Sábado, 7 de Julho de 2012

MEMORIA

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.046 – 8 de Junho de 1990

A La Minute

MEMÓRIA

 

A preocupação de obrigar os estudantes, nos liceus, a aprender sintaxe sobre o poema épico de Camões, dividindo as suas magnificas estrofes em orações, migando-as em complementos e vasculhando-lhes a alma à procura de sujeitos e predicados – como se fosse preciso autopsiar um corpo para confirmar a presença do coração – tornou – a meu ver, os Lusíadas, para os jovens, como um suplício que urge esquecer, logo que possível, como um trauma provocado por desastre.

Daí, talvez, a tendência generalizada para ignorar ou, até, aborrecer, o que era para ser amado
espontaneamente, como se ama o mar, o céu, a Natureza!

Tive em garota o privilégio de ser tratada como neta, entre as duas netas de verdade, por um
homem singular que se chamou: António Aresta Branco.

O Dr. Aresta Branco (Pai) foi, desde novo um Republicano convicto. Foi ele o organizador do Partido Republicano no Distrito de Beja. Foi deputado ainda durante a Monarquia.

Em 1910 escrevia para o jornal ! A Pátria” com Higino de Sousa e Brito Camacho – de quem foi grande amigo. Foi perseguido pelos seus ideais. Foi Governador Civil por Faro e Beja. Foi três vezes eleito Presidente da Câmara de Deputados em
1917, foi Ministro da Marinha, na primeira Presidência de Bernardino Machado.

De nascimento humilde, era ajudante de farmácia, na sua terra natal – a Amareleja – quando aos 22 anos começou a estudar. Aos 32 já era médico, e quando, em 1952, faleceu contava
noventa e foi chorado pelo que em vida fora: - um Homem de bem, um político sério
e coerente, um médico famoso – um português de lei.

Quando rapazinho, de escola, foi companheiro e amigo de meu avô paterno, e foi em memória dele que me deu o seu precioso afecto, quando pelo apelido Travelho, me identificou, por
altura DO EXAME DA QUARTA CLASSE QUE FIZ COM A SUA NETA MAIS VELHA.

Passei assim, muito da minha infância e adolescência na sua residência de Beja, na rua antiga e estreita que tem o seu nome e que antes se chamava – julgo lembrar – das Ferrarias.

Nessa bela casa havia uma sala enorme – a sala grande – como a designavam as empregadas – na qual sobre uma mesa de madeira negra, trabalhada em talha rendilhada em lugar de destaque, parecendo entronizado, estava um belo e raro volume de “Os Lusíadas”, junto do qual se mantinha uma jarra de cristal, como um enorme copo, sempre com flores frescas colhidas nos canteiros do seu jardim.

Para as crianças que nós éramos então, aquele culto, era motivo de reverente e, também, deslumbrada admiração.

Na sala – sempre à média luz, a claridade vinha das frestas das janelas, coava-se pelas cortinas de
renda fina e fazia reflexo no brilho do mobiliário e no veludo pesado dos reposteiros que encobriam as altas portas – aquela mesa votada ao culto de “Os Lusíadas” dava-lhe um quê de santuário e falava de heroicidade e Pátria – como a lâmpada a arder na capela do soldado desconhecido.

Com a sala, pegava o escritório do Avô. Mobilado ao gosto da época. Móveis pretos, de pau santo, com tremidos e torcidos, contador de gavetinhas, cadeiras de couro com alto espaldar, tecidos de “gobelin” e o infalível cofre de ferro, pesado e imponente, com a porta decorada com iniciais de belos e rebuscados arabescos identificando a marca inglesa de origem. Fechadura de segredo e puxador de reluzente metal amarelo, redondo como um pequeno volante… Porém, este gabinete, além do figurino da praxe, tinha a particularidade de ter em volta, nas paredes, em grossas molduras todas iguais, encaixilhados, os retratos dos presidentes da 1ª República, seus companheiros, que foram, de luta, sonhos e ilusões. Lá estavam:

A Avô dizia: o Bernardino – o Teófilo – referindo assim com intimidade, aqueles “senhores” ilustres, de rosto sério, olhar penetrante e arguto, alguns com finas lunetas, barbas de fino recorte, bigodes farfalhudos. Gente de colarinhos engomados, peito encoberto por “plastrons” de lavrados, casacos de austero corte, que – a um tempo – nos seduziam e intimidavam, como se em lugar de retratos fossem misteriosos sarcófagos.

Era com orgulho que repetíamos a frase que o Avô se libertara da política e voltara à vida de
família, aos seus doentes, aos seus amigos.

Contava-se que dera um murro na secretária, lá no ministério, dizendo: “Esta não é a República para
que eu trabalhei…” e, comovia-nos pensar que ele o dissera e chorara, como um enamorado romântico que visse expirar nos braços a sua amada.

Percebe-se assim que aquele doce Avô, que, porque eu vivia no campo, me chamava a brincar ao som do sinal do horário: Maria José, filha! – olha o cuco! – pudesse também ser entendido por nós como “um português de antanho”“um Portugal velho” – como a ele se referiam – usando expressões arcaicas, como que tiradas de romances de cavalaria – os seus amigos e admiradores.

Mas, é evidente também, que tudo isso tem que ver com culto da dignidade e orgulho de ser português – sentimentos que nos aproximam de Camões e nos fazem perceber que, somos nós, os
Lusíadas, descendentes em linha recta – dos velhos Lusíadas que o seu génio imortalizou.

 

Maria José Rijo

 


publicado por Maria José Rijo às 14:43
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