Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Singularidades

           .

 Há quem se encante com coisas várias. Eu também. E nem precisam ser coisas raras, pouco vistas.

            Deslumbram-me as flores, por exemplo. Com as suas especificidades próprias, as suas cores, beleza, formatos, os seus nomes, perfumes, manhas.

            Manhas, sim! Algumas dispõem de mecanismos ardilosos para chamar os insectos que ao visitá-las promovem a polinização que garante a reprodução que continuará a espécie. Outras soltam sementes aladas para que o vento as disperse e por longe as propague, como quem manda filhos para outras pátrias onde a vida promete mais vantagens.

            Outras revestem as sementes de filamentos que se agarram ás roupas das pessoas, ou ao pêlo dos animais que por elas roçam e assim as transportam como quem vai de boleia para o seu almejado destino.

            Há em algumas plantas, como se bichos fossem, um certo mimetismo que as ajuda na sobrevivência. É ver os pinheiros que toda a gente sabe altos, esguios, erectos, a contorcerem-se arrastados rente ao chão ali por S. Pedro de Moel, a fingir que lá não estão, rastejam dissimulando-se à nortada impiedosa que os fustiga mas, assim, não vence.

            É ver as figueiras lá para Sagres, S. Vicente, acocoradas como galinhas sobre os pintos para escapar heroicamente ao açoitar constante dos ventos salgados que as privam da liberdade de serem iguais às suas farfalhudas irmãs do resto do Algarve onde a doçura do clima as afaga e protege.

            E os nomes! São um prodígio de imaginação de fantasia, de beleza. Nomes de família, de espécie, como se fidalgos fossem ou bichos com pedigree...

            Das flores quantos nomes passam para as pessoas! - São as Rosas, as Margaridas, as Orquídeas, as Dálias, as Hortênsias, as Eufrásias, os Jacintos, os Narcisos, etc, etc, etc,

            E os apelidos! - São os Carvalhos, os Oliveiras, os Laranjeiras, os Pereiras...

            Se as flores dos jardins são semeadas ou dispostas ao sabor do arbítrio de quem escolhe, de quem as elege, e para elas prepara o terreno a preceito nada nos surpreende no resultado ainda que nos encante. Já as flores do campo têm uma linguagem diferente.

            Zonas há em que nalgumas estações do ano, como se o próprio arco -

 iris sobre elas tivesse entornado as suas cores, com os lilases dos rosmaninhos e dos chupa-mel, os vermelhos gritantes das papoilas, os amarelos e os brancos dos malmequeres, os rosados das corriolas se tornam um verdadeiro festival de beleza encobrindo o solo com infindáveis mantos de beleza. Então, aí, elas funcionam como mensageiras dos segredos da terra. Elas aparecem espontaneamente para dizer que sendo aquele solo próprio para nele proliferarem é porque a sua constituição é ácida, arenosa, é seca, húmida, argilosa ou de qualquer qualidade, conforme as necessidades da sua espécie.

São certamente as árvores, as flores, a vegetação em geral, uma forma de linguagem que a terra usa para falar ao coração dos homens. Tal como dos sentimentos dos próprios homens falam as acções mais do que as palavras.

            Porém também no mundo das flores por vezes as aparências iludem. Há plantas lindas que escondem venenos letais. Como há gestos e palavras que ocultam pérfidas intenções.

            Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos “bluffes”.

            As rosas tão delicadas, tão acetinadas, com seu todo angelical, são inseparáveis de seus acerados espinhos...

            Encantam mas, picam, fazem sangrar a mão que as colhe como se para tudo na vida tivesse que existir um contraponto de dor.

            Nem sempre o que é bom, como nem sempre beleza e fragilidade são símbolos de inocência...

            Porém não nego o meu fascínio por esse mundo vegetal, verde e mudo, a que só o vento ou o fogo dão voz mas elaborando no mistério da profundidade das suas raízes esquemas de vida e sobrevivência dignos dos cérebros mais sofisticados.

            Também aí a vida das flores se assemelha à das pessoas, com suas especificidades, seus nomes, seus feitios, suas qualidades, seus defeitos e fraquezas, suas virtudes e malefícios, seus perfis, suas estaturas ou suas frondes e típicos troncos, mas sempre com seu quê de mistério. Só não entendi ainda se são as flores que se revêem nas pessoas, ou se são as pessoas que se revêem nas flores.

            Também esta dúvida por certo é parte integrante do segredo e do encanto.

 

  Maria José Rijo

@@@@@@

Revista Norte Alentejano

Nº 3 – Agosto /2000

Crónica

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.

 

 

estou: Revista Norte Alentejo

publicado por Maria José Rijo às 19:41
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5 comentários:
De Dolores a 27 de Setembro de 2007 às 22:45
Boa-noite
Cá está a Dolores.... como não poderia deixar de ser.
Hoje temaqui um texto magnífico - belo todo ele.

Gosto muito deste tipo de textos. A Senhora tem tantos e todos tão bonitos.

Continue a escrever, escreve tão bem, é tão maravilhosa a escrever... encontra-se por aqui pedaços lindos da sua alma, visões, paisagens, lembranças únicas e tão bem relatadas, tão verdadeiras.
Gosto imenso IMENSO de ler tudo o que escreve.

Beijinhos
Até amanhã
Sua amiga
Dolores




De Flor de Liz a 27 de Setembro de 2007 às 22:47
PAssei para dar uma olhadela
e gostei bastante deste artigo.

Parabéns

Flor de Liz


De Aureleo Velez a 28 de Setembro de 2007 às 00:48
Muito bem moldado este textos.
Gosto da forma bonita como expõe os assuntos.
Atrai-me muito a sua forma elegante de escrever,a forma de falar do mundo, mostrando pedaços "floridos" da sua alma sensivel.

Sabe já venho ler (não todos os dias) (mas muitos dias) este seu blog desde meados de Março.
Sinto-me muito bem por entre esta beleza, por este lugar onde a escrita é bem tratada e é-nos oferecida em bandeja de ouro.

Bem haja pela vontade e beleza com que nasce cada um destes artigos - nestas páginas abertas ao mundo virtual.

Felicidade e não deixe de escrever - escrever faz bem e anima o cérebro a continuar a trabalhar ( como dizia o meu velhinho e querido - professor e amigo - Calisto )

Boas noites

Aureleo Velez


De Dina a 28 de Setembro de 2007 às 01:04
Não sei porque é que ainda me admiro quando leio o que escreve...já a devia conhecer suficientemente bem para saber que consigo tudo o que nos parece quase banal ganha outra dimensão. Eu adoro plantas, flores...não tenho mais porque já não tenho espaço mas nunca me lembrei de as associar assim à vida de todos nós.
Enquanto lia este texto veio-me há memória uma imagem que vi já lá vão quase 20 anos. Ia todos os dias para Campo Maior e por volta do mês de Março os campos começaram a florir de tal maneira que todos os dias os via e todos os dias achava que era uma privilegiada por poder assistir aquele espectáculo. Acho que nunca vi tanta beleza junta.
Gosto de flores mas não gosto de comprar flores nem de as ver numa jarra...gosto delas agarradas ao seu caule, às suas raízes ao que lhe dá vida.
Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”.
Que grande verdade...mas nas flores é uma forma de se defenderem e nas pessoas é a forma de atingirem metas sem olhar a meios na maior parte das vezes.
D. Maria José um beijinho enorme para si.


De Ana Maria Lourenço a 28 de Setembro de 2007 às 12:34
Gosto tanto da sua forma de escrita.
Fico sempre a meditar nas suas frases chaves - em cada artigo.
Muitos Parabéns por este belo blog e pela forma linda como é mostrado a quem passa.
Beijinhos

Sua amiga
Ana Lourenço


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