Quinta-feira, 19 de Abril de 2007

Os Amigos - Dr.João José Falcato

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Jornal Linhas de Elvas

Conversas Soltas

Nº 2.839 – 10 – Novembro - 2005

Esse grande mestre – o Povo – que é mestre porque acumula a sabedoria dos tempos, ensina: Família – são os amigos que Deus nos dá – Amigos -  são a família que a gente escolhe!

Daí, que quando nós dizemos -  é como um irmão para mim, ou como um pai, estejamos a dar voz à escolha de afectos que nos habitam e fazem parte da estabilidade emocional das nossas vidas.

Todos, mais ou menos, temos amigos. Alguns, porém são amigos especiais. Daqueles que Cícero definiu:

 Photo of a statue of Cicero

“ Ter um amigo, é ter um outro eu;

quando um está ausente o outro o substitui;

se um é rico o outro não precisa de nada,

se um é fraco o outro dá-lhe as suas forças “

 

Já tive dois Amigos assim.

Um, o Dr. Pires Antunes – o meu mano António – disse-nos adeus em Fátima em Agosto de 87; o outro, o Dr. João Falcato, o meu mano João - partiu agora, no dia de Todos os Santos, ao rés da meia noite quando a sua vila de Borba sossegava para adormecer depois  de um dia cheio de bulício em que entre abraços, saudades, lágrimas e risos se vivem e revivem os encontros e desencontros das vidas, como é uso e costume ano a ano, nas festas e feiras das nossas terras.

Dois homens diferentes, com percursos distintos, porém, dois homens marcados com dons especiais.

Um, todo virado para as coisas do céu, encontrou em Fátima a porta por onde entrou no caminho a que a sua fé o conduzia...

O outro(sou um rural! segredava-me) que com a terra se irmanava num telurismo de comovente oração, partiu no dia em que as colheitas de Outono se espalham e mostram, pelas ruas da sua vila natal como um hino de graças a Deus pelo que o céu permite que da terra se colha.

Desse homem – desse “louco” de génio – desse sonhador com alma e generosidade de menino, que beijava as mãos de quem cuidasse de suas velhas Mães; porque, da sua, por quem guardava um profundo culto, ele sempre falava com sombras de lágrimas turvando o luminoso azul dos seus olhos vou, penso que o devo fazer, pela sua profunda ligação à nossa cidade, deixar um bosquejo ad hoc, sem pretensões  nem exatidões de  biografia.

                     

Chamava-se João José Falcato e nasceu em 17 de Agosto de 1915. Tinha 90 anos.

Era natural de Borba. Mercê de circunstâncias várias seus pais, gente abastada, arruinaram-se.

Fez exame de instrução primária aos 18 anos e partiu para Lisboa onde foi Perfeito num colégio e teve o apoio do professor Agostinho da Silva que seduzido pela sua luminosa inteligência lhe ministrava durante as horas do almoço a preparação necessária para aceder à Faculdade.

Embarcou no paquete “Melo” (como oficial?) para ganhar dinheiro.

 

Nessa viagem o paquete naufragou. Viu morrer muitos dos seus companheiros a arder nas chamas que devastaram o navio. Viu outros serem engolidos por tubarões. Conseguiu, com alguns outros mais, sobreviver dias no mar numa pequena baleeira. Foram salvos por um navio que os desembarcou no Brasil.

Aí permaneceu meses num hospital.

Sobre essa dolorosa experiência, escreveu, já em Coimbra, em cuja Universidade se matriculara e se formou em história e filosofia, um romance, que fez imenso sucesso – Fogo no mar – (sobre ele, Matilde Araújo, sua colega de curso, apresentou a sua tese de licenciatura). Sobre o mesmo tema escreveu também “A Baleeira”

Foi fundador e director de revistas e jornais (Brados do Alentejo, revista Volante etc...) e colaborador em muitos outros. Deu precioso apoio ao Linhas de Elvas, na sua fase de lançamento, e, onde intermitentemente foi colaborando ao longo da sua vida.

Escreveu vários livros, num deles “Elucidário do Alentejo? – faz numa belíssima prosa/poesia a apologia da “loira açorda”. Em “Roteiro de Amor”, espraia-se louvando Elvas.

Foi redactor do Diário de Notícias – de onde viria a sair, como muitos outros, pela mão de Saramago – após o 25 de Abril.

Foi chefe de gabinete de Veiga Simão enquanto Ministro da Educação. Nessa qualidade, bem como na de Redactor do D.N. viajou pelo mundo, especialmente por Angola. Sobre essas viagens deixou-nos obra valiosa em livros e crónicas - Saudades de Portugal – Angola do Meu Coração - Foi um dos fundadores do jornal “ o Dia” com João Coito seu amigo particular, que em 2001ao falar sobre o Panteão Nacional, assim se lhe referia: - ”Já foi seu conservador durante algum tempo, por amável e justa decisão do Dr. Almeida Santos, o meu velho amigo João Falcato, ilustre escritor e jornalista que a idade e o gosto transformaram no mais afamado e amoroso cultivador dessas perfumadas vinhas de Borba”. Foi contemporâneo e amigo de figuras gradas das nossas letras de quem guardava livros com honrosas dedicatórias. Almeida Santos (que foi seu caloiro de republica, em Coimbra), Mário Soares (a quem apresentou Maria Barroso, com quem se casaria, circunstância que os três relembravam, com humor até em entrevistas), Virgílio Ferreira, Torga, Namora, Alçada Baptista, Eugénio de Andrade etc. de artistas, Bual, Gil Teixeira Lopes e outros. Foi devotado amigo de Sebastião da Gama, de quem falava com lágrimas de saudade e, que, por misericórdia de afecto, amortalhou por suas mãos.

 Um nunca acabar de histórias ligadas à história das letras portuguesas que faziam de João Falcato, um brilhante conversador, conhecedor do mundo e das pessoas que esbanjava cultura e saber com um espírito, uma graça e uma vivacidade inigualáveis.

Em Elvas foi director e proprietário do Colégio Elvense – de boa memória – onde leccionava e onde granjeou bons amigos entre os seus antigos alunos.

Foi um dos fundadores da Adega Cooperativa de Borba sua terra de berço onde vivia plantando vinhas e sonhando êxitos para os netos que adorava.

Junto de si, quando faleceu, tinha o seu devotado neto Zé.

A sua última publicação foi: “Entre Gatos e Pardais” contos infantis, da Bertrand, em 96.

Na sua Vila morreu, incompreendido por muitos, talvez...mas admirado por todos que o sabiam e entendiam como um “eterno estudante coimbrão” ali desterrado porque preso pelo coração à terra fértil que não o traía, respondendo sempre, ao contrário das pessoas, com

os frutos da gratidão!

A terra não se vende!

A terra não se fabrica!

Só há a que Deus criou!

 

 Repetia com unção, olhando as suas vinhas, como que unindo céu e terra numa mesma oração de graças.

                                                 

Maria José Rijo

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 23:41
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6 comentários:
De Xanu a 20 de Abril de 2007 às 03:20
Confesso que não conheço muito da obra do Dr. João Falcato mas a obra de Dª Maria José Rijo, essa sim conheço-a bem e gosto tanto que já a recomendei a muita gente. Gosto da sua sensibilidade artística no geral, não só como escritora mas também como pintora. Tenho pena que actualmente em Elvas não se lhe dê o devido valor por questões partidárias.
Tenho saudades das nossas conversas. É um prazer falar com essa senhora que tanto aprendeu durante a sua vida e que sabe transmitir esse conhecimento duma forma que nos cativa. Poucos permanecem indiferentes e quando o fazem é por pura e simples teimosia para não lhe chamar burrice.
Espero que um dia Elvas saiba reconhecer o valor dessa senhora que continua a ser simples como todos os que são grandes.
Paula peço-lhe que se tiver oportunidade transmita à D. Maria José Rija o meu apreço e lhe dê um beijinho por mim. Diga-lhe que tenho saudades das nossas conversas na Renascença.
Aldina


De Manel Piorna a 26 de Maio de 2007 às 22:38
Há coisas inetendíveis! Como vim parar aqui? Dr. Falcato. Sim! Mero acaso ou mente guiada po Ser em quem acredito.
Vou registar o blog, e se a Paula-Travelho mo pemitir, estarei aqui sofregamente procurando fontes de Cultura. Fontes de Cultura? Exactamente! Conheci o Dr. Falcato só de vista, mas conheço alguma obra dele. Na altura eu estudava na Escola Industrial e comercial de Elvas. Os contactos com os alunos do Dr. Falcato eram constantes.
Quanto a Maria José Rijo, sou devoto admirador e defensor de " Conversas Soltas" as quais nem sonhar quero ver amordaçadas. Aos problemas de Maria José Rijo, não são políticos, são sim de Cultura.
Tenho um relacionamento muito agradável com esta Senhora da Cultura, não só pela sua postura, mastambém como ex-aluno de seu falecido marido meu ilustre professor de Educação Física.
Com o desejo dos maiores exitos, e a promessa de aqui voltar,

Manel Piorna


De HÉLIA SANTOS a 7 de Abril de 2009 às 10:50
Bom dia!
Por ironia do destino fui parar à vila de Borba, e em meados de Novembro de 2008, comprei para minha habitação própria permanente o "Palacete Dr . Burstorff Silva" , a uma das herdeiras do Dr .João Falcato, tendo sido ele a ultimo proprietário do referido imóvel, e a última pessoa a habita-lo. Por este motivo , tenho andado à procura de quem era o Dr .João</a> Falcato,como homem, escritor, e de que forma foi importante para esta vila e para esta casa.
Através de algumas feiras , já consegui alguns exemplares de livros escritos pelo Dr . João Falcato,estando neste momento a ler "A Baleeira".
Foi com um enorme prazer e satisfação que encontrei o seu blog. Se tiver e quiser partilhar comigo algo que eu possa acrescentar à memória, que pretendo preservar, do Dr . João Falcato, junto desta casa, fico-lhe muito grata. Hélia Santos


De Maria josé a 15 de Abril de 2009 às 18:47
Helia Santos
Não sei se já habita a casa que pertenceu ao dr. Falcato. Quero dizer: não sei se já reside em Borba. Terei muito gosto em partilhar consigo lembranças, aliás , bem interessantes, desse velho coimbrão que tivemos o gosto de ter como bom amigo.
Tenho até algumas coisas que, talvez goste de conservar.
Se quiser visitar-me, terei gosto e a conhecer.
Já pensei ir a Borba procura-la mas tenho tido visitas e agora o tempo não ajuda.
Fica a oferta: - estou ao seu dispor, até para lhe emprestar alguns livros que dele possuo.
cumprimentos maria josé Rijo


De Hélia Santos a 27 de Maio de 2009 às 15:21
Boa Tarde.
Queria agradecer-lhe e muito, por esta iniciativa de ter criado este Blog.
Pois foi através dele que tive o previlégio , o enorme previlégio,de conhecer pessoalmente a Sra.D.Maria José Rijo.
Nunca terei palavras de agradecimento suficientes para lhe demonstrar o quanto foi importante para mim.
Atentamente,

Hélia Santos



De João falcato a 23 de Julho de 2013 às 21:11
Era meu primo e conhecio-o desde que era miúdo. lembro-me dos olhos dele - iguais aos da irmã - e de conversas que escutava. Dei com este blog por acaso e com vivências que também desconhecia. Obrigado!


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