Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Luto

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.980 – 3 de Março de 1989

A La Minute

LUTO

 

Quase inadvertidamente, escrevi a palavra “luto” como cabeçalho deste apontamento. Detive-me, depois, a pensar nela sem saber bem o porquê da sua escolha, mas subitamente entendi que nenhuma outra caberia ali, em seu lugar.

Não que eu tente, ou sinta que deva fazer aqui, qualquer elogio fúnebre. Outros, com mais direito, para tal, e bem melhor o farão.

Não! – Não é isso! O que sinto que me cabe e me leva a falar é a parcela de luto que cabe a cada elvense, mesmo àqueles que ainda se não aperceberam, de como é empobrecedor, de como é triste, de como é irremediável, que “Zé de Melo” tenha emudecido!

Familiares e amigos – choram alguém – que acabam de perder do seu convívio.

Fosse ele quem fosse, havia de ser chorado, que a amizade e amor perdidos, são sempre falta irreparável nas vidas dos que vão restando.

Desta vez, esse Homem que partiuJosé Picão de Silva Tello tinha uma ligação de sabedoria e memória tão enraizada na história da sua terra, que dela podia falar, contar, ensinar e dar testemunho, quase como o lendárioZé de Melo”a quem tomou, de empréstimo, o nome para lhe servir de pseudónimo.

 

Eu estimava este Homem, cuja morte enlutou a cidade de Elvas. Admirava-lhe o saber, a lucida inteligência. Falar com ele encantava; ouvi-lo era escutar a memória viva da cidade e aprender um sem número dessas pequenas coisas de que é feita, afinal, a verdade da vida.

Quando a doença o atingiu, fui visitá-lo à Casa de Saúde – estava nos cuidados intensivos – quando já começara o seu frente a frente com o fim que se avizinhava.

Falou-me com voz segura. Cumprimentou-me com o cavalheirismo e a atenção que comigo usava, quando de visita a sua casa, cavaqueávamos sentados à camilha, com sua mulher.

Não se lamenta. Percebi que mesmo naquelas dolorosas circunstancias, defendia com coragem a dignidade que timbrava a qualidade do seu comportamento nesta vida. Admirei-o mais, por isso, também.

Não sou de grandes frases. Nem elas me parecem justas frente à grandeza de Vida e Morte.

Penso, no entanto, que, mesmo aqueles que nesta hora não sintam, como eu, a falta do amigo, mesmo a essas, cabe a sua quota parte no luto que atingiu a nossa cidade.

 

Maria José Rijo

 

 

estou: Jose picão da Silva Tello
música: Zé de Mello

publicado por Maria José Rijo às 20:25
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2 comentários:
De Xavier Martins a 7 de Junho de 2012 às 20:42
Mais um belissimo texto.
Lembrando um Grande Homem como foi o
José Tello - Homens como este já não se
fabricam ., pelo menos de caracter...

E os meus Parabens pela escolha das imagens
fazem os seus textos ainda mais bellos e
faceis de ler - isto quando são grandes.

Parabens sempre!!
Xavier Martins


De Flor do Cardo a 8 de Junho de 2012 às 01:06
Mais um bom artigo.
A minha amiga Maria José tem um grande
GRANDE nº de bons artigos - eu diria todos.
Todos com a sua belissima linha de escrever
de dizer/contar assim desta maneira tão sua.

Sempre cá em casa a sua linha de honestidade
foi muito apreciada.
Mesmo noutras alturas - como da batalha da
quinta do Bispo - que suponho - estar a morrer
aos bocados - a apodrecer por ser rejeitada...
Sei como é...
Mas mesmo aí a sua Honestidade sempre esteve
por cima de TUDO e até quando más palavras/pedras a atingiram - nunca saiu do salto
como se diz por aqui.
Portanto - minha amiga - Força para caminhar
- o caminho é em frente.
A história não fala dos débeis nem dos que cairam
por terra - bom falam de alguns Judas...
e desses ainda há muitos infelizmente...
Na minha idade já não tenho pruridos em dizer o
que penso - a verdade está acima de tudo.
E se a razão está comigo !!
Estará independentemente do que os outros digam!
FElicidade e continue sempre assim.
do seu amigo e admirador
Luciano


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