Terça-feira, 3 de Julho de 2012

Questão de Valências

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.042 – 11 de Maio de 1990

A La Minute

QUESTÃO DE VALÊNCIAS

 

Há muitos anos, uma das minhas sobrinhas trouxe-me de um passeio ao Guadiana, bem acautelado num bolsinho do bibe, um presente singular: - um calhau branco, redondo e polido por tempos imemoriais de intimidade com as águas do rio.

Deu-mo com a compenetrada seriedade dos seus cinco anos, dizendo:

    - “é para a tia fazer qualquer coisa!...”

Guardei o calhau, que conservo ainda, em lembrança desse momento em que, num puro impulso, uma criança me provou a sua confiança, reconhecendo-me capaz de entender e ficar, como ela, rendida à beleza de coisa tão sem cotação no mundo dos adultos – um calhau!

Um calhau rolado, sabe-se lá, por quantas ondas e marés!

 


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Com data de 14 de Abril, recebi de Coimbra uma carta singular, cheia de sugestivo interesse.

Por ela me faziam presente de um recorte de imprensa, que, aqui se transcreve e onde, após os votos de Boa Páscoa se dizia: - “Porque lhe envio isto, nem eu sei…”

 

“Vendo-os assim tão pertinho

A Galiza mail’o Minho

São como dois namorados

Que o rio traz separados

Quasi desde o nascimento

Deixa-los, pois, namorar

Já que os paes para casar

Lhes não dão consentimento”.

 

A maravilhosa oitava de JOÃO VERDE que antecede fez eco por montes e vales da vizinha Galiza, dando origem a que o Poeta de Vigo, D. AMADOR SAAVEDRA, assim respondesse:

 

“Se Dios os fixo de cote

Um p’ra outro e teñem dote

Em terras emparexadas,

Pol’a mesma auga regadas

Com ou sin consentimento

D’os pais o tempo há chegar

Em que teñam que pensar

Em facer o casamento.”

 

- Se calhar, ele até sabe!

- Pela mesma razão que ao avistar o campo agora florido de roxo de chupa-mel, ou dourado e branco de mal-me-queres, se pensa na fotografia ou, no quadro que este ou, aqueloutro fariam…

- Pela mesma razão que ao olhar o pintainho fofo, ou o cabrito acabado de nascer, assoma na nossa alma o olhar das crianças que fomos, ou daquelas que trazemos em amor no coração…

- Se calhar por aquela velha razão, de que às vezes, por muito bem couraçados que nos julguemos na nossa muralha de adultos indiferentes – onde o bom tom é encolher os ombros a insignificâncias – sem nos darmos conta, tantas vezes, cedemos à criança que nos habita e ficamos desprotegidos, confiantes e ingenuamente felizes – como quereríamos nunca ter deixado de ser…

 

- 0 – 0 – 0 –


Numa destas tardes, cinzentas e chuvosas, em que desatenta lia o jornal e olhava a televisão sem
motivação para escolher em definitivo – deixei de repente o jornal cativada por um cientista a falar na TV.

Contava de galáxias, formação de mundos, oceanos que se julgava despenharem-se no oblívio, átomos, quarks e coisas tais que, a falar de ciência, parecia criar um mundo mágico de ficção.

No fim, com ar cúmplice, como que a piscar o olho ao espectador entendido – disse que as crianças perguntam porque é azul o céu, porque não caem os pássaros, como é que se segura a lua e outras coisas assim, e que os adultos deixam de fazer perguntas. Porém, aqueles que conservam a curiosidade das crianças e continuam a interrogar – são os físicos e, talvez, os poetas.

Se calhar – Álvaro Abreu – ambos sabemos porque me escreveu…

Talvez porque a pescar achigã no Guadiana – ali na Ponte da Ajuda – se possa poetar como no Minho
capturando o salmão…

Quando o Álvaro evocou Elvas – sua cidade mãe – num belo poema em que escreveu:

“Minha dama doutros tempos

 Minha linda dama antiga…”

não pensaria, por certo, que com esses dois versos eu dissesse adeus a sua Santa Mãe –

em S. Miguel, nos Açores – a última vez que a vi – mas foi – e que bem que lhe ficavam…

 

Maria José Rijo


publicado por Maria José Rijo às 15:36
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1 comentário:
De Xavir Martins a 4 de Julho de 2012 às 17:26
Sempre BONS artigos.
Os meus Parabens
Mais um menos um, como se costuma dizer !!

Boas férias

Xavier Martins


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