Domingo, 15 de Julho de 2007

Evidências ou coincidências!? ...

Como todas as manhãs, a empregada chegou na hora certa. Enquanto metia a chave na porta surgiu o gato, ninguém saberia de onde, o que, também como sempre, atrapalhava o cerimonial da entrada com as marradinhas  de cumprimentos de boas- vindas.

Transposta a entrada seguia-se o ritual costumeiro.

Mudar a água da tigela onde o bichano bebia, renovar-lhe a dose do leite, encher-lhe o prato ,depois de bem lavado, com  petisco do seu agrado.

Só então, já livre daquele empecilho a atravancar-lhe os passos, com miadelas de mimo e manifestações interesseiras de afecto,

começava a tarefa do dia a dia, propriamente dita.

Abria o saco das compras, colocava o pão e o leite nos lugares próprios, arranjava a maquineta do café e preparava o tabuleiro para o pequeno almoço.

Então, sem fazer ruído, entrava na sala, abria um pouco as janelas, recolhia os cinzeiros, despejava-os, lavava-os, repunha-os nos lugares, substituía os jornais velhos que apanhava espalhados pelo chão, pelos do dia que cuidadosamente, colocava direitinhos em monte, no sítio aprazado para o intento.

Dava um jeito numa jarra, um toque aqui, ou acolá, tirava a cinza da lareira, e acendia-a de novo.

Invariavelmente, o gato, que passara a noite peregrinando pelos telhados em busca de aventuras, ao sentir-se de barriga confortada, vinha instalar-se perto do lume, lambendo-se,  alisando os bigodes e preparando-se para uma soneca regalada.

Tudo nos conformes pensava a mulher, olhando em redor, a avaliar o resultado da sua intervenção...

            Tirava então o avental, dava uma ajeitadela no cabelo passando-lhe as mãos para o alisar, agarrava as cartas prontas para o correio, que sempre ficavam na salva de prata na consola do corredor, e, tão mansamente, como chegara esgueirava-se para a rua deixando o dono da casa continuar a dormir tranquilamente na casa em silêncio.

Quando recebeu a carta ,  Matilde, julgou sonhar.

Como é que Miguel de Unamuno lhe poderia ter escrito se havia morrido 1936 , e era o ano 2000?

Mas a carta estava ali nas suas mãos e era forçoso reconhecer que não era uma carta vulgar. Quem a escrevera possuía cultura sólida e profundos conhecimentos, até, sobre teorias de matéria tão delicada como a sobrevivência da mente após a morte . Difícil agora seria identificar o autor da brincadeira que exibia um tom de intimidade e, até um certo pendor amoroso na forma como se lhe dirigia.

Que estava intrigada, era evidente. Decidiu que não falaria a ninguém sobre o assunto e discretamente investigaria na procura de uma pista.

Entretanto o seu velho amigo Santa- Maria, telefonou-lhe porque sabendo do seu interesse pelo transcendente, vida para além da morte etc. etc. etc. queria falar com ela sobre uma conferência muito interessante a que assistira.

Foi.

Pelo sim, pelo não, levou consigo a misteriosa carta.

Santa-Maria não escrevia uma palavra que fosse sem ser manuscrita. Máquinas de qualquer espécie considerava-as como impedimentos entre o pensamento e a escrita.

Assim que, se muniu de uma serie de folhas repletas de anotações e, passados os primeiros instantes  de efusivas manifestações de alegria pela visita, se enfronharam  numa conversa sem fim.

A certo passo Matilde reparou na semelhança da caligrafia do mestre com a carta que levava no bolso e, não resistiu.

Muito séria disse:- quer ler isto?

Claro. –Foi a resposta.

Porém, mal olhou a folha que lhe apresentavam exclamou:  mas... esta letra é minha! – e, estupefacto leu tudo avidamente.

Após a leitura, ficou estático pensando, e foi então que recordou que havia sonhado que fora, em outra encarnação, ou vida passada, o escritor Miguel Unamuno, e que ela fora, nesse tempo, sua mulher, razão pela qual, nessa outra dimensão lhe havia escrito aquela, e outras  cartas, que se recordava – perfeitamente- ter lido no sonho.

Só não tinha consciência de que a sonhar lhe  tivesse escrito, o que era evidente ter acontecido.

Foi a vez de ela confessar que, se lembrava agora, de também  já uma ocasião haver sonhado ter sido casada com  Unamuno .

Olharam-se confusos.

Evidências?- Coincidências?...

De certo, sabiam apenas, que tinham sonhado.

 

 

                                                           Maria José Rijo

                                                     Escritora e Poetisa

 

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Revista Norte Alentejo

Nº 19 – Março / Abril -- 2002

 

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publicado por Maria José Rijo às 15:56
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3 comentários:
De Flosinha a 16 de Julho de 2007 às 15:57
Boa tarde
Todos os dias venho espreitar o seu blog e gosto imenso a sua maneira de escrever. Leio sempre com muito interesse os seus posts.
Espero que não se importe que também a adicione como amiga no meu blog.
Flosinha


De Ernesto Costa a 18 de Julho de 2007 às 13:22
Realmente ler Maria José Rijo enche-me de orgulho Lusitano, orgulho de ser Lusíada .
Ler Maria José Rijo traz-me paz ao coração, sorrisos ao rosto e faz-me pensar em pontos de vista nunca antes pensados por mim, não desta forma tão objectivamente Lúcida , racional, objectiva.
Maria José Rijo escreve com a alma da verdade, com a sua imensa sensibilidade abre caminhos nos espíritos de quem lê.
Hoje sou um médico reformado, já velhote mas que se adoptou muito bem as estas novas tecnologias, e na minhas pesquisas, neste meio, ainda estranho para mim, deparei-me com este blog que me fascinou, levei cerca de uma semana para ler todos os artigos e hoje, ao acabar de ler o ultimo post publicado , resolvi deixar a minha humilde opinião perante esta escritora poderosa.
Maria José Rijo muitos Parabéns por escrever desta forma impar, maravilhosa e ainda deslumbrante ( teria certamente mais adjectivos para a sua prodigiosa escrita, mas...)...
Parabéns e todos os dias virei ler o seu blog, é um porto de honra para quem chega...Seu admirador
Ernesto Costa


De Jacinto César a 18 de Julho de 2007 às 18:50
D. Maria José ( permita-me que a trate da mesma maneira como sempre a tratei desde que de calções curtos andava)

Finalmente nestes últimos dias entendi o que me disse na nossa última conversa de rua: ...que nestes últimos tempos andava a actualizar-se e a aprender a mexer "nessas modernices que são os computadores... ".

Não vale a pena dizer aqui o que penso da SENHORA, mas sempre lhe vou dizendo que em boa hora aprendeu a mexer-lhes.

Um grande beijinho de um dos seus eternos "meninos".

Jacinto César


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