Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

O embaraço

                Não se trata de escrever.

            O problema, é: - melhor - consiste em : - escrever o quê!?

            Num jornal, o campo de escolha é mais vasto. Porque sendo mais vasto o campo de interesses e a variedade de assuntos há sempre a hipótese de tocar as preferências de alguém. Numa revista, mais especificamente, numa revista de actualidades, que quem compra, compra para se distrair, quase, mais para folhear do que para ler, a procura de um tema requer ponderação diferente. O que se pode escrever de tão ligeiro que seja lido sem esforço, que entretenha mas não mace e que, em simultâneo, tenha algum conteúdo Porque, e, aqui é que está o busílis, quem escreve, deseja, espera, necessita, que alguém leia o que escreveu quer comungue, quer divirja da sua opinião, mas que leia, aplauda ou conteste.

            Quem escreve, espera sempre que alguém, ao ler possa sentir que já pensara no assunto, só que ainda não o verbalizara, ou nele se detivera a pensar por distracção ou falta de tempo, ou, que nele já largamente meditara e compare os pareceres.

            Quem escreve, quer comunicar. Não o faz de maneira tão directa como a fotografia o consegue. Mas, intenta o mesmo: - prender a atenção relatando o que viu, o que sentiu, o que pensou, o que o alegrou ou fez sofrer, o que o deslumbrou, ou aquilo que repudiou.

            Escrever, é repartir, sentimentos, opiniões, em qualquer caso e sempre a escrita expõe o seu autor e, como tal, sendo dádiva, também é risco. A fotografia é diferente.                                                               

            A fotografia, empresta-nos o gozo do olhar.

            A escrita, a abordagem da alma.

            A fotografia, olha-se.

 A escrita, lê-se.

            São falares distintos

            A fotografia, mostra.

A escrita compromete.

 

            “ Hoc opus, hic labor est” que, é como quem diz, aqui é que a porca torce o rabo!

            É que, no entanto, a imagem, é celebrada como tendo o privilégio de valer mais do que mil palavras. Mas, mesmo assim conserva a inocência de quem constata, estando de fora. 

            A abordagem à imagem é instantânea, abrangente.

            A abordagem à escrita é feita gota a gota. Palavra por palavra. Interioriza-se a ideia, o sentido, e, é a nossa própria imaginação, a nossa sensibilidade que nos fornece a imagem interior, a consciência do facto relatado, que, num ápice, num relance, a fotografia, pode, realmente, mostrar.

            Coado pela sensibilidade, o relato escrito, nunca se separa da marca da opinião - que vincula o compromisso de quem diz, ao que disse ou diz, pela interpretação mais ou menos explícita , ou, apenas implícita -  de quem conta o que quer que seja .

            Convenhamos então, que falar de qualquer coisa interessante, agradável, ligeira, para que não canse, e, que ao mesmo tempo, consiga prender uns instantes de atenção, não é tão fácil como pode parecer.

            Não dispondo da facilidade das imagens, reduzida ás palavras sempre menos sedutoras, ocorre-me perguntar:

            Será que alguém leu até aqui! - Será!

            Se tal aconteceu, quem o fez, decerto compreendeu que escolher um tema que preencha todos estes requisitos, ás vezes, é para quem escreve - um embaraço.

 

 

 

 

                                                                             Maria José Rijo

@@@

Revista Norte Alentejo-- Crónica

Nº 9 – Fevereiro / Março – 2001

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:01
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6 comentários:
De Passadas Manuel a 30 de Agosto de 2007 às 09:01
Descobri o seu texto
Não resisti e venho Felicitá-la pelo seu blog, pelos textos maravilhosos que aqui tem.
É mesmo assim, por vezes penso que quem escreve para jornais e revistas deve de ser dificil arranjar sempre um tema para se escrever - mas a Senhora consegue sempre - tem aqui texto que são uma delicia.
Parabéns

Passadas


De Dolores a 31 de Agosto de 2007 às 01:10
Ola
Eu li e reli este e outros textos.
Gosto imenso IMENSO...
Amanhã põe novo texto, não é?
Sim eu sei que sim...

Sua grande admiradora

Dolores


De Arlequim a 31 de Agosto de 2007 às 01:15
LINDO LINDO
este seu texto.
Gosto tanto do que escreve.
E eu li... e imagino ser um embaraço... mas é um embaraço gostoso porque eu adoro ler o que escreve.
Muitos Parabéns e amanhã volaterei - pelos vistos a Dolores passa cá todos os dias, MAS EU TAMBÈM - posso não comentar - mas passo por cá.
Como agora.

Beijinhos
Arlequim


De Olavo Baptista a 31 de Agosto de 2007 às 12:04
Minha Senhora
Este seu cantinho
Esta sua janela para o mundo
é do mais bonito que existe.
Estou maravilhado pela sua forma de escrever.
Escreve realmente bem, escreve ao coração, à alma de quem a lê.
São formidáveis os seus textos, aos meus 85 anos estou completamente fascinado e só a encontrei à cerca de uma semana.
Tenho andado a ler cada um dos seus textos, em cada um dos meses passados.

A Senhora MERECIA ter estes textos editados, o Jornal que os publica poderia fazer isso, como tantos outros jornais fazem com os seus melhores cronitas.
Penso que desse Jornal Local será a melhor de entre todos os que por lá escrevem. É que se vê perfeitamente a qualidade dos textos e dos temas.
A sua sensibilidade é muito bonita, verdadeiramente lucida.

Parabens Gostei imenso.
Seu admirador desde já

Olavo Baptista


De Gustavo Frederich a 31 de Agosto de 2007 às 23:40
Queria cumprimentá-la e mais uma vez comentar dizendo que este seu texto está muitissimo bom, que gosto imenso da sua forma de escrever e que este blog tem uma escrita fabulosa.
Os meus parabéns

Gustavo Frederich


De Dina a 1 de Setembro de 2007 às 01:51
Eu li tudo até ao fim...e percebo perfeitamente o que quer dizer. Mas escrever num blog tem esse lado bom...não somos obrigados a pensar nos outros, apenas em nós...é pelo menos esse o sentido de ter um blogue.
Continue e escrever sobre tudo o que lhe apetecer, unica e exclusivamente.
Beijinhos!


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