Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

Guardar Recordações

         A recordação em si, provém da carga de emoção, ou de imaginário que atribuímos às pessoas, coisas ou factos que retemos na memória.

            Para a recordação, é tão importante o mais belo monumento do mundo, como uma só pedra, um cheiro, uma folha seca, um olhar, um reflexo de luz...

 Quero dizer, qualquer coisa, pode significar imenso ou nada.

            Às vezes é apenas uma sensação, vaga e quase indefinível que torna um momento inesquecível.

            Até a lembrança da goteira gelada que, uma vez, nos pingou na cabeça num dia de chuva igual a muitos, pode marcar um momento que depois se conta ou recorda dizendo: uma ocasião passei aqui, tinha parado de chover; vinha tranquilamente a respirar o ar lavado e ainda húmido.

           Era já escuro. Foi então que uma sensação de gelo me arrepiou como se fora um uivo de medo cortando o sossego da noite, apenas pelo desconforto da água morta que do telhado gotejava, me acertar molhando-me o cabelo e escorrendo-me pelo pescoço até o calor do meu corpo lhe apagar o rastro.

O que cria a recordação, não é propriamente o facto real. O que cria a recordação é a nossa emoção.

           Na verdade todos os dias depois de todas as chuvadas pingam goteiras. É uma realidade. Porem também é realidade que nós só recriamos pela palavra, só transfiguramos através do nosso sentimento aquele instante que nos tocou de forma singular e nos pareceu diferente daquele que recordaremos.

          Aquele que libertamos do real.

          Aquele a que ficamos presos pelo imaginário.

Assim nascem as diferentes recordações das diferentes pessoas frente às mesmas circunstâncias, às mesmas realidades.

            Por isso, recordação, nasce do facto real, mas não é necessariamente o relato histórico.

A história é o relato exacto, verificável pelas épocas, pelas datas.

            A lembrança, a recordação é o conto da alegria, da dor, da saudade, da surpresa, do sonho, do mistério - da Vida em si, - que a emoção recriou, transformou, e se torna real porque provindo do sentimento é tão autentica como um bater de coração e pode ser tão fantástica como a mais bela lenda ou o mais imprevisível acontecimento.

Só assim se entende o retrato, a pontinha de renda, que se descobrem no fundo das gavetas esquecidas e que sendo apenas um retrato, ou, uma ponta de renda deixam de o ser somente porque a memória, a recordação os separou da realidade tornando-os nos testemunhos dos sentimentos que revestiram os momentos a que estão ligados.

Estava a ver uma reportagem feita num Lar de idosos. A certo passo alguém pergunta a alguém, com doçura: - o que tem aí?

A resposta foi:- um retrato!

Mostre! Uma mão de anciã, descarnada e trémula, estende-se segurando um pequeno rectângulo de cartão meio amachucado. Seus olhos choram, mas estóica, sorri.

Um retrato.

Sim, era realmente um retrato.

           O que não se via. O que não se vê, o que não se sabe é o que o coração, a alma, da velha Senhora sabem e guardam daquele afecto, daquela mágoa, daquela saudade que transformaram o pequeno documento em preciosa recordação

Talvez a sua presença no Lar fosse apenas uma vulgar história de ingratidão.

Talvez apenas uma vulgaríssima história de egoísmo

Talvez, pensando nisso, apenas um sofrido perdão soltasse aquela lágrima.

Ou, quem sabe, se a morte era a raiz sem remédio da solidão que ali a conduzira.

A velha Senhora, escondia num sorriso com lágrimas, sem acusações, as suas lembranças; e sem o saber, a sua imagem ficou indelével nas minhas como sempre ficam em nós as recordações tristes das injustiças que não podemos alterar

As que conhecemos e as outras que pressentimos...

E, quem garante que era a injustiça ou o abandono que a faziam chorar!

Talvez, apenas, por intimo pudor, ela calasse para guardar avaramente, só para si o que só a dois poderia ter vivido - uma bela história de amor                            E, essa é sem dúvida a lembrança que só morre, quando  morrer quem a tiver vivido e mesmo fazendo chorar acalenta a Vida até ao fim.

 

                                              Maria José Rijo

@@@

Revista – Norte Alentejo - Crónica

Nº 5 – Outubro/Novembro de 2000

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:04
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6 comentários:
De Dolores a 9 de Agosto de 2007 às 23:19
LINDO
LINDO
LINDO texto este seu.
Tem muitos aqui... mas este apaixonou-me.
É LINDO
LINDO
LINDO
LINDO


De Maria josé a 12 de Agosto de 2007 às 11:31
Sabe que o seu comentário me "soube" como um alegre abraço'?
OUTRO.-GRANDE E GRATO
Maria josé


De Dolores a 13 de Agosto de 2007 às 00:04
Fico muito Feliz por assim ter sentido, na verdade D. Maria José quando acabei de ler o seu texto, queria mesmo te-la a meu lado para lhe dar um abraço e um beijinho e dizer : Muito Obrigado... Adorei o seu texto, é tão bonito e neste momento deu-me muita alegria. Estou muito contente por poder ler os seus textos.

e agora estou feliz por ter falado comigo.
Grata do fundo do meu coração.
Com muita admiração
Dolores


De Mafalda Gomes a 10 de Agosto de 2007 às 01:33
Que bonito texto e bonitas imagens.
Gostei tanto da forma como escreve. Sabe não sei explicar mas enquanto lia, tive a sensação de ler Isabel Allende. Parecia que estava sentada junto de mim, a falar comigo. Isso acontece-me quando leio os livros desta autora.
Realmente gostei e são legítimos os comenntários que li, por aí espalhados em tantos textos.
Vejo que gostam muito dos seus artigos, pois bem, aqui me tem e pode colocar-me na sua lista, já imensa. Sou mais uma das suas, e muitas, admiradoras e devo dizer que vou falar de si ás minhas amigas. Quero que venham ler o seu interessante blog.
Sabe, gostei muito das suas reminiscências, são fantásticas.
Muitos Parabéns.

e como diz a Sra. minha mãe:
spiritus flat ubi vult - ( loc. lat.) -- o espirito sopra em qualquer parte; a inspiração é um dom da natureza, não depende da vontade.

Que tenha muita inspiração para fazer inúmeras belezas como estas que acabei, com muito prazer, de ler.

Com admiração

Mafalda Gomes


De Maria José a 13 de Agosto de 2007 às 18:18
Foi muito consolador a Paula ter-me ensinado a responder aos comentários.Creiam que me sentia constrangida por não o saber fazer.Ficava com uma sensação de endeusamento que me assentava tão mal como roupa alheia. A pouco e pouco tentarei cumprir com todos.Desta feita são para Mafalda Gomes que avivou em mim a saudade de minha Mãe,que também me consola evocar pelo seu exemplo, amor e sabedoria e, para Natércia Nogueira
que com tanta sensibilidade me acena de França.
Sabem que o meu deejo era conhecer-vos?
Pois é verdade.
Um abraço grande e grato Maria José


De Natércia Nogueira a 10 de Agosto de 2007 às 17:08
Dona Maria José Rijo
eu não sou de escrever comentários em nenhum blog que entre, mas neste seu tive que o fazer.
É que ADOREI esta sua forma de escrever. A sua prosa é terna, maravilhosa e toca directamente ao coração...
Realmente, tem aqui textos que são deliciosos. as suas reminiscências são uma coisa... especial.
desculpe, mas eu tenho imprimido os textos e guardo-os num dossier, onde leio outras vezes e posso mostrar ás minhas amigas.
Muitos Parabéns pelo seu Blog.
Adoro a sua forma de comunicar com o mundo, eu vivo no sul de França, e a Internet aproxima-me ao meu país.
Gosto do seu coração, da sua alma generosa e da paz que transmite com o que nos conta.
Seja Bem dita por Nossa Senhora.
Muito obrigada

sua amiga

Natércia Nogueira


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