Sábado, 22 de Setembro de 2007

O pequeno castanheiro – (história verdadeira)

         Quando rompeu a crosta da terra e apareceu à luz do dia pensou: - meus pais, avós e demais antepassados deverão estar por perto observando-me. Pensou e, por sua vez, sentiu vontade, uma vontade doida de crescer para se mostrar e ver o mundo que o rodeava e conhecer e honrar a sua espécie.

         Sabia, de um saber de génese, sem que lhe fosse contado ou o tivesse lido, que pertencia a uma família de árvores antiquíssima oriundas da Ásia.

         Descendia e pertencia à família das Fagáceas.

         A ainda nem tinha folhas mas esperava-as lanceoladas, alternas, dentadas e tinha a certeza de que seriam caducas.

         Há traços de família que são inalienáveis e com esses bens de herança contava para viver.

         Sabia que o seu destino era o de florir em épocas certas, criar seus verdes ouriços e deles soltar os frutos gostosos engordados no segredo desse berço de veludo.

         Via-os castanhos, brilhantes de polimento, via, idealizava já as suculentas e gordinhas castanhas. Tinha consciência da importância desses frutos na história dos homens.

         “Os castanheiros, titulados nas serras com respeitoso carinho os ossos de Portugal, que levam dezenas de anos a crescer, trezentos no seu ser e trezentos a morrer” (Aquilino Ribeiro, Avós dos Nossos Avós).

         Sabia que vivia em Guilhafonso, perto da cidade da Guarda, um antepassado seu que já era árvore quando as caravelas das descobertas acharam o Brasil e hoje era um nobre e frondoso gigante falado e respeitável.

         Sabia, só por provir de onde provinha.

         Por isso com alegria nasceu e quis crescer.

         Não era muito exigente.

         Não pedia ar condicionado, quer dizer: estufas ou requintes de modernidade.

         Apenas pedia terras não calcárias e um verãozinho longo para amadurecer os seus frutos.

         Quando ganhou uns palmos de altura olhou em seu redor muito interessado e reparou que em “souto” não vivia. Nem avistava família que mesmo de longe afavelmente o saudasse.

         Ficou preocupado com a solidão mas concentrou-se para crescer mais e melhor. Das aves que passavam nos céus e já o procuravam para pousar, que se recordasse, nunca ouvira falar.

         Pareciam-lhe exóticas, coloridas em excesso para o que julgava encontrar.

         Escutou os nomes: Alma de gato, Beija-flor, Maria preta, Maria branca, Saíra, Tié-preto, Tié-Sangue, Sanhaço, Ferro-velho, Tucano, Papagaio, Arara, Piriquito,, Saracura !!!

         Familiar só ouvira: - pica-pau, rolinha, garça, coruja...

Ficou intrigado.

Distraiu-se quando ouviu falar em: Natal. Alegrou-se, até.

Nevará? – Conjecturou!

Mas fazia tanto calor!

Toda a gente citava o Verão!

Desorientou-se um pouco. Porém, sabendo-se jovem aguardou o futuro confiado.

Nada tinha que dizer da beleza das árvores e plantas suas vizinhas. Prestava-lhes até, culto, com a sua admiração. Impressionavam-no as bananeiras que tanto se ocupavam a engordar seus enormes cachos de frutos sabendo que morriam a seguir.

Entendia o canto de alegria na cor das flores da spatódea, com sua laranja tão intenso que parecia rubro ao sol, como fogo.

Percebia a “vaidade” das tripsális quando as comparavam com plumagens de cor.

Levava horas embevecido com os “Ipês” roxos, brancos, amarelos...

Porém, no conjunto, tudo isto o inquietava.

Por perto via os macacos, quando o suposto era ver javalis, na calada da noite, resfolegando a fossar em procura das glandes caídas sob o manto das folhagens que atapetavam o solo com os mais variados tons de ouro e cobre nos Outonos doces das regiões montanhosas do interior de Portugal onde supunha viver.

As falas das pessoas iludiam-no. Eram as mesmas. Talvez mais coloridas como acontecia com os pássaros.

Mas não desesperou.

Vou fazer o meu dever – decidiu! – Quando já se salientava o bastante entre as outras árvores, e até já se notava a sombra que a sua copa projectava no chão.

Nessa noite, olhou o céu e pensou: - Esta Primavera darei flor e depois tudo se seguirá normalmente. Mas, quem recebeu a sua confidência, foi o cruzeiro do Sul e não a Estrela Polar como ele queria.

Ninguém o prevenira de que estava no Brasil. Que o haviam plantado na Serrinha do Alambari e que as estações do ano nem coincidem, nem têm a regularidade que ele sabia de cor nos meses da sua terra. Era outro hemisfério.

Vestir-se na Primavera, dar sombra no Verão, frutos no Outono, despir-se no Inverno, eram os dados que transportava e o comandavam.

Mas... que Primavera? – Que Verão?

Desorientou-se completamente.

Enganavam-no os frios, as chuvas, os sóis.

Floria fora do tempo. Repetia as próprias flores e empenhava-se noutras na esperança de alcançar a tempo o sol que as ajudasse a tornarem-se frutos.

Quando quase o conseguia o tempo voltava a traí-lo e os ouriços caiam vazios.

Chegou a florir três vezes num só ano. E apenas, uma vez conseguiu dar frutos. Nunca mais. Perdeu o gosto pela vida. Exausto desistiu.

Agora é poleiro de aves, tem orquídeas, nos ramos e erva de passarinho e com o seu jovem tronco erecto e seco conta a sua terna e triste história de emigrante que, talvez por solidão não encontrou seu caminho e se deixou vencer como ás vezes também acontece mesmo quando é o amor que comanda a aventura.

Porém, no coração do homem que o plantou, haverá sempre um menino que na sua terra natal brincava à sombra de castanheiros e esses, como a saudade, resistem a sóis e luas...

 

                                      Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.358 – 6-Junho-1996

Conversas Soltas

 

 
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publicado por Maria José Rijo às 21:29
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10 comentários:
De Dolores a 22 de Setembro de 2007 às 23:47
Minha AMIGA
Mas que maravilha.
Cada texto é mais surpreendente que o anterior.
Deve de ter sido uma viagem Maravilhosa - já que é contada com tanta BELEZA.
Hoje vou dormir muito melhor.
Gosto tanto TANTO do que escreve.
Parabéns
Muitos Beijinhos

Desta sua MUITO ADMIRADORA e amiga

DO LO RES


De Dolores a 23 de Setembro de 2007 às 02:30
VOLTEI...
Deitei-me ... acordei... vim ler de novo...
Não resisti... a insónia dá cabo demim...

Ler Maria José Rijo - é calmante, é paz, é alegria, é saudade, é ler bonito, é ler lucidez, é sorrir de alegria,
é bom e eu gosto MUIIIITOOOO

Este texto é uma maravilha.
Beijinhos

Dolores


De Alberto Mateus a 23 de Setembro de 2007 às 02:33
Passei para deixar um beijinho e deliciei-me com este belo texto do Castanheiro.
Sou um apaixonado por estas árvores .
Está fantastica esta história.
Tem imagens bonitas.

Prabens

Mateus


De Gustavo Frederich a 23 de Setembro de 2007 às 10:51
Estou impressionado por tanta beleza.
Este texto tem um encanto natural - como a própria paisagem brasileira.
O mundo das aves brasileiras - é mesmo um mundo - colorido, cheio de trinados variados e aquela beleza que o Brasil contem, no minimo dos pormenores.
Feliciro-a por esta bela história.
Maria José Rijo tem o Dom de conseguir, pelas suas palavras, formar belas imagens - aos olhos de quem lê.
Muitos Parabéns por mais este belo texto

Este seu Blog é uma emoção - a sua sensibilidade marca pontos no meu coração.

Grato por poder ter acesso a este seu (agora meu) mundo. esta janela virtual é fantástica.

Seu admirador

Gustavo Frederich


De Flor do Cardo a 23 de Setembro de 2007 às 12:00
Nos jornais, nas revistas, na net.... seja onde for...
Ler Maria José Rijo
O prazer é sempre IMENSO.

Parabéns por este belo conto.
Seu admirador

Flor do Cardo


De Luciano Baptista a 23 de Setembro de 2007 às 12:08

D. maria José que história tão bela e verdadeira.
Na net encontrei este blog que acho raro e belo, meio animado, contado - sobre os castanheiros.
Espero que goste.
Beijinhos
Luciano Baptista

http://www.naturlink.pt/uploads/%7B81C004F3-DF5C-4FA7-BF00-8FA6EB7796A1%7D.swf


De Damasio Teixeira a 23 de Setembro de 2007 às 15:54
Gosto.
Gosto muito desta sua janela virada para o mundo.
Gosto da forma como fala da vida, das palavras com que a canta...
Gosto dos temas que a levam a escrever estes textos belos echeios de sentido e significado...
Gosto das imagens que nos fazem sonhar e cujas palavras nos levam até sua alma.
Gosto sim, Gosto muito de ler o que se passa neste mundo tão seu.
Muitos Parabéns

Seu admirador

Damasio Teixeira


De Luis carlos Presti a 24 de Setembro de 2007 às 00:57
Interessante.
O texto tem uma visão muito interessante do brazil. A história está contada com muita alma e o castanheirinho parece tomar vida, atraves das suas palavras.
Atrai-me a visão que se vai tendo ao longo do texto, as palavras suscitam belas imagens.
Noto a facilidade com que brinca com as palavras, e gosto dessa forma.
Dos seus textos dizer - escreve bem - é pouco - Maria José Rijo é uma Senhora que através da palavra consegue falar-nos ao coração - é quase uma conversa de alma para alma.
Parabéns.
Volto amanha procurando saciar a minha sede de sabedoria - sabedori que só aqui encontro - na minha medida.

Luis carlos Presti


De Dolores a 24 de Setembro de 2007 às 01:35
Cá estou eu de novo...
SÓ PARA deixar mais um beijinho de boa noite.
Amanhã cá estarei.

DOLORES


De Malaquias Beirão de Sousa a 24 de Setembro de 2007 às 13:26
Boa tarde
De Torres Vedras e pela mão da Dolores - eis-me a ler e a reler deliciado, os escritos de Maria José Rijo, que na boca da nossa amiga Dolores "Não há blog melhor" - eu venho confirmar o que ela repete.
Eu O Sousa, que leu este blog opina - que Maria José Rijo é uma pessoa de muita sensibilidade, cujos textos de grande qualidade chegam directamente ao coração de quem vier ler.
O português é muitissimo bom, do que já não se encontra muito por aí, os temas actuais e sente-se a imensa sensibilidade, a honestidade e a jovialidade de quem escreve - com a alma - só quem escreve assim consegue transmitir aos outros o brilho da sua alma.

Estou fasccinado e grato à Dolores por me ter indicado o blog e a Maria José Rijo porque estando on-line facilita a muito boa gente - como eu - a delicia de a poder ler.

É um torrãozinho de açucar este seu texto.
Muitos Parabéns.

Com os meus cumprimentos,

Malaquias Sousa


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