Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Rezas e Benzeduras V - I Remember September

               Em Setembro -    muitos anos - cinquenta e quatro  exactamente, vim a Elvas de visita pela primeira vez.

               Era S. Mateus.

               Festejava-se o Senhor Jesus da Piedade. “Menina e Moça”, que era, como no dizer de Bernardim – cá encontrei meu par que namorei de janela alta à moda desses tempos.

               Primeiro andar – era a fasquia mínima – das regras de então -  só superável  em qualidade por janela de rés-do -chão  com  grades de ferro e rede mosquiteira.

               Eram na Rua João do Casqueiro as sessões de “ gargarejo” sob escuta de vizinhança que se adivinhava pelo tremelicar das rendas das cortinas, nas vidraças indiscretas – encostadas não fechadas – para que, além da imagem lhe chegasse o som...

               Era na mesma faceira, à direita, quando se desce, onde há logo a seguir “ duas janelas de ferro batido com balaústres e laçaria “que são citadas num estudo da renascença em Portugal – conta Raul Proença.

               Havia então, nessa tal casa, onde eu habitava com minha Tia Madrinha, para ajudar nos arranjos domésticos uma alegre rapariga, do Povo de S. Vicente, chamada Alda. Ela compartilhava dos namoros das meninas da casa entre as quais me contava – tudo gente das mesmas idades. A retribuição desses favores era-lhe concedida com a invenção por nós de oportunidades que lhe permitissem fugazes encontros de esquina, com o seu próprio namorado.

               Era ela que generosamente entretinha minha Tia Madrinha com perguntas e confusões de ardilosas ignorâncias culinárias ou outras, sempre lá para os fundos... para que pudéssemos largar os livros e correr às janelas quando o som das patas dos cavalos faiscando na calçada anunciava a presença dos “senhores alferes”, a passar, caracolando lentamente nas suas garbosas montadas.

                             (Desenhos de Manuel Jesus - Pintor de Elvas)    

                                                           -----

Foi ela quem nos ensinou a oração a Santa Helena, que rezávamos para adivinhar o futuro dos nossos ingénuos romances e que, nos fazia andar dias inteiros, ensonadas, suspirosas e olheirentas, segredando pelos cantos a tentar como pitonisas interpretar sonhos de que retínhamos apenas farrapos esparsos.

               Sonhos que nos devastavam o descanso e o aproveitamento nas aulas.

               Deitávamo-nos nervosas, assustadas, de cabelos soltos e braços cruzados sobre o peito repetindo com um gostinho de medo, de gozo e de pecado a misteriosa oração com seu cheirinho a bruxaria que nos deslumbrava mas causava arrepios.

                    

ORAÇÃO A SANTA HELENA:

 

               Srª. Santa Helena filha do Rei Irene

               Vós que pelo mundo andaste com a Virgem vos encontrastes

               Com Ela vos aconselhastes

               A cruz do Santo Lenho achastes

               Os três cravos  que ela tinha  todos três vós lhe tirastes

               O primeiro deitaste-lo ao mar

               O segundo  deste-lo ao Santo Lenho

               O terceiro com ele ficastes

               Por esse cravo que vós tendes Senhora eu vos peço

               Que me declareis em sonhos bem declarados:

               (faz-se o pedido)

               Se assim for que eu veja :

                                         casas caiadas, roupas lavadas, águas claras

                                         campos verdes e mesas alçadas

               Se assim não for que eu veja:

                                         paredes escuras, roupas sujas, águas turvas

                                         campos secos  e espadas nuas

                                         Padre-nosso, Ave-maria

                                 (repete-se a oração três vezes)

                                                -----------------

               Depois, pela manhã, enquanto nos serviam o café, confabulavamos confrontando as interpretações cabalísticas dos enigmas que relatávamos – sonhados ou, ainda mais inventados pelos nossos pavores, remorsos e temeridade.

               (Querido e Santo Padre Marcial, como se terá divertido na sua tolerante bondade com as confissões escutadas nas primeiras Sextas feiras do mês no antigo Colégio Luso...)

               Setembro em Elvas, para mim, é o mês de todas as magias...

               Era o mês das noivas com os seus fatos brancos, seus véus, de braço dado com seus maridos a passear solenes nas noites de arraial...

               São as manhãs luminosas e frescas transparentes e aniladas. As tardes serenas e doces de brando anoitecer...

               São os dias ainda quentes em contraste com as sombras já frescas que os prédios projectam nas ruas estreitas do casario fechado entre muralhas...

               São as árvores ainda verdes que já não podem, no entanto, esconder a folhagem que empalidece...

               É o tempo em mudança.

               O fim da estação a marcar presença com as folhas caídas que bailam enfim soltas, a sua dança de liberdade e morte.

               É o toque da angústia de tudo o que finda.

               O vazio nostálgico onde a esperança há-de medrar e reviver.

               É o tempo a orquestrar na sua divina sabedoria o envelhecer do Verão.

               Não mais luz violenta, agressiva, que tudo devassa – não mais o calor que derrete, abrasa e estorrica.

               É o insinuar da transformação que anuncia o repouso da Natureza – como a meia-idade traz ás pessoas a ponderação e a calma no Outono da vida.

               É a descoberta do saborear de cada momento, do instante fugaz, do recato, do segredo, do sorriso, da recordação, do mistério da vida que se pressente mas nos escapa ao entendimento.

              É o mês em que casei há cinquenta anos e celebro agora só.

              Só, como se nasce.

              Só, como se morre, mas, com o coração pleno do que se viveu se relembra com dor e alegria, como uma música suave, que vem de longe, nos delícia, nos comove e faz chorar.

              Como uma canção de embalar que se escuta até que a paz do sono nos invada.

                               “I Remember September “

              É o título de uma velha e linda balada de amor desses tempos idos que um cantor famoso celebrizou. 

                             “I Remember September...”

           

 

                                                                Maria José Rijo

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Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.419 – 19- Set.- 1997

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Livro publicado:

Rezas e Benzeduras

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Este livro pode ser adquirido no Jornal Linhas de Elvas

                                       

 

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Para todos os visitantes/Leitores - em especial para a DINA e para a DOLORES - Hoje com as saudações da        Paula

estou:

publicado por Maria José Rijo às 00:02
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15 comentários:
De Dina a 14 de Setembro de 2007 às 00:29
Todos os elvenses, de nascimento ou de coração, sentem o mês de Setembro como único. Mesmo longe não há ninguém que tenha o pensamento em Elvas no dia 20 de Setembro.
Beijinhos


De Dina a 15 de Setembro de 2007 às 08:02
Só agora é que me apercebi doo erro...queria dizer (...)não há ninguém que NÃO tenha...(...)


De Dolores a 14 de Setembro de 2007 às 00:40
... tenho estado esperando...
olhando e relendo textos... mas de repente eis a novidade que veio quase com a meia-noite e meia.
Este LINDOOO Texto e esta NOIVA, este CASAMENTO...
Mas que Senhora Linda. Que fotos tão simpáticas.
(Vou tentar fazer a oração)

O S. Mateus deve de ser ou ter sido - uma grande festa. Importante, depreendo.

Agradeço à Paula o facto de me ter nomeado no final mas Eu a Dolores é que tem e muito que agradecer à Paula a forma querida, como ela coloca aqui os textos desta tia fabulosa,( desta noiva tão bonita), os textos que me deixam tão feliz.

Bem haja a Tia e a sobrinha esta maravilha que ambas fazem.
Estou muito Feliz.
Vou dormir...

Beijinhos
(parecem cartas os meus comentários mas eu sou assim, tenho de escrever tudo.)
Desculpem
beijinhos

DO LO RES



De Artur batista a 14 de Setembro de 2007 às 14:24
Ler Maria José Rijo
É um prazer.

A escrita é brilhante, tanto que apetece ler e conhecer mais e mais...
Compreendo a Dolores, que comenta este blog...
Parabéns

Artur Batista


De DOLORES a 14 de Setembro de 2007 às 14:26
Voltei... para ver outra vez as fotografias
e poder ler em voz alta, agora que estou sozinha...

pelas sete vou ler a minha mãe.

Beijinhos
Adorei ADOREI este seu texto, até estou emocionada...

Beijinhos

DO LO RES


De Anónimo a 14 de Setembro de 2007 às 14:35
Parabéns, pelo aniversário.

Paula Costa


De Adalgisa Alexandra a 14 de Setembro de 2007 às 15:34
Olá
Minha amiga virtual
Os meus PARBÉNS por este lindo aniversário.
Na foto de perfil achava-a uma Senhora ainda muito bonita - aos 80 anos - aqui está a prova da sua beleza - nesta fotografia do casamento.

Muitos Parabéns por tudo e por este belissimo blog.
Com muita admiração por ser a escritora linda que é.
Grata por poder ter acesso a este seu mundo na rede de redes.
Beijinhos
Gisa


De DOLORES a 14 de Setembro de 2007 às 15:35
Voltei...
só para dizer Olá...

beijinhos

DO LO RES


De Ana Maria Lourenço a 14 de Setembro de 2007 às 16:02
LINDO
Realmente continuo a achar que o dia do casamento de uma mulher, é um dia maravilhoso.

Estava linda de noiva.

Felicidades neste aniversário. Esta data marca sempre uma pessoa.

Gosto IMENSO de ler os seus artigos.

Ana M. L.


De Mafalda Gomes a 14 de Setembro de 2007 às 18:58
Muitos PARABENS por este dia.
O Amor na vida de uma mulher, devia de ser para a vida inteira - como o seu.
Gostei e gosto muito de Ler Maria José Rijo.
Foi uma linda noiva.
Mil beijinhos de Parabens.

M. Gomes


De David a 14 de Setembro de 2007 às 20:36
Só agora consegui cá chegar mas valeu a pena, este artigo, reminiscencia - ou mesmo Reza e benzedura - como lhe chama - muito me agradou.

Bom Texto.
Sensibilidade perfeita.
Parabens

David


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