Sábado, 11 de Agosto de 2007

“ Aos pés do dono “

Foi perto do rio Degebe, nem sei há quantos anos!

Na sombra duma árvore, à beira da estrada, um pastor descansava, apoiado ao cajado, olhos afundados na distância, absorto. Sentado a seus pés um Serra de Aires, quase pardo, orelha afilada, atento a tudo, boca entreaberta como de alguém indeciso, entre um sorriso de acolhimento ou a pergunta curiosa que se adivinha no olhar e se cala a custo.

Imagem de paz e solidão. “Solidão, ai dão, ai dão – solidão do Alentejo”.

Assomam à memória reminiscências, repetições, aprendidas em dias quentes.

Imagens presentes, fora e dentro da gente que sente e percorre a sua terra.

Paramos a olhar, saboreando o dia, a hora, o instante fugaz, a voz do sangue.

Relembram-se dias, tardes, tempo, visões antigas iguais ao presente, antevendo futuro num clima imutável que institui hábitos com a força de dogmas.

O carro, nós, o pastor, o cão, num instante quedo no tempo, quieto duma espera de contemplação…

Então, surge outro carro, veloz, louco, incontrolado, ruidoso como um besouro a voar ao sol na tarde quente. Guina, ultrapassa e pára mais à frente na valeta baixa.

Gente nova, perturbada, atónita, desculpa-se insegura…

                               (( escultura de madeira de Maria José Rijo ))

Na sombra redonda da azinheira, bordão caído ao lado, joelhos no pasto seco, o pastor em silêncio afaga o cão, de corpo lasso, mole, deitado agora, com um fiozinho vermelho a escorrer-lhe da boca.

-- “Do mal, o menos, ainda foi sorte, foi o cão! – comenta o causador do dano que tenta violar o silêncio obstinado do pastor.

-- “Quanto quer pelo cão? – Diga homem! – Responda!”

O pastor não fala.

O rapaz insiste: - “ quanto quer, eu pago!”

-- “Não basta o que basta” – Diz enfim o pastor.

“Pago! Pago! Pago! – “Pagas o raio que te parta!”

-- “E à noite os mocinhos!?” – Sim – à noite os mocinhos?!”  - interroga enquanto agarra o bordão e se ergue repetindo na voz do seu pasmo inconformado:

-- “Ali, ós mê’s péis! - Ali, ós mê’s péis!

Afasta-se e as ovelhas seguem-no – os carros partem e o silêncio retoma o seu espaço.

Solidão ai dão, ai dão.

Solidão do Alentejo!

 

                                                  Maria José Rijo   

@@@@@@

Á La Minute

Jornal linhas de Elvas

Nº 1.844 – 4 de Julho de 1986

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 17:16
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6 comentários:
De Dolores Maria a 11 de Agosto de 2007 às 19:00
Ola
Por um acaso do destino- porque eu acho que tudo tem sempre a hora certa - apareceu-me o seu blog no meu ecran. Abriu-se para mim - a cortina do seu mundo e este pastor - lindo pastor talhado pela sua mão - revelou-me a bonita alma e sensibilidade de artista que Maria José Rijo possui.
Este Blog, pelo que já li , mostra-nos um legado importante, um trajecto de vida, de sensibilidade intensa e onde reparei ( lá atras) que tem 80 anos.
Devo - tenho de lhe agradecer - temos todos os que por aqui passarem - agradecer esta magnífica oportunidade de ler - de poder ler os seus textos.
Eu Juro que ADOREI e também não sou muito de fazer comentários, mas aqui temos de deixar pelo menos um, para dar alento aos seus oitenta anos que se Deus quizer ainda tem muitos mais pela frente e nós para a poder ler.
Com imensa admiração

Dolores


De Rosa Batista a 11 de Agosto de 2007 às 22:19
Lindo
O texto e este pastor tão fofo e tão bem igual aos pastores Alentejanos. Está de Parabéns pela escultura
e pelo texto.
Mais um magnifico entre tantos belissimos textos.
Sabe, gosto imenso da sua postura perante a vida e a forma que conta as suas emoções.
Estou comovida.

Muitas Felicidades

Rosa


De Gustavo Frederich a 12 de Agosto de 2007 às 10:12
Estou muito contente por ter encontrado Maria José Rijo - On Line - e digo porquê.
Eu vivo na França e sempre tive a feliz ideia de ler Jornais portugueses, entre eles lia o Linhas de Elvas - não pelo próprio Jornal ou pelas noticias da cidade ( não sou Elvense) - mas Lia porque tinha descoberto a PROSA MARAVILHOSA de Maria José Rijo.
Para mim era o supra sumo da alegria abrir o jornal e ler Maria José Rijo - mas depois - nem sei porquê - deixei de poder ler os seus artigos e uma raiva surda, fez-me apagar o Linhas dos meus favoritos - é que sem maria José Rijo para ler - nada mais me interessava num jornal de provincia, digo isto porque é a verdade. Passei apenas a ler os grandes Jornais de Portugal - mas na semana passada - enquanto navegava e investigava algo de muita importância apareceu-me o seu Blog.
Acredite que até chorei de emoção. Depois de tanto tempo e sem que antes me tivesse sequer lembrado de colocar o seu nome no Goggle - deparo com esta maravilha de blog.
Dou Graças a Deus por a ter encontrado por aqui. é que ler Maria José Rijo tráz-me páz à minha alma, alento ao meu coração e sorrisos aos meus lábios.
Ler Maria José Rijo - é como falar com o deus das pequenas coisas, falar e ouvir a terna sensibilidade de uma Senhora de oitenta anos, cuja vivacidade para a escrita é de uma beleza singular.
Cara Maria Jose Rijo os meus imensos Parabéns pelo bonito blogg que tem na rede de redes.
Bem haja pelas minhas alegrias destes dias.
Os seus textos continuam a ser os melhores dos melhores. Parabéns deste seu e muito Admirador

Gustavo Frederich


De Luisinha P. a 12 de Agosto de 2007 às 22:53
É Fascinante a sua prosa.
Gosto imenso de vir beber da sua sabedoria, deliciar-me no seu mundo de sensibilidade.
Esta história é real, nota-se pela forma e sensação que se obtem da leitura.
Muitos Prabéns

Sua amiga

Luisinha


De Manuela Freixo a 13 de Agosto de 2007 às 00:18
Maria José Rijo
é para mim uma grande escritora, cuja beleza interior está em cada um destes textos.
As suas palavras são flores perfumadas, estrelas e sorrisos que me encantam.
Gosto imenso desta sua forma linda de se comunicar, de expressar a sua sensibilidade.
Este texto é triste, mas de grande valor Literário e percebi a sua dor e a dor do pastor.

Minha tia Augustinha ( que Deus tem no seu seio) dizia no seu latim:

Homo toties moritur quoties smitit suos --> o homem morre tantas vezes quantas perde um dos seus.
( Públio Siro)

Com muita amizade e admiração por uma grande escritora

Manuela Freixo





De Maria José a 13 de Agosto de 2007 às 19:29
Se não sentisse a grata obrigação de falar um pouco para cada um de vós,( e a tarefa já não é para brincadeiras...) eu contaria a Manuela Freixo como também me eram queridas as minhas tias solteiras - como meu Pai gostava de citar máximas latinas e todas as coisas que fazem o´tempero duma bela conversa. Falaria sobre Elvas com Gustavo Frederich cuja "fidelidade" me comoveu, e de um mundo de lembranças com Dolores Maria , Rosa Batista e Luisinha mas,para cumprir o meu designio de conseguir chegar a todos, apenas deixo aqui um grande, grande abraço da amizade agradecida
Maria José


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