Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

São Mateus

Todos os meses do ano, são meses das nossas Vidas. Porém, para qualquer de nós, de entre todos, algum, ou alguns, ganham especial significado.

São os meses dos nossos aniversários, ou das pessoas que nos são queridas.

Dias de meses vividos em festas de alegria celebrados entre amigos, familiares, companheiros de trabalho. Outras vezes, já só evocados em saudade, no recato da nossa intimidade desfiando orações, partilhando só com Deus, quase em segredo, mistérios de afectos que resistem a ausências de morte.

São aqueles que falam das datas que marcaram de qualquer forma as nossas existências, ou referem acontecimentos que se tornaram simbólicos nas terras onde nascemos, ou habitamos.

Isto, não referindo, esses outros, que no mundo inteiro se concelebram, como Natais, Páscoas, e, até alguns de Santos Padroeiros, ou, aquelas datas que evocam catástrofes que indelevelmente marcaram a história de povos e, a cuja memória de sofrimento a humanidade rende preito de geração em geração.

 O mês de Setembro em Elvas, é, por excelência o mês do coração.

O mês do amor, o mês da saudade, o mês das lembranças, o mês do reacender das tradições...

O mês das histórias da nossa história. Da história da cidade e da sua gente. Das gentes que antes de nós foram, da gente que somos...das gentes que depois de nós hão-de vir...

Nele se celebram as festas em honra do Senhor Jesus da Piedade.

Pai do céu, invocado, por todos nós, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ligando-nos a ELE em todos os actos importantes das nossas Vidas, e, também, nas pequenas agruras de um quotidiano, nem sempre fácil, mas sempre até ao fim dos nossos dias.

Em Setembro, pelo São Mateus, em seculares tradições que nalguns casos ainda persistem, se marcavam casamentos, baptizados, se contratava pessoal para a lavoura, se apalavravam ou desfaziam contratos de arrendamento de herdades, se comprava gado, se geria o futuro imaginado para cada ano.

Falava-se de moios de trigo, de “decas” de azeite, de jornas e comedorias de maiorais e feitores.

Eram ecos de vozes da terra; que da terra vinha trabalho, pão e sustento.

Tinha-se prestado atenção cuidada ás “canículas e aos caniculares” que Agosto, como um oráculo fiel, sempre fornecia, para se marcarem sementeiras, depois das águas novas que em Setembro surgiam, como favas contadas.

Começava-se a prestar atenção ao aparecimento da “folhinha” – como era familiarmente denominado o “Borda-d’água”, onde, em cada ano, se colheriam o resto das informações imprescindíveis para bem projectar todas as tarefas dos trabalhos de campo. E, no entretanto aproveitava-se o arraial de São Mateus para confraternizar com romeiros, parentes e amigos, exibir as galas das vestimentas estreadas, que, para cada uma, das três missas, havia farpela nova, como mandava o figurino.

Á sombra das árvores se faziam os acampamentos. Ficava o cão preso sob o carro de canudo de onde saía desde a tábua de engomar, até ao ferro de brasas e a tudo o mais para organizar a improvisada cozinha de onde emanavam os bons cheiros das boas petisqueiras tradicionais.

 

Descansavam as muares mastigando palha nas gorpelhas...

Foi assim! - Era assim...

Mudam os tempos. Mudam as modas. Mudam os hábitos.

Tudo muda. Até o buraco do ozono desmente a verdade- que era indesmentível - das canículas e caniculares.

Porém, em cada Setembro, vindos lá de onde vierem, em dia de Pendões, junto á voz de todos os presentes, há-de ressoar em cada coração como um eco de saudade, a voz dos que já não têm mais do que as nossas vozes cantando:

 

                                  “Senhor Jesus da Piedade

                                 Luz da luz, Deus verdadeiro 

                                 Olha aos pés da Tua Cruz

                                 Agrupado um povo inteiro.”

 

Porque, através  dos tempos, em qualquer tempo, é assim a nossa Gente.

Boas Festas a todos.

                                          Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.884 – 21/9/06

Conversas Soltas

@@

 

 

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 19:58
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7 comentários:
De Claudia Salvador a 7 de Setembro de 2007 às 23:05
Falaram-me deste blog, uma amiga e estava curiosa.
Agora resolvi procurar por Maria José Rijo e encontrei
finalmente este blog.
Gostei a aparencia é bonita,com fotografias lindas.
Os textos são um doce, a forma literária uma delicia.
A minha amiga tinha razão, Maria José Rijo escreve muitissimo bem e eu aprovei este blog.
Voltarei outras vezes.
Claudia Salvador


De Dolores a 7 de Setembro de 2007 às 23:10
Olá Boa noite
Cá estou eu, mas hoje vim a correr porque vou de viagem...
Este texto também é muito bonito. Não conheço Elvas, nem sequer o Alentejo... quem sabe se algum dia possa passar por esses lugares que tanto alegram os seus olhos.
Muitos Parabéns.
Maria José Rijo escreve como Deus manda, bem e perfeito, lucida e genial.
Beijinhos e até segunda feira.
Com a mizade

Dolores


De Manuel Costavideo a 8 de Setembro de 2007 às 11:41
Estes seus textos são fantásticos.
Em tempos idos, da minha juventude aprendi umas quadras sobre o São mateus de Elvas, que um amigo de meu avô paterno - o sr. Gomes - contava entre gargalhadas.
Se não me falha a memória era assim:

As festas de São Mateus
São as festas da cidade
Quem me dera andar bailando
No Senhor da Piedade

As festas de São Mateus
Nas vésperas das sementeiras
São um milagre de Deus
P'ras moças casamenteiras

Quem me dera ser sentinela
Das muralhas da cidade
Só para estar sempre à vista
Do Senhor da Piedade

Oh Senhor da Piedade
P'ro ano heoi-de cá vir
Ou solteiro ou casado ou viuvo
Ou patrão ou criado de servir

...
Ele dizia muitas mais, mas estas quadras ficaram-me na memória.
Agora ao ver este seu belo texto, recordou-me o Sr. Gomes.
Penso que ele era mesmo de Elvas, acredito que haja um encantamento, entre os elvenses e o Senhor da Piedade, porque mesmo de longe, no mês de Setembro - acode ao coração - não sei quê de misterioso...
O Sr Gomes fala muitas vezes da sua saudade.
Eu nunca fui a Elvas mas aqui no seu blog, lendo os seus textos é como se conhecesse um bocado essa cidade - que parece V. Exª. amar.

Bem haja por escrever tão bem e saber encantar quem lê e gosta de ler.
Este seu blog é um canto de alegria á vida em todas as suas faces...

Com estima

Manuel Costavideo


De Pedro Paulo Fonseca a 9 de Setembro de 2007 às 01:12
Não sou elvense mas ja tenho estado na festa do São Mateus.
Gosto muito de romarias, quando era pequeno certa vez fui com minha avó Constantina, a Elvas, porque ela tinha uma promessa a cumprir. levava uma garrafa de azeite como oferenda,estranhei mas ela contou-me um mundo de histórias ligadas as suas crenças.
Histórias antigas, que só elas próprias já são uma lenda.
Aqui neste blog, magnifico por sinal, na linha das reminiscências, devo dizer que esses tempos me lembraram outros, os da minha familia alentejana.

Gosto de a ler.
A sua prespectiva do mundo é muito interessante.
Gosto da sua lucidez, da sua postura e sente-se essa imensa sensibilidade, que transpira nos seus textos.
São de louvar tantos comentários a elevar o seu português. Todos eles estão certos.
Realmente Maria José Rijo escreve muito bem e agrada-me a forma exemplar como comunica.
Maria José Rijo É sem sombra de duvidas uma grande comunicadora.
Parabéns pelo Blog e também para a Paula - sua sobrinha - é de louvar a forma como este blog nos chega aos olhos.

Fica a promessa de voltar e comentar.
Sou apologista do comentário, acho que é um icentivo para quem escreve com a garra que Maria José Rijo o faz.

Parabens

Pedro Paulo


De picareta escribante a 14 de Janeiro de 2008 às 15:16
Boa tarde,
Estou a transcrever, no meu Blog sapoencia.blogs . sapo.pt ", um livro de poesias de meu Padrinho, Manuel Fragoso, intitulado "Terras de Sol" onde, a dado passo, refere a Romaria e S. Mateus. Vim ao Google para me documentar e deparei com este seu lindo artigo. Espero que não se importe que lhe "peça emprestada" uma imagem da Igreja, para ilustrar este Capítulo.
Faço votos para que seja esta, aquela que descreve no
Poema, mas não encontro mais nenhum S. Mateus no Alentejo.
Saudações Bloguistas,
Picareta Escribante


De helder sabino a 28 de Maio de 2009 às 00:17
Exma Sra D.M.J.Rijo
Andando por estas coisas da net, proucuro saber, para a efectivação de um trabalho da minha esposa, a origem (nascimnto) do Benf.Man.Antunes.Li algures que era de Barbacena. Poderá confirmar-me essa informação.Recorro a si pelo seu conhecimento sobre as histórias das gentes de Elvas, etc. Continue assim minha Sra., nós precisamos de si
Obrigado.
Helder Sabino
Elvas


De Maria José a 10 de Junho de 2009 às 18:52
Helder Sabino
Só agora consegui a informação que me pediu e não era do meu conhecimento.
Posso confirmar que o Beneficiado Manuel Antunes nasceu em Barbacena no dia 16 de Março de 1640.
Deus queira que ainda chegue a tempo.
Com os meus cumprimentos
Maria josé Rijo


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