Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

A Visita

Há uma peça de teatro - célebre, até -“A Visita da Velha Senhora”, (da autoria de um contemporâneo nosso,( o escritor e dramaturgo  suíço de língua alemã  Friddrich Durrenmatt, nascido em1921 – acabo de consultar a enciclopédia para ter a certeza do que escrevo), cujo título me vinha mesmo a calhar para esta circunstância.

Decidi, contudo quedar-me pela sua metade, não vá ser acusada de plágio!...

As visitas, como dizem os brasileiros, servem para deitar conversa fora. Pois então vem mesmo a propósito contar uma engraçada história que me aconteceu em 1996 quando entre eles, passei uma temporada.

A minha “base” era perto de Resende numa Quinta na Serrinha do Alambari, situada, entre Penedo e Visconde de Mauá.

Era uma bonita propriedade atravessada por dois rios, o Santo António e o Pirapitinga, onde a natureza parecia fazer gala na sua extraordinária e pujante beleza.

O proprietário fazia oitenta anos, nessa época e, o churrasco, bem ao uso local, foi um pretexto para juntar familiares e amigos vindos de vários Estados.

Entre eles, apareceu um senhor de muita idade, (beirava os noventa, disseram-me depois) feioso, mas com charme, muito bem trajado, muito culto e bem educado, com um narigão de retrato antigo, bengala de castão de prata e todos os requisitos para compor um personagem do cavalheiro distinto, em qualquer filme de velhas gerações. Tinha estado no governo como ministro de Getúlio. Era um cavaqueador emérito.

Deu-me no goto a figura e, como hospedes do mesmo anfitrião, tivemos oportunidade de conversar horas a fio. Ele enviuvara duma senhora espanhola de quem falava quase compulsivamente, e contava dela, chistes cheios de fino humor

que misturava com histórias de costumes do Brasil e piadas políticas, que eu escutava encantada.

Na despedida, confessou que me achara - o modelo vivo da fidalguia portuguesa - o que, por inesperado, me deixou bem divertida.

Agradeci, como era obvio e, foi então, que o velho Senhor que era de tão pequena estatura que me daria pelo ombro empertigando-se completou o piropo com esta confissão :

Um cavalheiro, pode perder tudo, até a virilidade, mas nunca perde o bom gosto!

Ora, neste momento, só posso inspirar-me nesta lembrança para afirmar “nesta visita:” -  uma pessoa, que se presa, pode perder tudo, menos a sua boa educação.

Essa, se a traz do berço, leva-a até ao fim da vida.

Eis pois, porque “Os meus queridos pescadores” que usam “O Despertador” para me tentarem com o  “engodo bem fixo no anzol da tentação”, não podem, nem devem, deixar de receber o meu  muito, muito obrigada pelo estimulo que, de tanto apreço, me chega.

Porém, para além de esporádicas visitas, nada mais lhes posso prometer, porque, tendo “morada fixa” há muitos anos, e não tendo já a capacidade que com o tempo se vai esvaindo, não posso assumir, senão, aquilo que penso poder ainda cumprir.

Isso não quer dizer, porém, que no meu coração não fique gravado o sinal do vosso apreço, como sempre vão ficando as mais doces recordações que a vida nos oferece ...

  

                                                 Maria   José Rijo

@@@

Jornal o Despertador

Nº 180 de 1 de Fevereiro de 2006

A Visita

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 00:23
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3 comentários:
De Dolores a 12 de Setembro de 2007 às 16:13
Ola
Hoje vim mais cedo para ler este texto tão simpático.
A Senhora tem mesmo de ser um ser especial, a Dina tem mesmo muita razão, e ela conhece-a.

Logo venho ver se tem mais um textinho, queria outro... para ler ao deitar...
Beijinhos
ate logo

DO LO RES


De Gabriel Vasco de Lima a 12 de Setembro de 2007 às 16:27
É Muito Bonito este seu texto.
Gosto da magia das suas palavras
por vezes fico encantado com o que delas recebo.
Na solidão
por vezes repenso no que aqui leio.

É gartificante ler Maria José Rijo

Gabriel


De Oliveira e Sá a 12 de Setembro de 2007 às 16:32
Parabéns.
Texto Brilhante.

Oliveira e Sá


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