Domingo, 29 de Abril de 2007

Coisas que se dizem: Ter tempo

Por vezes se bem pensássemos, nós próprios ficaríamos admirados com o conteúdo intrínseco das afirmações que fazemos.

            Ter tempo!

            Mas, quem tem tempo?

O que é o tempo para se ter ou não ter!

Até porque, do tempo, só se teve ,ou foi nosso, o que por nós passou, e, como tal , já nem temos. Também jamais alguém sabe de quanto tempo poderá  vir a dispor.

Voltando ao princípio o que é o tempo?

O tempo é a vida?- Viveu pouco tempo, muito tempo... diz-se!

É o estado da atmosfera? - está bom tempo, mau tempo, também se afirma!

Como está por aí o tempo?- Soe perguntar-se. Já a resposta é que difere. O tempo está de boa cara, má cara. Faz carrancas, carantonhas, faz fosquinhas, caretas.

Terá o tempo rosto? Ou terá feitio?

O tempo é bom, ou está bom. O tempo é mau ou está mau. O tempo é bonito ,é feio. É de bonança, borrasca.

            O tempo perde-se!- Perdi o tempo. Também se encontra : achei tempo.

            Convenhamos que são excessivas as opções. Então como escolher?

Será a relação entre as épocas?- presente, passado, futuro...mas alguém segura e sustem, por ventura, qualquer delas?

Volta-se ao princípio : quem tem tempo?

Pode-se ter a memória das vivências , mas o tempo, propriamente,  ninguém o guarda. Ninguém o pára. Ninguém  conserva para mostrar “o seu tempo”, mas do que se fez ao longo dele se poderá dar testemunho.

Então, será o tempo, lembrança?- memória...

Será o tempo idade?.- Será duração das coisas, das pessoas? - será apenas um conceito relativo , contrário ao de eternidade!

A idade é distância do princípio. A distância dá perspectiva para um olhar mais lúcido sobre os factos. Será isso o tempo?- A idade?

Mas idades !- são fracções de tempo, - do ferro, do bronze, antiga, média, etc ., etc , eras...Outras  eras ...outros tempos...

Será a sucessão de horas, dias, semanas anos que nos dão a sensação de tempo?

Será o tempo apenas criação dos relógios?- mas, mesmo com os relógios do mundo todos, a tritura-lo ritmicamente, ou parados, o tempo passa, escoa-se, não se deixa aprisionar.

Se passa , para onde vai! - ninguém o pára, ninguém o detém , ninguém o toca. , ninguém o palpa.

Então como se mata ?- e, do tempo, também se diz que se mata e que se gasta, que se aproveita, se estraga., deita fora ...

Não sei o que é o tempo. Nem sei se o dia e a noite se sucedem apenas para que não tenhamos a audácia de pensar que “o nosso tempo” é infinito, porque do tempo não se conhece o fim , nem o principio, ainda que saibamos que é finita a parcela que nos cabe.

            Sei que vivo, tenho vivido nesta época, que se tornou a minha porque nela existo. Sei que época quer dizer um determinado tempo ;que sendo este, agora , assim , se torna o meu.

Não entanto, sendo meu, o  não possuo...mas, gasto. Gasto, ou usufruo?.

Como é que gasto se ele permanece aquém e depois de mim?

Também se usa dizer:- chegou cedo, chegou a tempo., ou mesmo fora de tempo. Cedo é madrugada, manhã? Ou, cedo, é antes do esperado?

Outra frase repetida à saciedade é que tempo é dinheiro. Será riqueza a velhice - e pobreza a juventude ! Será esse o conceito a extrair de tal afirmação? Ou, viver é amealhar experiência  e ser milionário de tempo. E, os que se apressam para ganhar tempo. Onde o têm? Onde o retêm se o ganharam e lhes pertence!

. Até porque o tempo a que chamamos nosso é de toda um geração, é também, de outros aquilo que designamos de forma possessiva: - o meu tempo.

Em tempo se nasce, em tempo se vive, e, no tempo - na nossa hora - saímos do nosso tempo . Do tempo que nos teve e tivemos simultaneamente -  sempre sem segurança de amanhã, de hoje, ou simplesmente : - agora, mas ,com memória de passado e esperança no futuro que existe, como tempo, ainda que não nos venha já a pertencer - se vive.

Se, como disse João de Deus: ( e eu creio nos poetas porque sendo “visionários” antecipam as realidades ) - a vida é o dia de hoje - a vida é ai que mal soa,- a vida é sombra que foge,- a vida é nuvem que voa - Sou levada a crer ,em última análise que - o tempo -  que afinal não sei definir ,se mede com a Vida, que , por sua vez, pelo tempo se afere - A vida dura um momento , mais leve que o pensamento, - também refere o poeta.

Assim: Vida e Tempo se confundem; e sendo para nós, bens efémeros, são parte de um “Bem Infinito” no qual perpassamos como nos céus as estrelas cadentes, rastros de luz que o negro da noite absorve e envolve no esquecimento como faz o tempo.

 

 

                                 Maria José Horta Travelho Rijo

 

                                              Escritora e Poetisa

 

 

Revista Norte Alentejo

Nº2 – Julho de 2000


publicado por Maria José Rijo às 22:06
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1 comentário:
De Luis Miguel a 14 de Maio de 2007 às 13:37
Gostei muito.
Muitos Parabéns por esta belissima prosa.

Luis Miguel Martins


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