cobrindo-se duma população repentina e variada, que infindável maré ondulante de espectros, que estranha poeira de sortilégio, animando-se dum vigor comunicativo!

Há vultos familiares – vultos que se assinalam á minha pupila estática por um traço de humana afinidade – de espiritual parentesco. Eis João de Laboeira, o rico mercador, alinhando a história enternecida de Amadis cavaleiro perfeito, que, se não fraquejava em frente de gigantes e dragões, desmaiava de amor ao avistar Oriana, sua senhora. Aquela de murça e lento gesto canónico é o bom Aires Varela, que nos pôs Homero deambulando pelos arvoredos de Elvas e aqui colocou os fabulosos Campos-Elisios das beatitudes da Antiguidade. Depois, buscando hervas e estampando flores, surge Garcia da Orta, amigo de Camões e douto como os que o eram.

Esta Elvas! … Esta Elvas! …

A noite morre, o dia rompe, outra vez vem, outro dia morre – e Elvas, igual á essência eterna da Vida, com os seus baluartes, o seu aqueduto, as suas igrejas e os seus eirados, continua sendo um apelo súbito ás forças que dormitavam dentro da nossa sensibilidade. Só os homens não entendem a calada linguagem da fortaleza, saída da mesma forja de que saiu, veemente e nobre, a raça de que nós hoje somos os vis bastardos. Perpétuo exílio – incompreendido destêrro! Sinto-lhe eu toda a dor sem nome, todo o peso enigmático e fatídico.

Esta Elvas!... Esta Elvas!...  E refugio-me no tal jardinzinho versalhesco e discreto, com serranias azulinas a distância. Aflui-me então do coração á boca, como uma bebida amarga, uma velha canção francesa. E como um responso rezado a mim próprio, as urnas de mármore e os banquinhos de idílio confidencial soluçam mansamente comigo:

Nous n’irons plus au bois,

Les lauriers sont coupés!

Setembro, 1924

(De  de  Vitae et Moribus)

………………………………………….

Agora o Soneto


Elvas ao crepúsculo

 

Sobe da terra a confusão antiga,

Sobe da terra e avança p’ra muralha.

Suspenso, quieto, o coração que diga

Toda a tragédia que ela acorda e espalha!

 

Das coisas mortas, com mortal fadiga

A sombra fez destroços de batalha …

Sobe da terra a confusão antiga

E aperta nos seus braços a muralha.

 

E a noite cai! Sinistro e resoluto,

Caminha a passos firmes o Aqueduto,

Como quem vai marchando p’ra a escalada

 

Rendeu-se a Fortaleza! … Inda um momento

Pairou desfeito o seu perfil cinzento,

E só ficou a treva sobre o nada

 

……………………………………….

 

Apetecia-me terminar aqui, mas sinto que vos devo ainda umas palavras, porém como as minhas ficam sempre aquem de quanto queria dizer vou ler um belo poema de Almada Negreiros, este poema começa com um poema de Henri Matisse que vou traduzir livremente:

 

Trabalho o mais e o melhor

Que posso em cada dia,

Faço o meu melhor, depois

Se o que resultou não é bom

Eu não sou responsável,

É só porque eu não sei fazer melhor.

 

A Flor    

    

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Uma numa direcção outras noutras; umas mais carregadas outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas ás pessoas: Uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz Uma flor!

………………………………………

 

Queria que acreditassem, que tivessem podido sentir, que estive sempre aqui como Matisse pintava. Que persegui a poesia como a criança perseguiu a flor.

Até porque procurei seguir a lição de Rilke, um dos poetas que mais me apaixonam, vou citar:

 

           

Experimente dizer como se fosse o primeiro homem o que vê, o que vive, o que ama, o que perde.

Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o aflorou, a sua fé na beleza, diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize para se exprimir as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações.

Se o quotidiano lhe parecer pobre não o acuse, acuse-se a si próprio, de não ser bastante poeta para conseguir aproximar-se das suas riquezas.

………………………………………………….

 HPIM1064

Se não vos conquistei é da minha pobreza que me desculpo, porque tal como a Criança,

eu sei, ter perseguido as linhas com que Deus faz uma Flor.

 

 

 

Maria José Rijo

 

estou: Programa de Poesia
música: antigo - Emissor de Elvas 1982

publicado por Maria José Rijo às 13:06
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4 comentários:
De GUS a 15 de Abril de 2012 às 10:20
Oh Tia já terminou o programa de poesia???
Que pena.... é mesmo um bom programa com
magnificas escolhas.
Agora fico cá a pensar o que mais nos vai oferecer
e sabe Tia estive cá a pensar que a tia tem um
grande expolio literario que dava para fazer uma
boa antologia. Acredito que seria importante. Toda
a sua poesia. Eu ADORO todos e cada uma delas.
Mas quem sou eu...

Ah e a prima já lhe deu o que eu pedi??
Vá prima não se esqueça.
Muitos beijinhos
do
GUS


De Xavier Martins a 15 de Abril de 2012 às 10:23
Oh mas que pena ser já o ultimo programa de
poesia.
Mas quando algo termina - algo novo vai iniciar...
Não é??
Cá fico a espera.
Com muita amizade e admiração
Xavier Martins


De Flosinha a 1 de Maio de 2012 às 03:42
Boa noite
Peço desculpa pelo atrevimento,mas desde que tenho o meu blog que visito o seu, tenho uma grande admiração pelo que escreve. Acho que é de grande interesse e que deveria ser mais divulgado. Assim sendo, resolvi dar a conhecer aos administradores dos blogs do sapo (espero que a senhora não fique muito zangada comigo). O teor do dialogo foi este:

Olá
Não sei se este blog http://paula-travelho.blogs.sapo.pt/já foi alguma vez destacado, mas acompanho-o desde o inicio do meu (2007) e acho de grande interesse.
Podem vê-lo? Obrigada.
link do comentário | responder a comentário | discussão


Pedro @ 12:15 Seg, 30/04/12


Bom dia,

Não conhecíamos. Pode só recomendar à autora diminuir o número de posts que aparecem na página inicial? Mesmo aqui, o blog está muito lento a carregar, devido ao número de posts que aparecem logo (pode ativar um menu de navegação no fundo da página, para permitir aos leitores continuarem a ler mais, se quiserem)
link do comentário | responder a comentário | início da discussão

Agora deixo que a senhora decida o que fazer em relação á sugestão do Sr. Pedro e assim o seu blog poder ser destacado e tal como merece ser lido por ainda mais pessoas. Só peço mais uma vez que me perdoe o atrevimento, mas eu acho que todo este conhecimento e experiencia de vida tem que ser partilhado.
Com consideração
Flosinha


De maria José a 9 de Maio de 2012 às 18:09
Flosinha - acredita que é aquarta vez ao longo desta semana, que tento responder ao seu comentário e não consigo porque a net cai?
A Paulinha que como tenho dito é a autora deste blogue aconselhou-me a escrever no seu onde costumo ir "comer com os olhos"os seus maravilhosos petiscos .Se desta vez não conseguir, irei, na minha visita, fazer essa tentativa..
Creia que já sinto um certo desconforto por ainda não ter conseguido agradecer-lhe tão generosa iniciativa.
Só mesmo "uma Flosinha" para ter gesto tão desprendido .
Eu, não sei se mereço essa distinção que me propõe, mas, ter merecido uma amizade tão bonita e expontânea já é compensação bastante para o meu coração..
Acredite que, na minha idade, gestos como o seu quer resultem, quer não, adoçam os meus dias e dão sentido a este vício antigo de escrevinhar
Deixo-lhe um abraço grande e grato e, faço-o também em nome da Paulinha que, como digo é a responsável por esta papelada ter saído da gaveta.
Aceite, por favor, o lugar que reservo para si no meu afecto
Grata a maria josé Rijo


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