Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Afecto e desafecto

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A cada passo se escutam frases de repúdio por esta ou aquela pessoa porque nos fez um gesto, porque nos disse uma palavra, que nos magoou, nos feriu o orgulho, o amor-próprio, a sensibilidade.

...olhos nos olhos...

A cada passo, penso então, se isso estará certo. Se será assim que se enriquece a Vida.

E, fico sempre com a sensação de que muito se confunde afecto com maneira de ser, com feitio.

....

Se tomarmos como referência o amor maternal, não nos consta que um mau feitio de um filho, gere o desafecto da mãe.

Antes pelo contrário. Gera uma maior protecção.

Parece evidente que o amor verdadeiro pode superar a falta, o erro.

Parece evidente, assim, que no amor humano, pode caber o perdão, a tolerância.

Estava a pensar na mágoa, na dor de perder um afecto.

Estava a pensar na confusão de sentimentos, que por vezes a ofensa gera.

Estava a pensar em como é fácil deixar que o amor-próprio, o orgulho, tomem conta de situações dessa natureza e destruam uniões, amizades, afectos que o tempo parecia ter cimentado com segurança para sempre.

Como a vida... cada dia, sua cor

Penso que devemos a nós próprios, aos nossos comportamentos uma atenção rigorosa para discernir, o que é realmente ofensivo e o que é apenas o beliscar do empolamento que damos a tudo que nos diz respeito, como se o mundo girasse em torno de nós e só os outros errassem e fosse privilégio nosso ter sempre razão.

Lembro-me sempre enternecidamente da sabedoria que o velho conto infantil da estrelinha de oiro na testa nos transmitia na infância.

Recuar no Tempo... (III)

Quando a personagem da história que rira com o mal dos outros chorava depois, desolada quando o feitiço se virou contra ela, a fada perguntou-lhe: - A ti não porquê, tens alguma estrelinha de oiro na testa?

Então, confusa, reconheceu que não. Que era igual a toda a gente.

Trabalhos Manuais...

Assim também a nós acontece. Aceitamos o temperamento difícil de A, ou B, encolhemos os ombros quando os outros estão em jogo. Depois, uma certa vez o incómodo bate-nos à porta. Então valoriza-se o pormenor, avoluma-se a injúria, e esquece-se um passado de afecto por uma qualquer ridicularia.

Às vezes, muitas vezes, é o receio do mau julgamento dos outros que nos retém na atitude irredutível que nos aperta o coração.

De costas voltadas

Nesta corrida desenfreada que é a Vida de hoje, acontece-me, muitas vezes parar, escutar, e olhar como se faz nas passagens de nível, e deixar que o peso do tempo que já por mim passou me ajude a confessar que aprendi que nunca o desafecto deve matar o afecto.

Nunca um erro pode ter a força de apagar uma Vida cheia de provas de afecto. Porque, nenhum de nós, nenhum de entre nós poderá querer admitir que o mal tem mais força do que o bem.

Marcher sur le ciel

Talvez o que todos tenhamos que reconhecer é que o medo de não sermos amados como julgávamos ou quereríamos ser, faz disparar em nós, a vaidade, a soberba, a presunção de que o vencedor é o primeiro a desprezar, e não o primeiro a procurar entender, a estender a mão a aceitar que , como dizia Rainer Maria Rilke “ Amar também é bom por  que o amor é difícil”

Fiadeiras da Póvoa

E a amizade, talvez não seja mais nem menos do que uma forma menos exclusivista de amar, por isso, difícil também, mas, embora se trate de sentimentos diferentes, são bens de alma pelos quais vale a pena lutar e viver.

 

    Maria José Rijo

 

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Revista Norte Alentejo – Crónicas

Nº 22 – Out./Nov. /02

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Nº 22 – Outubro/Novembro 2002

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publicado por Maria José Rijo às 20:32
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7 comentários:
De Oliveira e Sá a 8 de Agosto de 2007 às 23:30
"Nunca um erro pode ter a força de apagar uma Vida cheia de provas de afecto. Porque, nenhum de nós, nenhum de entre nós poderá querer admitir que o mal tem mais força do que o bem."

Tem razão nesta sua frase, mas por vezes há pessoas que nos magoam tanto e tão fundo que não há nada do passado, nem afectos que mereçam uma reconciliação.
Eu sou assim... será feitio !!

Gostei imenso do seu texto, do seu belo blog.
Parabéns pelo seu coração tão bom, só assim poderá pensar e fazer o que diz, sei que fáz e que é justa, percebe-se pelo que diz, pelo que sente.
Não são palavras ao acaso, eu sinto que não são.
As pessoas, a maioria das pessoas são cruéis e malidicentes, egoistas e ciumentas, aqui neste país e em todos os outros. É um mal da humanidade.

Parabéns
Oliveira s Sá



De Anónimo a 11 de Agosto de 2007 às 17:35
Acabo de aprender esta maneira de falar com cada uma das pessoas que me dirigem comentários, e que creia, abriram uma janela diferente na inevitável solidão de ser gente, quanto mais,gente para quem o futuro, so pode ser a dependência que a velhice oferece a quem resiste...
Este preambulo é para confirmar o que escrevi no texto que referiu -só o tempo tem a chave-não eu.
Alguém me disse certa vez vendo-me victima de grave injstiça: - não se vingue!- nunca se sabe onde acaba a parvoice e começa a santidade.
Sabe que ainda não consegui descobrir?
E, se me recusar à esperança, que bordão terei para o resto do caminho?
Obrigada pela sua interpelação.tão inteligente.
Assim se cresce.
Obrigada, mesmo.
Maria josé




De Dina a 8 de Agosto de 2007 às 23:42
"E a amizade, talvez não seja mais nem menos do que uma forma menos exclusivista de amar,(...)"
Exacto.
"Entre os amigos há sempre espaço para as subtis diferenças e semelhanças, que conduzem à competição ou à cedência. E também há sempre espaço tanto para a desilusão como para o assombro"-Christine Downing


De Maria José a 11 de Agosto de 2007 às 16:47
A Paulinha ensinou-me "esta lição".Estou a começar por si , como me manda o coração, os meus ensaios de comunicar mais directamente.Você é mesmo alma aberta e generosa.Bem haja! todos os dias a visito e encanta-me a sua coragem frente à Vida. Também eu recordo a sua criatividade e alegria nos programas onde a Aldina estava como peixe na água.
Comoveu-me outro dia a "ode" à neta e, depois a outra, à filha caçula.
"mesmo para os pobres com'a mim viver é bonito! disse-me um dia uma pobre velha.
Como não estaria eu grata à Vida se até tenho Amigos como a Dina? e um mundo de saudade do bem que já vivi...
um beijo da maria josé


De Margarida Damião a 9 de Agosto de 2007 às 00:37
Hoje, finalmente, depois de uma semana inteira cheia de tentativas para vir ler o seu blog, hoje - eis-me aqui perante o ecran a ler este texto, este delicioso texto, exte magnifico texto, cheio de verdades incontestáveis.
Realmente a minha amiga Antónia teve muita razão, ao indicar-mo para ler. Nós vivemos em Sintra, somos vizinhas e ambas adoramos navegar pela net, procurando bons blogs, actuais e de boa prosa.
Este é magnifico.
"Maria José rijo escreve para lá de bem", como repete a minha amiga, e que eu assino por baixo dela.
Este blog é mesmo BOM.
Muitos Parabéns
destas suas novas amigas
Margarida e Antónia


De Marcos de Passos a 9 de Agosto de 2007 às 21:00
Ao ler Maria José Rijo surpreendi-me bastante porque ao ler os artigos, apercebi-me do seu importante e maravilhoso legado.
É pertinente perguntar, visto a sua idade, se já tem publicado os seus textos? Vi que já publicou três livros, os maus Parabéns - mas eu gostaria imenso de poder comprar o quarto - destes textos magníficos.
Fico aguardando o post onde nos informe de tão boa noticía. Até lá vou lendo todos os post.
Gosto imenso de a ler!
Marcos de Passos


De Maria José a 11 de Agosto de 2007 às 18:40
O Santo Padre Banhos, amigo querido, quando eu era rapariga dizia-me :- não é pecado ser bonita, o que temos é que se bonitos para Deus.
Aura e Margarida Damião que, generosamente, me oferecem uma amizade que me enriquece,e Marcos Passos, que se me dirige como se eu fora escritora de nome, vão acreditar que escrevo impelida pela minha gratidão de viver. Por esta alegria íntima que me faz acreditar que esta é a minha maneira de dar conta desse encantamento - onde também cabem o
sofrimento e uma tremenda carga de saudade,,,
É o meu "fiat".
Não tenho mais livros publicados do que aqueles que referiu. Meu marido - companheiro de 50 anos, receava que me magoassem se eu entrasse num meio para mim tão desconhecido e a seu lado isso não me era necessário.
Tavez agora o meu instinto de sobrevivência, dê sinal. Tudo tem seu tempo...até o fim do tempo...
Agora, quando escrever, também a consciência do bem que me fazem as vossas palavras temperará o meu trabalho.
Se eu conseguir publicar alguma coisa, prevenirei.
Grata de todo o coração
Maria José



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