Sábado, 13 de Outubro de 2007

Falas de acaso

Todos falamos de tudo.

Do que lemos, do que ouvimos, do que observamos, do que conhecemos, do que suspeitamos, do que sabemos e, até do que desconhecemos.

Falamos, falamos, falamos...

Tanto falamos, que até é costume dizer-se que falamos por falar.

No entanto, há ocasiões em que queremos falar e as palavras, não ajudam. Faltam.

Não é sequer que faltem os assuntos. Não, não é o caso.

Até se pode dizer que a dificuldade está em escolher de entre tantos que nos ocorrem.

            Porem, nem tudo vem a propósito, ou, vindo a propósito não se coaduna com a circunstância.

Vejamos o caso: eu tinha a crónica para escrever.

Em boa verdade já a deveria ter escrito. Tempo não me faltara. Faltara-me sim disposição.

E, não era por mais nada, era só porque crescia dentro de mim, há muito, uma vontade doida de nada fazer. Estava com uma disposição, só semelhante, tenho esse palpite, à que deve sentir o caracol quando resolve meter-se na casca e hibernar.

Ele sabe que lá fora está o mundo, que o sol vai brilhar, desfazendo as brumas da madrugada. Ele sabe que gosta de sair do seu sossego, para pastar, manhã cedinho quando a erva está tenra e fresca. Ele sabe isso tudo, mas não se importa.

            Faz uma cola bem fabricada com o seu visco de escorregar, enrola a palmilha com que caminha, encolhe os pequeninos tentáculos, solda-se a um qualquer tronco de oliveira ou pé de cardo, isola-se das vicissitude da vida, e curte o seu caprichoso destino no silêncio dum isolamento apetecido.

Deve ser qualquer atavismo que a isso o impele.

Eu dava de muito má vontade, guarida a uma gripe que me assaltara nesta época, que sendo – Verão, não tinha que pactuar com maleitas de Inverno.

Não tinha, mas aconteceu, e todo o meu corpo repelia a intromissão da febre, da tosse e, de todas as coisas que nos impelem a procurar ficar fechados dentro de nós, como se fosse assim possível diminuir a parte exposta aos malefícios de tal “sinapismo”.

Pois foi no momento em que a palavra sinapismo me ocorreu que as recordações de infância me invadiram e a vontade de rir ou sorrir, sacudiu em mim a tendência quase irreprimível para a lamúria.

Hoje há uma panóplia bem vasta de farmacos contra a gripe.

Há medicamentos lindos, coloridos, burilados, lapidados como pedras preciosas.

Apetece olha-los, manuseá-los como jóias. São verdadeiras tentações.

Tempos houve, porém em que as tisanas tresandando a melaço, enjoativas como purgantes, eram a panaceia.

Com elas apenas competiam em eficácia e incómodo os sinapismos.

Eram emplastros feitos de papas cinzentas de mostarda moída, aplicados em quente nas solas dos pés e na barriga das pernas.

Mordiam na pele como formigas desvairadas de fome, e faziam transpirar de calor e incomodidade.

Por isso a palavra sinapismo tem sentido tão pejorativo.

Mas voltando ao mote desta crónica...

Nem só por palavras as pessoas se entendem!

Quando eu era adolescente e queria faltar às aulas inventando gripes, ninguém me fazia reparos.

Com ares muito solícitos, serviam-me tisanas atras de tisanas e quase faziam de mim uma múmia com a profusão de sinapismos, ventosas nas costas e algodão iodado no peito até escaldar como o sol do meio-dia. 

E. Assim. Sem palavras se aprendia...

Eis como uma gripe, também pode fazer renascer uma lembrança longínqua, um sorriso, e proporcionar uma conversa de acaso.

 

 

 

                                              Maria José Rijo

@@@@@@

Revista Norte Alentejo

Nº 21 – Agosto / Setembro 2002

Crónica

@@

estou:

publicado por Maria José Rijo às 20:46
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4 comentários:
De Dolores a 14 de Outubro de 2007 às 10:20
Olá Buenos dias
Aqui de Madrid - da casa do meu familiar - têm net - pelo que posso vir espreitar.

Lindo este seu texto.
Mas então está com gripe.? Que pena.
Tenha cuidado - é bom cuidar-se e andar sempre muito quentinha.
As fotos estão muito lindas.~

Parabéns e muitos Beijinhos
DO LO RES


De Tomé Alexandre a 14 de Outubro de 2007 às 11:38
Olá
Acabei de encontrar este seu blog e estou fascinado pela forma como escreve.
Muitos Parabéns.
Gostei imenso de ler.

Tomé Alexandre


De Natércia Sousa a 14 de Outubro de 2007 às 13:58
Muito Boa-tarde
acabei de entrar aqui no seu belo blog
por onde andei por uma hora inteira
e agora, no fim, venho dizer-lhe que
ADOREI tudo o que li.

Esta sua forma de escrever estará muito
ligada a uma imensa sensibilidade que
possui. Depreendo aqui muitas vivencias,
muitos sentimentos, saudades imensas de
pessoas e momentos "Chave" na sua vida.

Senhora de 80 anos que vê a vida tão lucidamente
e que escreve - sobre essa vida - com uma
clarividência marcante.

Bem haja a esta sua sobrinha e a si - que nos mostram a Beleza e a sensibilidade de se ser
Maria José Rijo.
Um ser encantador - que pelas palavras e pelo coração me mostra o seu mundo.

Continue - por favor - a mostrar - neste espaço
estes tão belos textos.
Gostei imenso.
Parabéns.

Natércia Sousa


De Mónica Magalhães a 14 de Outubro de 2007 às 17:22
Acabei de encontrar o seu blog
O qual me deu muito prazer.
Tem uma optima leitura, temas muito agradáveis e
cheios de lucidez.
Bem haja por este blog - que leva a voz de Maria José Rijo
até ao fim do mundo.

Eu vivo na Holanda, e adora andar pela net.
Parabéns

Mónica


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