Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Inês de Castro

Desde esse longínquo século XVI, em que D. Afonso IV, cedendo a pressões e intrigas, consentiu que Inês fosse assassinada, que a “beleza” de Inês não para de crescer.

Inés de Castro, clic para aumentar

Inês de Castro, certamente foi bonita, bela talvez, ou até ambas as coisas – que Inês morreu jovem e, a juventude tem esses atributos naturais. Porém, a esta distância no tempo, não se poderá realmente garantir como era Inês, pois que, só da sua beleza, poetas, escritores, artistas e, a própria lenda se ocupam.

Sepulcro de Inés de Castro, clic para aumentar

Poderia Inês ter sido inteligente, bondosa, compreensiva ou apenas iluminada pela felicidade que o amor de Pedro lhe inspirou! – E se foi arrogante, vaidosa, vulgar de coração – ninguém o diz, nem por certo o saberá. 

Talvez, apenas, porque foi mártir tivesse ficado linda de pasmar, como são as fadas e as sílfides.

Talvez tivessem sido loiros e anelados os seus cabelos, - talvez lisos como fios de luar, - talvez brilhantes como raios de sol, - talvez sem termo de comparação porque não sendo já reais, são só sonhados, e o sonho não tem medida…

Talvez tivessem sido azuis, transparentes como o céu os seus belos olhos claros…

Talvez nem fossem azuis, mas sim verdes, - porque quem os diz da cor do mar – sabe de quantas tonalidades é o mar capaz de se revestir…

Pode até ser que, quem os refere transparentes como água, tenha pensado em algum lago parado, num jardim sombrio e, assim, os seus olhos já teriam sido negros como noites profundas e não verdes ou azuis…

Inês de Castro, rainha consorte póstuma de Portugal

Talvez Inês tivesse sido apenas, e simplesmente, uma mulher como outra qualquer sem nada de particular, uma mulher que tivesse desejado viver o seu amor humano, tão mansamente como corre a fonte das suas lágrimas na Coimbra dos poetas…

Para isso, não carecia ter sido tão branca como de ela se conta que era, nem o seu colo ser de cisne ou, tão ebúrneo, como sempre é referido – que as mulheres, de qualquer cor, ou menos belas, todas têm coração.

Detalhe do túmulo no mosteiro de Alcobaça

Talvez Inês tivesse ficado branca, porque exangue, na violenta e injusta morte que lhe deram.

Inês, tornou-se um mito e se habita o nosso imaginário é porque, vítima da perseguição levada até à loucura do assassinato – quem de morte a sentenciou – lhe abriu as portas da história e a fez perdurar na memória dos tempos que de outra forma a teriam talvez, esquecido.

Inês pode ter sido apenas uma mulher comum, só tornada perigosa pela visão deformada dos invejosos e caluniadores da sua época que – sendo insaciáveis na ambição – não souberam entender que a uma mulher, mesmo rainha, para ser feliz, lhe basta um ideal de amor – e, no vicio da suspeição temeram nela a sua própria cobiça…

Nos antigos compêndios escolares dizia-se:

“Inês de Castro era uma Senhora de origem castelhana, de rara beleza, por quem o príncipe D. Pedro se apaixonou…”  

Em “Os Lusíadas” – Camões – transcende-se tratando a tragédia da sua morte: “ Estavas, linda Inês, posta em sossego,” … Eu “conheço” Inês.

“Conheci-a” na sua estátua jacente do seu túmulo de pedra rendilhada, na penumbra do Mosteiro de Alcobaça – perto daquele outro, onde Pedro – o justiceiro – também enfrenta a eternidade.Túmulo de D. Pedro I, Mosteiro de Alcobaça

De quem a matou, todos, sem hesitação dizem, sem piedade; - os assassinos!

Sobre Inês, que “depois de morta foi rainha”, paira o mistério que fez crescer e perdurar a lenda.

Junto ao seu túmulo as pessoas passam, param e olham, suspiram, rezam talvez, ou sonham!

Algumas vezes ainda – vão deixando por lá, poeticamente, flores – porque as histórias de amor nunca envelhecem e hão-de continuar sempre a enternecer os corações.

 

                                                                 Maria José Rijo

@@@@

Á la Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.050 – 6 Julho 1990

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 16:04
| comentar | Favorito
partilhar
5 comentários:
De Dina a 26 de Julho de 2007 às 18:38
Talvez Inês tivesse sido apenas, e simplesmente, uma mulher como outra qualquer sem nada de particular, uma mulher que tivesse desejado viver o seu amor humano,

E há coisa mais bonita que ser simplesmente mulher?


De Helder Santana M. a 26 de Julho de 2007 às 22:48
Sou um apaixonado pela bela história de amor - de Pedro e Inês.
A bonita história de Amor á portuguesa. Referio Camões e eu tragolhe aqui Bocage, o nosso grande poeta, que eu também adoro.
###

A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c'roa
A malfadada Inês na sepultura.

Bocage
###

Aproveito para lhe dizer que a sua prova é muito boa, excepcional, como também tive a oportunidade de ver alguma poesia.
Os fados estão incriveis, e espero que estejam bem aproveitados pelos fadistas. Deve ser, para eles, uma honra poderem cantar Maria José Rijo.
Como é para mim uma honra ler Maria José Rijo.
Daqui de Sintra os meus cumprimentos


De Margarida Peralta a 27 de Julho de 2007 às 01:33
Lindo o seu texto
Maria José Rijo escreve como eu gostaria de o fazer. Mas eu não sei... vou escrevendo... comentários em textos belos como estes seus,

Sabe que todos os dias venho le-la?
Se nºao tem texto novo fico tristinha, mas então... é mesmo assim...

Muitos Parabéns. Gosto imenso de ler o seu blog. Aproveito para lhe contar que me habituei a ler os seus escritos, por causa de minha Mãe que lia sempre o Jornal Linhas de Elvas, atravéz de uma amiga, dessa sua cidade. Tenho dois volumes com recortes (Coisas que a minha mãe estimava - depois dela partir... herdei-os eu...) e são os meus livros preferidos. Agora estes que estão na net, neste bonito e simpático blog, eu tiro cópias e estou fazendo um terceiro.
As minhas netas também já gostam de os ler.

Parabéns Maria José Rijo e grata por escrever coisas tão bonitas.
Com admiração
Margaridinha


De cindamoledo a 27 de Julho de 2007 às 18:28
da cinda


De Luciano B. a 27 de Julho de 2007 às 21:30
Muito bonito!
Muito bem pensado, não só este texto, mas todos eles. Gosto vivamente do que escreve pelo que me permito deixar-lhe uma achega - do que conheço de Garcia de Resende (que adoro) sobre os amores de Inês e Pedro.

Trovas que Garcia de Resende fez à morte de D. Inês de Castro, que el-rei D. Afonso, o Quarto, de Portugal, matou em Coimbra por o príncipe D. Pedro, seu filho, a ter como mulher, e, polo bem que lhe queria, nam queria casar. Enderençadas às damas.

Senhoras, s'algum senhor
vos quiser bem ou servir,
quem tomar tal servidor,
eu lhe quero descobrir
o galardam do amor.
Por Sua Mercê saber
o que deve de fazer
vej'o que fez esta dama,
que de si vos dará fama,
s'estas trovas quereis ler.


Fala D. Inês


Qual será o coraçam
tam cru e sem piadade,
que lhe nam cause paixam
úa tam gram crueldade
e morte tam sem rezam?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ó príncepe, meu senhor,
me mataram cruamente!


A minha desaventura
nam contente d'acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant'altura,
para d'alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguém.


Eu era moça, menina,
per nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ó revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m'o príncepe olhar,
por seu nojo e minha fim.


Começou-m'a desejar,
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a úa vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.


Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama;
pus nele minha verdade
quis fazer sua vontade,
sendo mui fremosa dama.
Por m'estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
polo qual aconselhado
foi el-rei qu'era forçado,
polo seu, de me matar.


Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d'assessego,
polos campos de Mondego
cavaleiros vi somar.


Como as cousas qu'ham de ser
logo dam no coraçam,
comecei entrestecer
e comigo só dizer:
"Estes homens donde iram?
E tanto que que preguntei,
soube logo qu'era el-rei.
Quando o vi tam apressado
meu coraçam trespassado
foi, que nunca mais falei.


E quando vi que decia,
saí à porta da sala,
devinhando o que queria;
com gram choro e cortesia
lhe fiz úa triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com gram homildade;
mui cortada de temor
lhe disse: -"Havei, senhor,
desta triste piadade!"


"Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mam,
qu'é de fraco coraçam
sem porquê matar molher;
quanto mais a mim, que dam
culpa nam sendo rezam,
por ser mãi dos inocentes
qu'ante vós estam presentes,
os quais vossos netos sam.


"E que tem tam pouca idade
que, se não forem criados
de mim só, com saudade
e sua gram orfindade
morrerám desemparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss'Alteza:
e também, senhor, olhai,
pois do príncepe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza.


"Lembre-vos o grand'amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá gram dor
morrer-lhe tal servidor,
por lhe querer grande bem.
Que, s'algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu'este filhos ficaram
órfãos tristes e buscaram
quem deles paixam houvera;


"Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
nam quebrantar vossa lei,
que, se moiro, quebrantais.
Usai mais de piadade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim
nam me deis tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade!"


El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixam
e viu o que nam oulhava:
qu'eu a ele nam errava
nem fizera traiçam.
E vendo quam de verdade
tive amor e lealdade
ó príncepe, cuja sam,
pôde mais a piadade
que a determinaçam;


Que, se m'ele defendera
ca seu filho não amasse,
e lh'eu nam obedecera,
entam com rezam podera
dar m'a morte qu'ordenasse;
mas vendo que nenhú'hora,
dês que naci até'gora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembro


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Parabéns Luciano

. CONVITE

. Cá Estou ... - 2

. CORAL PÚBLIA HORTÊNSIA DE...

. CRIANÇA - 1990

. Parabéns

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

. Cá Estou ... - 1

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@