Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Reminiscências - I

 

 

                       

Os meninos de agora regressam das aulas, e, ou ficam na rua soltos a brincar ,ou sentam-se frente a computadores e televisões , situação que lhes pode ser benéfica ,ou não. Podem em boa verdade aprender coisas fantásticas ! Podem; mas não conversam, não têm com quem rir , com quem partilhar a aventura de aprender, e isso é uma falha irreparável na sua formação.

            Era bom que às vidas de hoje , a par de todas as coisas que os avanços da tecnologia oferecem, se pudessem adicionar os serões de família em que conversar, contar histórias, era para além de uma forma de entretenimento, uma maneira divertida de ensinar brincando.

Meu pai gostava de nos ajudar a superar as dificuldades que encontrávamos nas lições  quando ainda frequentávamos a escola primária ,e conseguia-o com inteligentes brincadeiras.

Para que não encalhássemos a cada passo nas leituras , não nos punha a ler um texto vezes sem conta., nem nos humilhava com criticas ou ironias. Pelo contrário. Desafiava-nos  para escrever e  depois , aprender de cor coisas   que quando ele próprio era criança lhe haviam ensinado e lhe tinham facilitado a desenvoltura na pronúncia de termos menos correntes.

Desse tempo conservo ainda grata  memória .E ,agora, que qualquer dia os meus sobrinhos bisnetos irão começar a manusear livros de escola e a chegar a casa carregados de deveres e tarefas  , lembrei-me de passar para a escrita  essas mesmas lengas- lengas  que também já me serviram para ensinar os meus sobrinhos, seus pais, quando ainda usavam calção e bibe , o que, creio , também já ninguém usa.

O bibe era uma peça de vestuário irrecusável mal se punha o pé em casa. E não adiantavam lamentos e choradeiras porque a sentença  era inapelável :

- Enquanto sujares os bibes provas que precisas deles! E os pingos de tinta e vestígios de brincadeiras de toda a espécie lá estavam demonstrando a verdade dos factos.

Sem televisões .Sem aparelhos de rádio. Apenas , e só nalgumas casas, com uma grafonola ou um gramofone, (e isso era o máximo há sessenta anos!) muita gente aprendia música e desde a rabeca ao bandolim passando nas casas mais ricas pelo piano e pelo violino era frequente escutar-se ao passar na rua o martelar das teclas, às vezes  tratando bastante mal as belas partituras...

Assim se passavam serões e tardes. Conversava-se fazia-se música, e sempre havia alguém disponível para ensinar jogos : a glória, o loto, as prendas,...que como alternativa se intercalavam com as histórias que era da praxe contar às crianças 

Desse tempo vou relembrar algumas que acho mais engraçadas e podem servir para brincar e desenferrujar a língua ..

 

Outra destas brincadeiras que ainda recordo era a do:« copo ,copo gargalhopo. giricopo, copo, copo, copo cá!              

            Quem não disser três vezes copo, copo gargalhopo, giricopo, copo, copo, copo cá!- por este copo gargalhopo,  giricopo ,copo ,copo, copo cá, não beberá .»

            Difícil ,quase impossível nos parecia dizer a maior palavra portuguesa : inconstitucionalíssimamente,

            E assim, nas tardes frias de Outono, no recomeço das aulas meu Pai, minha Mãe, minha Avó ou, minhas duas Tias solteiras, com ternura e paciência entre risos ,pelos enganos sucessivos nos ajudavam  a desembaraçar a fala e a não recear , pronunciar  sem engasgos as palavras que nos ocorressem.

            Eu sei que agora com os bués, as chavalas, os montes de ,os pecebes, e meia dúzia de portantos as pessoas conseguem comunicar ,mas é pobreza a mais e faz dó -temos que confessar -,tratar assim a língua portuguesa.

            Convenhamos ,no entanto que há aí muito ministro que enrola a língua para dizer apenas, solidariedade - o que ainda causa mais espanto ...

   Maria José Rijo

                                   

 

 

«  Se o arcebispo de Constantinopla se quisesse desarcebispo desconstantinopolitanisar quem o arcebispo desconstantinopolitarisaria seria o arcebispo desconstantinopolitanisador.»

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.481 – 4  - Dezembro - 1998

Conversas Soltas

Reminiscencias - I

estou: reminiscencias I

publicado por Maria José Rijo às 18:20
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2 comentários:
De Augusto Pedro Costa a 14 de Junho de 2007 às 01:07
Escritora - Grande
Poetisa - Muito Grande
................................... enorme.....
A qualidade da escrita é magnífica, enorme, especial, muito bem redígida - da forma que só Maria José consegue. Concordo com os outros comentários que li em outros artigos, que não pude deixar de ler.
Este Blog é optimo, de grande qualidade - não só na elevada prosa e poesia mas na sensibilidade deste Senhora.
Não a conheço - é verdade que não e tenho pena porque chegar aos 60 anos e não ter tido a oportunidade de conhecer tão GRANDE Escritora e Poetisa - só posso ter de me lamentar.
Mas... Bem haja que este blog existe para eu me poder deliciar com uma prosa e uma poesia inigualável!
Minha Senhora ganhou aqui um fã !
Voltarei Muitaaasss mais vezes...

Com uma enorme admiração
Augusto Pedro Costa


De cindamoledo a 14 de Junho de 2007 às 15:00
Como a senhora tem toda a razão. Um beijo cinda


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