Quarta-feira, 18 de Abril de 2007

A Senhora Minha Mãe

 Conversas Soltas.        

Jornal Linhas de Elvas

Nº2.290 de 10 de Março de 1995

 

Confesso-me incapaz de definir a confusão de sentimentos que

me inundam e estão a condicionar tudo quanto faço.

            Talvez, o mais forte seja uma comovida ternura a que poderia chamar:

- Íntima alegria.

            Qualquer coisa de tão puro e tão frágil que me encanta, quase faz

sofrer e não consigo expressar.

            Mas, sei que me vão compreender quando eu contar que minha Mãe,

se Deus quiser, fará no mês de Abril noventa e cinco anos e que esse

esperado e feliz acontecimento povoa, quase por inteiro, o meu espírito.

            Não admira, assim sendo, que perpassem na minha mente

 recordações sem conta de que me apetece falar.

            Não herdaram meus olhos a cor azul dos lindos olhos de meu Pai,

que minha Mãe tanto gabava.

            Nasci morena, como a minha Mãe. Trigueira, como ainda hoje é de

uso designar, também as ciganas, lá nos lugarejos remotos deste Alentejo

da minha alma onde me fiz gente.

            Mas… de Mãe e Pai herdei outros bens. Raízes que me têm

sustentado vida fora.

            Transmitiram-me, como genes, valores também já por eles herdados

de seus maiores. Gentes modestas como eles – mas gente séria.

            Ensinaram-me a respeitar os outros como forma primeira de respeito

por mim própria.

Identifiquei, no seu trato, a bondade, a tolerância, a ternura, a solidariedade, a piedade e o dom de saber perdoar.

            Explicaram-me, com firmeza, que as pessoas se enobrecem

 pelo trabalho digno, pela coragem e honestidade do seu comportamento.

            Falaram-me de justiça, esperança, liberdade… Mas, alertaram-me

que só é livre quem souber – quem for capaz – de ser escravo da sua

palavra, honrar tais valores e deles der testemunho na sua vivência quotidiana.

            Preveniram-me que o futuro – tenha a extensão – que tiver, para

qualquer um de nós – será sempre vivido como toda a existência;

instante a instante – porque é impossível açambarcar tempo.

             Tempo, não é terra, nem dinheiro. Tempo não permite usura –

embora também possa render juros…

            Entre o rigor destas coordenadas cresci.

            Cresci, como crescem as crianças a quem Deus concede a graça

 de viver entre Pai e Mãe: observando e com eles aprendendo ao longo

dos cinquenta anos que durou o seu casamento que a morte de

meu Pai rematou.

            Ora, não é que nestes preparativos, interiores e exteriores, em que

 ando empenhada, para me ausentar uns dias para junto de minha Mãe,

que, aliás, visito com frequência – me pareceu lógico falar das coisas em

que medito quase obsessivamente?!

            Tenho a nítida convicção de que não pretendo ser exemplo para

ninguém.

            Deus me salve de semelhante presunção!

            Apenas cito os meus mestres como me é, muito legitimo fazer.

             Daí, evocar minha Mãe, que, destes valores sustenta o seu coração,

 há quase um século e vive hoje no seio da família, que a venera, como

merece.

            Afinal, ela, que não dispõe de bens materiais, terrenos, dinheiros,

todas essas coisas pelas quais tantos se atropelam, agridem e corrompem – envelhece docemente entre as filhas, os netos e os bisnetos.

            Bisnetos!

            Raparigas e rapazes de dezoito e vinte anos, que se revezam

para a acompanhar e tratar preparando-lhe refeições e tudo de que

necessita nem que, para tanto, desistam de festas e passeios.

Em troca, recebem o que dela sempre emanou - amor – por

 vezes em advertências que nem lhes afagam o amor próprio. 

            Já quase invisual, mas corajosa, frontal, inteligente e lúcida,

como sempre foi, mantém o controlo moral da família com a

 autoridade indiscutível do seu exemplo.

            … Quando lhe conto dos meus escritos, porque se interessa

 vivamente, das especulações de má fé a que se sujeita quem se expõe

furando a sistemática aprovação subserviente que por norma envolve

quem detém poderes…

            …Quando lhe dou conta da coragem porque me esforço – para

merecer os Pais que tive – e me faz defender ideias e interesses colectivos

– alheando-me da comodidade própria…

            …Quando lhe confesso que sonhava que jamais no futuro fosse

possível alguém frente a decisões de hoje – pasmar – pensando com

espanto e dor: como foi possível?!!

            Como foi isto possível???

            Só porque os cifrões esmagaram a razão!

            …Quando a distraio com as minhas opiniões, o seu querido rosto

alegra-se e refresca-o um doce sorriso que a rejuvenesce.

            No entanto – como quando eu era pequena recomenda como

se admoestasse:

                        “-Segue a tua consciência

                        -Escuta e atende as pessoas de bem mas nunca

consideres provocações.

            Lá diz o ditado:

                          Coitado de quem as diz …

                          Quem as ouve, não tem culpa.”

 

 

      Maria José Rijo

estou: texto de 1995
música: A minha Mãe Ana dos Santos

publicado por Maria José Rijo às 23:27
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1 comentário:
De dolores a 16 de Janeiro de 2009 às 00:11
Lindo Texto tiazinha
As nossas Mães são o melhor do mundo.
A Tia é mesmo muito querida.
Gosto muito de si.

Beijinhos

DO LO RES


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