Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

Apontamento de acaso

            Os meus assuntos de conversa, provêm do pouco de televisão que vejo, e, do pouco, ou muito, que vou conseguindo ler, para além, claro, das minhas reminiscências, ou do que aos meus olhos se oferece quando relanço a vista das minhas janelas pelos horizontes em redor.    

            De outras fontes não disponho porque as minhas breves saídas de casa se limitam às compras domésticas e, nestes tempos das grandes superfícies comerciais não se encontra mais qualquer espécie de atendimento personalizado que permita os tais dois dedos de conversa, ainda que fiada.

 Agora, de prateleira em prateleira deslizam os olhares angustiados dos compradores por reconhecerem os artigos desconhecendo os preços que dia a dia se renovam sempre em movimento ascendente. Cada qual como se de autistas se tratasse, absorto, deambula por entre as ricas panóplias do exposto fazendo cálculos mentais aos parcos proventos de que dispõe para uma escolha, cada vez mais difícil dos alimentos a adquirir. Assim, que a não ser o: desculpe! Com um sorrisinho desbotado sempre que um carro ou um freguês encalha no outro no apertilho dos corredores entre as altas estantes é o silêncio de constrangimento que impera no ambiente onde a música de fundo faz um eco fantasmagórico criando ás vezes um certo ar de feira que mais confunde do que acompanha.

            Conclusão: - não há hipótese de convívio em tais recintos embora por vezes o insólito por lá aconteça e dele se conserve a lembrança dum sorriso divertido.

 Ainda outro dia, com o menino (quatro aninhos, talvez...) sentado dentro do carrinho, a jovem mãe, percorria com os olhos as prateleiras hesitantes na selecção dos produtos de higiene. Então o menino descobriu um objecto em forma de ovo e, eufórico, cobiçou-o pedindo-o com insistência.

            Que não, que não - respondia a mãe. Que aquilo era para dar bom cheiro à casa de banho, e não lhes era necessário. Foi então que o “ pequeno freguês” aduziu em alto e bom som um último e poderoso argumento: - compra Mãe que a nossa casa cheira muito mal!

            Aflita a jovem mãe olhou em redor, corada até às orelhas, para ver se alguém escutara aquela observação e deu comigo a rir e a pedir-lhe para me deixar dar um beijo no engraçado garoto, que indaguei chamar-se Ricardo.

            Este menino! Este menino! Repetia ela, confusa.

           É uma maravilha, rematei eu, bem divertida seguindo o meu caminho.

           Na memória dois versos: - cruzamos por momentos nossos passos na vária trajectória desta Vida...

            Que poeta terá escrito isto?

            Não sei, não me recordo, e tenho pena...

 

                                                     Maria José Rijo

@@@@@

Revista Norte Alentejo

 nº 12

Maio / Junho 2001

Crónica

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 23:21
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10 comentários:
De Gustavo Frederich a 9 de Outubro de 2007 às 00:31
Adorei.
Divertido - hoje.
Ri - com este menino Ricardo e adorei (mais uma vez) a forma como conta - atravez de si vi toda a cena.

Parabens pela imagem.

Gustavo Frederich


De Adalgisa Alexandra a 9 de Outubro de 2007 às 00:34
LINDO.
O seu blog - para mim - é o melhor do planeta, onde a escrita - bela, verdadeira e cheia de uma sensibilidade - tão bonita quanto a Sra deve de ser.

Gostei da foto - muito carinhosa.
Adorava que fosse minha tia - acho lindo ter tias escritoras ( eu não tenho).

beijinhos

Gisa


De Dolores a 9 de Outubro de 2007 às 00:40
Oi oi oi oi ...
Finalmente cheguei a casa - fui jantar com os meus sogros que faziam anos de namoro ( ainda celebram a data em que iniciaram o namoro ) imagine.

Mas que texto lindo e até me ri com a história tão engraçada que hoje trouxe a lume.
ADOREI Adorei a foto.
É uma Senhora muito bonita e muito carinhosa.
Olhando a fotografia é-nos mais facil pensar na pessoa que escreve - alma imensa como a sensibilidade e o coração.

Adoro ler o seu blog - é agora a minha principal tarefa (a mais) deliciosa.

Beijinhos para si

DO LO RES



De Flor do Cardo a 9 de Outubro de 2007 às 01:49
Muito Boa noite

Tenho notado a sua ausencia nos periodicos. E devo dizer-lhe que os jornais do burgo, sem a sua presença - é como dias sem sol.
Os seus leitores precisam de si, das suas palavras, do seu carinho por esta cidade, e da sua sensibilidade.
Vejo que aqui está presente em cada dia - o que me agrada e já aprendi a vir por aqui todos os dias (e noites).

Bem haja minha amiga (virtual)
Não sou minguém...
Apenas um admirador da sua palavra, da sua escrita que faz tremer muitos, e a uma grandissima maioria se delicia com a sua prosa inteligente.

Flor do cardo


De João Mateus a 9 de Outubro de 2007 às 01:59
Lindo Blog.
Belissimos textos.
Escritora Maravilhosa que lida com as palavras como ninguém.

Cada texto é mais sublime que o anterior.
Parabens

J.M.


De Manuel Maria Maia a 9 de Outubro de 2007 às 09:03
Interessante!
Muito interessante a forma como Maria José Rijo fala e VÊ a vida.
Gostei imenso desta sua forma de comunicar, da sua forma limpida de contar a vida, das imagens que transmite em cada frase, em cada artigo.
Conheci o seu blog no mês passado, desde então Sou um leitor assiduo - é que é um prazer ler Maroia José Rijo.

Que eu possa ler muitos mais dos seus artigos - aqui neste belo blog - aqui mora o bom português - aqui vive o coração, a alma pura de uma Senhora (que não conheço) mas que me encantou e fez enamorar com a força da sua pena - com a alegria desta sua presença - na minha vida.

Bem haja e continue a escrever - o mundo (eu) preciso de a poder ler.

Com os meus cumprimentos

Manuel Maria Maia
(o homem dos 3 ems - como sou conhecido pelos meus amigos)


De DOLORES a 9 de Outubro de 2007 às 10:49
Olá
... larguei o almoço e vim ver outra vez...
Gosto imenso desta fotografia.
Está mesmo muito bonita com o seu cãozinho.
Como se chama ele?

Beizinhos
até logo

Dolores


De Dina a 10 de Outubro de 2007 às 18:11
Um texto que me deixou a pensar que não tarda nada o meu neto faz coisas assim, já hoje ainda meio trapalhão a falar, aliás muito trapalhão a falar...ele mostra que vai ter sempre argumentos para contestar as ordens que lhe dão...mas ao mesmo tempo é um doce. A mãe tem tido, quanto a mim, um cuidado imenso ao mostrar-lhe que existem regras e limites que ele tem que cumprir e quando isso não acontece ele próprio já se coloca de castigo...
Faz dois anos no próximo mês e é uma doçura. Claro que eu como avó sou suspeita!!
Beijinhos


De Dina a 10 de Outubro de 2007 às 18:13
Esqueci-me apenas de dizer que tenho uma cadelita quase igual a essa...é a Zara Maria.


De Dolores a 11 de Outubro de 2007 às 13:10
Olá
Mas então por onde andam estas Senhoras que me abandonaram!
Então e eu... onde estão os textinhos para eu ler e me regalar?

Hoje já é a 6ta vez que cá passo mas como não vejo nada resolvo perguntar...
que lhes aconteceu?
Foram passear?

Espero que tudo esteja bem com as minhas amigas virtuais. Hoje talvez ainda cá venha - é que vou passar o fim de semana a Madrid - vou a um casamento de um afilhado de meu marido.

Beijinhos

Vossa amiga

DOLORES


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