Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

Tenho opinião diferente...

                                        Amália Rodrigues (retrato), 1954

 Foram de boa intenção, foram dignas e tiveram emoção e beleza as cerimónias que envolveram a trasladação da urna de Amália Rodrigues para o Panteão Nacional.

Foi bonito, poético, esclarecido e justo o discurso do Senhor Presidente da Republica.

De tudo isso ninguém terá dúvidas.

Mas...

Mesmo abstraindo das controversas opiniões populares, onde a unanimidade em aplaudir a homenagem, não escondeu o desagrado da forma como esta aconteceu. Ocorre-me uma pergunta que encerra uma dúvida pungente:- Amália , como teria preferido ? - como o povo alvitrava, ou como o poder político decidiu ?

Julgo, que nisso,- que parece deveria ter sido primordial para quem teve que tomar tal decisão,-  ninguém pensou.

Porque se o houvessem feito, todos, (e foram todos) que a reconheceram como: Única, Impar, Solitária, Genial!...Teriam tido dúvidas se seria ou não aquele o seu lugar - e teriam reconhecido que não era.

Amália Rodrigues com a irmã Celeste, Madrid, 1943

Sendo Única, Genial, Ímpar , (como todos a reconheceram)- em nenhuma companhia ficaria  “inter pares”

Tinha direito à solidão, como solitária foi a sua alma.

Poderiam ter-lhe destinado um pequeno “Tadj Mahall” no cimo do parque Eduardo VII , onde já criaram um jardim com o seu nome, porque, para ela, certo, era um templo de Amor, ali, à mão, ao alcance da sua gente , que ela nunca renegou - o povo.

O que faz uma pobre mulher entre intelectuais, engravatados, sisudas, que nunca devem ter trauteado uma cantiga? !

Amália Rodrigues no Lincoln Center, em Nova York, com o Maestro André Kostelanetz, 1966

Podem as altas individualidades, os reis, os heróis, todas essas celebridades que estão em túmulos pesados, na clausura gélida dos espaços onde o silêncio da morte impera e paira e, onde as crianças entram trementes como que receando fantasmas ,ter a morada certa na majestade do Panteão

Porém, Amália, aí, não!

Amália nada tem que ver com poses ,formalidades.

Amália tinha tudo a ver com  coração , sentimento, amor - saudade.

Amália era a voz de tudo isso, mais da fatalidade de tudo isso cantar.

Amália Rodrigues com David Mourão Ferreira e Alain Oulmain, 1964

Amália, era o destino aceito de não ter par, da  solidão interior. Era com as suas mãos nervosas amarfanhando os cadilhos do xaile ,enquanto o fado lhe brotava do coração subindo pela garganta, a imagem sofredora, de quem  por atavismo, por herança, por milagre e por castigo cumpre uma sentença -  cantar - libertar a alma na voz.

Amália entre escritores porque difundiu a língua portuguesa? - mas isso não é verdade! - Ela difundiu , sim, a alma portuguesa a que deu  voz - a sua voz. Amália deu a conhecer, mundo fora um povo cuja diáspora e consequente saudade dava o tom de dor ao seu canto.

Foi célebre. Foi amada por reis, idolatrada, bajulada por elites, admirada  e aplaudida por todo o mundo.

Amália Rodrigues - um dos seus retratos inesquecíveis

Mas, permaneceu igual a si própria : uma mulher simples, uma mulher de verdade de um Portugal verdadeiro - que ainda resiste...

Não fora assim e teria comprado casa de férias, em qualquer local cosmopolita deste mundo, mas não!

 Foi isolar-se no litoral alentejano onde mais que em qualquer outro sítio se podia dar ao luxo de ser ela própria, sem artifícios, nem disfarces, onde pintava flores, flores, até em cântaros de barro e por todo o lado como que a afirmar, que, semear beleza a aproximava  mais de Deus.

È por isso que penso que se fora ela a escolher teria sido diferente, e me apetece dizer como Sebastião da Gama: - “não encarcerem a asa!”

Façam-lhe uma tumba de pedra tosca, com uma guitarra esculpida em cima,

cavada na rocha, lá no cimo da falésia, isolada das pompas do mundo, mas rodeada de flores silvestres. Urzes, rosmaninhos, alecrim, lá perto do refúgio que ela escolheu para fugir a festas e honrarias na procura de si própria.

Amália Rodrigues, a última viagem. Olhos vidrados de lágrimas das pessoas simples, do povo, com as vozes embargadas, acompanham o cortejo fúnebre

E deixem que as brisas do mar sejam a sua serena companhia, e que as nortadas assobiem seus medos e  tirem sons e façam música na pedra que selar os quatro palmos de terra que a ninguém se negam no fim da Vida.

Deixem que os sons do fluxo e refluxo das ondas do mar embalem o seu sono eterno como um enamorado que de joelhos arrulhasse juras de amor sempre tão falsas como belas...

Libertem-na da pompa e circunstância com que os “ grandes deste mundo” empobrecem a pureza do que Deus cria.

Deixem que as gaivotas vão pousar sobre esse rude mausoléu, e que o luar  lhe lamba a pedra de mansinho como um cão doente faz às suas chagas.

É que jamais a Vida se curará de ter perdido voz assim.

Deixem que a sua lembrança se transforme em lenda , e ela viverá para sempre.

                                                              Maria José Rijo

                                                    Escritora e Poetisa

@@@@

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.615 – 13/Julho/2001

Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:28
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1 comentário:
De Marcelo a 20 de Julho de 2007 às 22:05
Maria José Rijo
Escreve bem, gosto da forma como expressa a sua opinião. É uma forma magestosa a sua de escrever.
Na bela forma Luisiada de se escrever.
Gosto da sua opinião. Gosto mesmo.
É uma mulher com M grande e com uma cabeça lucida que consegue pensar de forma inteligente e racional.
bem haja pelo seu blog.
Ter-me-á aqui muitas outras vezes.
Parabéns

Marcelo Tomás


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