Sábado, 1 de Setembro de 2007

O bibe. Essa velha instituição...

Quantos de nós  nos lembraremos ainda do bibe – aquele avental, por vezes com mangas, que as crianças usavam para não sujar o fato – segundo a descrição dos dicionários!

O bibe era uma verdadeira instituição!

O bibe tinha tecidos próprios para a sua confecção.

Eram riscados, tobralcos, sarjas, eram, tinham que ser, tecidos resistentes e com cores fixas, porque o bibe se destinava a proteger de nódoas e de outros acidentes o fato de lã, o vestidinho de seda, o fatinho do menino, a camisola de estimação que a avó, a mãe, ou a madrinha, tricotara serão após serão, para prendar pelo Natal, ou pelo aniversário, a criança que distinguia com o seu afecto.

Lembrei-me do bibe, porque ele representava a era da poupança, a era do cuidado com o vestuário. O bibe estava ligado ao desvelo, pela conservação do que sendo objecto de uso, merecia, e carecia de atenção para durar. para ter vida mais longa.

E, mais : - marcava também a distinção entre as pessoas arranjadas, metódicas, económicas e as outras que não contavam na sua formação com essas virtudes.

Era o tempo do: - remenda o teu pano e chegará ao ano! – Torna a remendar e tornará a chegar!

Era o tempo das grandes baínhas que identificavam as “roupas com futuro”, que deveriam ser herdadas de irmão para irmão ou para primo ou prima...

O desaparecimento do bibe marca a época do usa e deita fora. A época do consumismo.

Nos tempos do bibe, cada pessoa, vestia-se de forma particular, de acordo com o seu gosto pessoal.

O vestuário, ainda, individualizava.

Agora, não.

Agora pontuam as marcas.

Naqueles outros tempos, pontuavam os tecidos.

Era chique vestir “pano cetim”. Era chique usar “cachemiras,” sedas naturais, chifons, e sei lá quantas coisas mais que poderia talvez ,ainda, respigar da memória, reavivando reminiscências de conversas com a minha Santa Avó, que Deus tenha em Sua Santa guarda !

No tempo do bibe, era assim que se dizia...

Mas todos esses preciosos tecidos, eram confeccionadas de acordo com o gosto pessoal.

Todos os feitios deveriam ter um laço ,uma fita, uma fivela, uma prega que os diferenciasse dos demais.

Havia o culto do requinte.

Agora, estamos sem dúvida na era da nódoa. Na era da entronização do desmazelo, pelo menos, aparente.

Os  tecidos com os quais se confecciona o vestuário, principalmente as calças, são decorados com rasgões, manchas de desbotado, ou salpicos vários, como nódoas.

Outro processo de decoração é o enrodilhado.

Com todos estes elementos de uma só vez, ou não, se fabricam, como se fardas fossem, as peças de roupa que uniformizam o aspecto da juventude em geral.

Não sei se esse fenómeno é um bom ou mau indício.

Às vezes detenho-me a pensar que a coragem de assumir a própria escolha se pode cultivar até nestas pequenas decisões...

Outras vezes ocorre-me pensar que estas modas são apenas um reflexo dos tempos apressados que todos vivemos e servem para mascarar com a sua aparente negligência a incapacidade por falta de tempo ou de preparação que a gente nova tem para cuidar do próprio fato.

“Só deixarás de usar bibe, quando não te sujares!” – dizia-se antigamente ás crianças desgostosas por não puderem mostrar a todo o instante, a beleza das suas roupas.

Penso que o bibe, era , ou é , parente do “guarda pó”, com que os lojistas defendiam da sujidade os seus fatos. Seriam talvez, também, da família dos “manguitos” dos mangas de alpaca que não deixavam os casacos  criar brilho – o lustro – que denunciava o excesso de uso...do tecido puído pelo tempo.

A todos estes artifícios, estas invenções de zelo . que serviam para prolongar a vida às roupas de vestir, sobreviveu , penso -  o avental.

Ele é o herdeiro legítimo do laço que  também rematava o bibe, do bolso que guarda o lenço, do tecido de lavar e durar que o torna resistente e prestável como protector do fato feio ou bonito com que enfrentamos a luta do dia a dia com o máximo de comodidade e conforto que somos capazes de concretizar

 

                                                           Maria José Rijo

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.682 – de 1/11/02

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:50
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6 comentários:
De Luis carlos Presti a 2 de Setembro de 2007 às 00:08
Boa noite
Gostei imenso deste texto. Também eu usei bibe, eram feitos pela minha avozinha Dulce, a mãe de minha mãe, que era costureira.
Ela fazia esses bibes no maior dos preceitos, à velha uzança.
Este seu texto´é uma delicia.
Se me pedisse para escolher o meu texto preferido, de todos estes que tem publicados, dir-lhe-ia ser uma terefa dificil e realizar.
São muitos e todos bons, de grande qualidade literária. - Dificil terefa para este apaixonado pela sua forma de escrever.

Ficam aqui os meus Parabéns e o desejo de poder,aqui, ver mais textos de igual qualidade.

Cumprimenta-a
Luis Presti


De Dolores a 2 de Setembro de 2007 às 00:13
Cá estou eu...
Vim agora de um aniversário e estava desejando saber se tinha novo texto on-line.

Dirá que gosto sempre -- mas é mesmo verdade - gostei e muito.

Eu também tive esses bibes, que a minha tia Luzinha fazia para mim e depois para a minha filha Gracinha.

Nunca pensei que se poderia dizer tanto e tão bonito sobre os Bibes, os velhinhos bibes, que ainda hoje , como na foto, as criancinhas, do infantário ainda usam.

Que maravilha.
A Senhora escreve muito bem.
Até amanhã e os meus e muitos Parabéns.
Com amizade

Dolores Maria


De Fernanda B. a 2 de Setembro de 2007 às 21:53
Este tema é-me muito querido, trabalhei muitos anos num infantário e adorava ver as criancinhas de Bibe.
Este menino da foto é uma ternurinha, tem uma carinha de anjo. Muito lindo.

Parabéns pelo texto e pelo blog.
Gostei imenso de ler os seus artigos.

Fernanda B.


De David a 2 de Setembro de 2007 às 21:55
É sempre uma alegria vir ler os seus artigos.
Também eu usei bibe, e era azul.

Parabéns
O texto está formidavel.

David



De Alzira Magessi a 3 de Setembro de 2007 às 09:28
Para minha surpresa encontrei o seu Blog e fiquei muito contente, porque eu era uma leitora assidua, na página do Jornal Linhas de Elvas, mas este jornal já não nos deixa ler os artigos da Senhora.
Fiquei desconsolada porque sou de Vila Nova de Gaia e não queria assinar o Jornal em questão - primeiro - não queria uma assinatura de um jornal que não me interessa, aliás, a bem da verdade - só mesmo os seus artigos são da minha paixão, o resto não me interessava e não me interessa.
Mas agora que a encontrei virei aqui todos os dias.
Bem haja por esta pagina
pelos seus bonitos artigos e por esta forma brilhante de escrever.
Para mim a Senhora escreve pintando paisagens para os meus olhos, faz caminhos na minha alma e leva-me ao meus próprio coração.
Bem haja por este texto tão real.
Felicidades
Desta suia admiradora
Alzira Magessi


De Luciano e Marta a 3 de Setembro de 2007 às 12:57
Eu e o meu marido estamos a gostar imenso do seu blog.
Este texto do Bibe está muito bonito. Eu ainda fiz alguns para o meu neto Fernando, o Nandinho. É ele que nos ensinou a caminhar por estas modernices da Internet, e digo-lhe que é uma grande alegriFoi o meu marido que descobriu este blog e temos lidos pelo menos três meses, todos os dia lemos varios e apontamos num papel aqueles de que gostamos, depois no fim-de-semana o Nandinho tira cópias, que guardamos numa pasta, para nos deliciarmos mais tarde e reler porque o computador dá-nos cabo da vista.
É um prazer ler e reler Maria José Rijo
Muitos Parabéns pelos textos lindos que nos oferece.
Luciano e Marta


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