Terça-feira, 24 de Abril de 2007

O Pão - Reminiscências

Junto ao contentor do lixo, um saco de plástico transparente deixava ver perfeitamente o conteúdo: - Pão!

Qualquer pessoa responsável, nem precisa ser mãe de família, olha e mentalmente pensa: - torrado dava para pequenos-almoços, merendas... No capítulo das sopas, açordas, sopa de tomate, de cação, de batata, de espargos,... Dava migas simples, migas de bacalhau, migas gatas, migas à nossa moda alentejana. Sopa de ensopado, sopa da panela, Também daria fatias douradas, fatias recheadas, pão ralado, ou outras coisas mais...

Podia, ainda, servir para ração de galinhas, de gado, p’ró cão, p’ró gato, para dar aos pardais ou a quaisquer outros passarinhos.

Tudo, tudo, menos o destino de desprezo, no chão, com a sentença da viagem até ao vazadouro público!

Pão!

Mas pão, nas minhas reminiscências é uma evocação mítica.

Pão é Vida – é mistério da criação – é Hóstia – é sangue, suor e esperança da humanidade através de todos os tempos.

Não é aquele alimento corriqueiro que se compra na padaria com a displicência com que se compra outra coisa qualquer...

Pão é também oração: - o Pão-nosso de cada dia nos daí hoje!

E, era tudo isso que estava junto ao contentor.

Era a história dum alimento mítico.

Lá... lá naquela tal aldeia, igual a todas as aldeias daqueles tempos no Alentejo, de lá, bem do fundo da memória soltam-se as lembranças das manhãs frias ou chuvosas em que a carrinha puxada pela égua alazã trotava estrada fora levando as crianças a caminho da escola.

Dum lado e doutro da estrada a terra das searas, às vezes acabada de lavrar, terra de barro, vermelha como carne viva, aconchegada no silêncio contemplava o céu e aguardava o germinar da semente que da mão do homem já tinha recebido ou lhe ia lançando para os sulcos que o arado ia rasgando ao compasso do esforço da muar que o puxava e  que o homem seguia em passo  a ele ajustado.

Era largo e generoso o gesto do semeador.

Era belo e solene como uma profecia de esperança feita por um deus.

A terra é mãe, dizia a cada passo o almocreve que conduzia a carrinha, como se rezasse.

E, como numa cumplicidade feliz com o tempo, assobiava baixinho ou trauteava alguma cantiga sem soltar a “beata” do canto da boca.

E, ano adiante por o mesmo caminho íamos seguindo como numa saga todas as fazes por que a seara passava até ser pão e sustento das gentes. Quem tinha pão já não era pobre de todo.

No pão, no “panito,” não se mexia sem lavar as mãos, mesmo por lá onde mais do que a pobreza, a própria miséria, muitas vezes imperava. O pão fatiava-se encostando-o ao peito, sobre um pano branco. O saco, “o taleigo ” do pão só servia para pão,  nada mais,

por respeito. O pão punha-se sempre direito sobre a mesa, porque ninguém ganha o pão com honra de barriga para o ar.

O pão é fruto do trabalho, é filho da terra, e a terra que dá o pão que alimenta a vida também gasta o corpo do homem já sem vida

Com pão se comunga.

Quando o pão cai ao chão levanta-se e beija-se por desagravo, como se pede desculpa a alguém que inadvertidamente tivéssemos ofendido.

Desde muito jovens as raparigas aprendiam a peneirar a farinha, a amassa-la com água, dentro dos grandes alguidares de barro. Antes de o fazer escondiam os cabelos sob um lenço branco, cobriam as roupas com aventais também alvos como a farinha e faziam o sinal da cruz. Eram preceitos transmitidos e aceites através de gerações.

 Terminavam a tarefa da amassadura de respiração ofegante e faces coradas como no cansaço feliz de um acto de amor.

Antes de abafar a massa, para que levedasse, com a mão direita desenhavam-lhe uma cruz enquanto rezavam: Deus te acrescente, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, Amem!

E eram as mesmas mãos que tinham mondado a seara, que tinham partilhado a ceifa ao lado dos homens, que tinham limpo o trigo nas eiras depois que o trilho o separara da palha, que cumpriam essa tarefa abençoada, depois que da moagem ou das azenhas do Guadiana, chegavam a casa as sacas de farinha.

Eram as mesmas mãos que sabiam tender a massa e aconchega-la nos tabuleiros entre as dobras dos panal ”.

Eram as mãos de quem sabiamente ensinava: Pão, nunca se deita fora, nem se estraga, nem se deixa de sobra sobre a mesa.

O que alguns esbanjam, seria a salvação de outros que nada têm.

Essa, também é, ainda hoje, e, será sempre uma verdade perene.

                                       Maria José Horta Travelho de Almeida Rijo

Jornal Linhas de Elvas

24-Março – 05 – Nº 2.806

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