Sábado, 8 de Setembro de 2007

Relógios

De entre os relógios, talvez, através dos tempos o mais popular, tenha sido o despertador.

Nas casas ricas, nos salões, havia os grandes e belos relógios de caixa alta, hoje disseminados por herdeiros, coleccionadores, um pouco ao acaso por quem de qualquer forma por gosto, ou capricho, os adquiriu.

Os de marca inglesa tinham mais alta cotação, e, como tal consequentemente, preço mais elevado. Porém, os franceses, ou suíços (?) de Jeremie Girod também eram bem afamados, e sendo mais vulgares faziam parte do adereço de casas mais modestas.

Sei isto porque herdamos um, meio desfeito, que depois de arranjado, conta o meu tempo, como já contou o tempo de quem o tempo me separou.

Ao som dele conto as horas de cada dia e, ao som dele evoco lembranças que em mim acorda.

Eram os sobrinhos pequeninos, com receio de ser surpreendidos pelo seu toque, que sempre os fazia estremecer, a atravessar, de corrida a penumbra do hall de entrada da casa, a loja de entrada como dantes se dizia, não sem antes, de, dedito no ar ameaçarem.: - está calado tim-tim!

Era a Tia querida, já idosa e invisual, rezando e contando cada toque como seu único entretenimento...a recomendar: não se esqueçam de dar corda ao relógio!

Se os relógios tivessem memória, em lugar de se lhe perguntar as horas, havíamos de lhe pedir que nos revelassem segredos, como só o tempo guarda...

 E aquele outro relógio, que estava sobre a cómoda do quarto de

 Minha Avó, com uma portinha de vidro pintada a ouro e cores com frutos silvestres numa decoração clássica e bela..

Por detrás dela via-se o pêndulo, aparecendo e desaparecendo, como as crianças a brincar com os adultos: - cucu! cucu!

Esse, sabia de cor as horas de rezar o terço! – Sabia, e cumpria o seu chamado, com aquela fria precisão de que só são capazes os relógios. Com aquela cruel indiferença a sentimentos, com que o tempo, em qualquer tempo marca a hora.

 Era a hora – lembrava - ainda que já não estivesse para nele reparar quem o tinha programado para dar o sinal.

Relógios de bolso, de pulso, em ouro, prata, lata, aço, latão. Relógios imprescindíveis ou, verdadeiras jóias, enfeites de luxo, mas sempre, sempre ao serviço do tempo que contam segundo a segundo como quem mastiga devagarinho um banquete sem fim.

Relógios de cuco, com sua janelinha, sua imitação de ave que espreita e canta as horas.

Cada relógio, traz à memória uma referência, uma recordação. Mas, de todos eles, talvez, até agora, o despertador, seja o mais utilizado, o mais vulgarizado, o mais acessível, o mais funcional...

O despertador, é o que acorda!

O despertador, é o que alerta!

O despertador é o que suprime, a desculpa, a preguiça, a mentira encobridora, o disfarce bem ou mal intencionado de quem a forja para não cumprir, faltar.

O despertador é o relógio comum, despretensioso, modesto, mas eficiente, que lembra o que se deve e quer cumprir – a promessa, a obrigação, o compromisso...

                            Maria José Rijo

@@@@

Jornal O Despertador

Nº 215 – 5-Set.-2007

A Visita

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:55
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5 comentários:
De João Mateus a 8 de Setembro de 2007 às 19:54
Realmente o relógio é uma das mais antigas invenções humanas, mas a forma como aqui fala dele é muito bonita.
Gostei de ler.

João Mateus


De Xavier Martins a 9 de Setembro de 2007 às 01:01
Gosto do tema...
O tempo fascina-me...
Sou coleccionador de relógios, tenho imensos, compro, vendo, troco e tenho-os em exposição na minha casa.
Gostei do Post - é diferente - nunca tinha visto ninguém escrever assim... deste forma, com tantos temas diversos e todos eles tão bem escritos e fascinantes.
Parabens

Xavi


De Lurdes Maltês a 9 de Setembro de 2007 às 17:23
Gosto muito de ler os seus textos.
São textos belos que nos contam pedaços de vida.
realmente os relógios têm grande importância nas nossas vidas e concordo, o Despertador é mesmo o que nos agarra ao chão e nos faz mexer.
Bem visto.
Prazer em a conhecer por aqui.

Lurdes


De Manuel Parreira a 9 de Setembro de 2007 às 19:59
Ando nestes caminhos porque gosto de encontrar portas/janelas como esta sua.
Ler Maria José Rijo é um prazer, aliás todo este blog é uma delicia. Gosto de ler textos com cabeça, tronco e menbros e isso aqui não é um, ou dois... são todos eles.
Os meus Parabéns

Parreira


De Helder Cortes a 11 de Setembro de 2007 às 22:54
Exma Senhora D. Maria José Rijo,

Os meus parabéns pelo grandioso elogio à liberdade de imprensa e o lamento pela falta dela em tantos outros meios de comunicação (ou todos?)...

Muito bem escrito!

Parece-me que no futuro teremos de nos habituar a esta forma de transmitir o que se pensa...

Após tanto tempo de falta de treino, estaremos preparados para a perceber?


Helder Cortes


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