Sábado, 14 de Julho de 2007

O ALECRIM

http://olhares-meus.blogspot.com/

Foi uma cantiga, que me disse a mim, que a flor do mato era o alecrim.

O alecrim é uma planta popular. Cria-se sem cuidados em terrenos pobres,

como gente sem linhagem. Não impõe distância a ninguém como as

altivas e nobres flores de estirpe.

Do alecrim até se devia pensar em sentido colectivo - como quando

se diz: - Povo !

A flor do alecrim é azul anilada, miúda, franzinita , mas doce na sua modéstia.

As  abelhas libam-na com gula e as pessoas cheiram-na com gosto.

Cresce nos campos, vive nos quintais e não desdenha mesmo como sebe,

viver em jardins mas... tem tradições !

Cumpre ritos e crenças. É cinza em Quarta - feira de Cinzas !

Vai à missa em Domingo de Ramos.

Vai moiro - volta bento.

É oferecido para lapela de padrinho, decote de madrinha ... onde fica

a murchar e a recordar obrigações de amêndoas para Quinta-feira Santa.

... “Aqui está este raminho !

Verde é e verde cheira...

e fica preso para Quinta-feira!...”

Seca esquecido.

Vai para o lixo ou para o fundo da gaveta e dele nos apercebemos pelo

discreto e vago perfume, como uma reminiscência...

- É tempero ! - vai ao forno no assado (há quem aprecie) mas, calha a

preceito no cozinhado do coelho manso a que corta a insipidez da carne

doce e branca !

- Faz chá de beleza para cabelos fracos. Recompõe roupas pretas já

gastas e ruças pelo uso...

- Entra nas mézinhas das bruxas quando fazem benzeduras!...

“Eu te coso, por carne quebrada e nervo torto!

Melhor cose a Virgem do que eu coso.

A Virgem cose por vão - eu coso pelo osso

Em louvor de Deus e da Virgem Maria

Padre Nosso e Avé Maria!

E... a velha a coser no novelo com a agulha sem linha e o alecrim

inocente - a arder! - a arder!... a arder!... - a consumir-se ao

som das loucas ladainhas .

É uma panaceia !

Aviva a memória! - conserva a juventude !

E... nas trovoadas’!!!

- Que é do alecrim ? - o alecrim benzido ?

- onde pára ele ? - onde está metido ?

p’ra queimar um pouco

que afasta os trovões !

Ai, Santa Barbara - nos acuda

Ai que aflições!

Barbara bendita - que no céu está escrita

e na terra assinalada!...

Superstição e fé de mãos dadas. Verdades e lendas com o

mesmo perfume: - alecrim !

- Ai alecrim, alecrim!

Também te cantam ! - cantam-te aos molhos mas logo te acusam:

“Por causa de ti choram os meus olhos”

És pobre e modesto! - logo te culpam ! - então como querias ?

- mas tu, alecrim - porque não desmentes?

Ai alecrim! Alecrim!

Não fora a fogueira, o fumo

e toda a gente veria - se isto não fora assim como me ardem os olhos

como minhas faces queimam de chorar  triste por mim !

Ai alecrim! Alecrim!

Das cinzas que restam - do tempo passado

o vento que sopra - espalha sem dó

tudo o que encontra do fogo apagado

e no chão varrido - na mancha sem pó

Só baila a saudade

Só, saudade, só !..

 

 

Maria José Rijo

Livro das Flores

estou:

publicado por Maria José Rijo às 20:36
| comentar | Favorito
partilhar
2 comentários:
De Dina a 14 de Julho de 2007 às 21:02
Ao ler este texto tive a sensação de ouvir a sua voz...aliás consegui mesmo ouvi-la na sua forma tão peculiar de dizer estas coisas de forma tão simples...
Parecia que tinha voltado atrás no tempo...ao tempo das nossas conversas no Regiões em que lá mais acima no Porto a Olga Cardoso estava também ela embevecida a ouvi-la.
Fez-me também regressar ao meu tempo de menina em que descia o Aqueduto em direcção à Piedade diariamente e todos os dias levava um raminho de alecrim para casa, hoje nem sei se ainda existe o alecrim, possivelmente não, já que com o novo traçado em direcção à rotunda esses arbustos devem ter desaparecido.
Um beijinho com muita saudade!


De miriam a 26 de Outubro de 2008 às 09:20
Adorei! Tudo de bom


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

. Cá Estou ... - 2

. CORAL PÚBLIA HORTÊNSIA DE...

. CRIANÇA - 1990

. Parabéns

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@