Domingo, 21 de Outubro de 2007

REZAS E BENZEDURAS VI

Nos meses de Junho e Julho, naqueles tempos da primeira metade deste século, quando ainda não se falava em “buraco de ozono”, muitas coisas eram diferentes.

          Naqueles tempos a pureza do ar que se respirava era um facto incontroverso.

Os rios eram de “águas cristalinas” e tinham “peixes de prata” – como apregoavam as canções meladas e românticas de então. Não admira que as músicas tenham mudado porque os rios também mudaram. Agora são correntes de águas poluídas, esgotos a céu aberto onde flutuam dejectos e espumas ácidas que não consentem vida.

As matas e as florestas eram habitat e refúgio de pequenos animais e de passarada que cantava nas ramarias.

Os ovos, nos ninhos, eram anúncio de novas vidas e não trágicos esquifes onde os pesticidas escondem selos de morte na sequência de uma envenenada cadeia alimentar

As árvores assinalavam fecundidade dos solos oxigénio, saúde... e não se contavam como inevitáveis candidatas a archotes vivos, por qualquer “vil cobiça” ou negociata de gente sem escrúpulos.

Nesses tempos ainda recentes, não se falava, porque não se receava do excessivo aquecimento da terra, da fusão dos gelos polares, das alterações climáticas dos sufocantes níveis de poluição que comprometem a vida no nosso planeta etc. etc...

Então, Verões e Invernos eram épocas do ano genuinamente características – quase diria: puras - e  assinaladas  como certas  nos calendários.

Se Primaveras e Outonos, eram tempos caprichosos de humores vários, com assomos exuberantes de alegria e birras de arrufos de namorados nos Marços e Abris; as crises de cinzentas tristezas e lagrimais de chuva eram em meses outoniços mais languidos e doentios – os invernos e verões alentejanos eram bem castiços.

Senhores absolutos de um frio de rachar que contrapunham aos dias de Verão luminosos até à cegueira e tão quentes e abafados como deverão ser as portas do inferno

           Então, lá pelas pequenas aldeias, como aquela onde cresci, lá onde se acreditava em bruxas a dançar à meia noite nas encruzilhadas, e em lobisomens que uivavam como cães raivosos, lá, parecia que a terra arfava de febre exalando um bafo cheiroso de restolho que embebedava os sentidos.

           Pois era nessas alturas, ali, em plenas labaredas desses calores de Junho e Julho que aconteciam os exames nas escolas e liceus.

                           ( Desenhos de Manuel Jesus

                                     - pintor de Elvas)                               

 

              E, se durante todo o ano mal se perdia lápis ou caneta, livro ou borracha - logo se atava um nó no lenço que depois se entalava debaixo de pé de mesa ou de cadeira para prender com firmeza o rabo do diabo e achar o perdido , por acréscimo de eficiência também se rezava a Santo António:

                                Contra males e demónios

                                rezar sempre a Santo António

                                aplaca as fúrias do mar

                                tira os presos da prisão

                                e o perdido faz achar

                                apareça , apareça o diabo  sem cabeça .

 

              Avalie-se como o pobre do Santo, era importunado no seu próprio mês quando se esperava que os milagres resolvessem as tragédias da ignorância escolar.

             Então com o sol no zénite - o meio dia solar - que isto de adivinhações recusa os preceitos de Greenwich  tentava-se prescrutar os mistérios do futuro .

             Cada candidata a Sibila rezava baixinho:

    

                        Indo Santo António para o seu montinho 

                        perdeu o seu bendito rosário e o seu bendito

                        livrinho

                         três brados ouviu de sua tia e madrinha :

                        beato António , beato António,

                                         beato António                         

                        volta atrás que o que me pediste

                        será lembrado

                        e o que perdeste será achado

                        peço à sua santa madrinha pelos martírios

                         que passou

                        pelo seu afilhado que me descubra em vozes

                         do mundo

                       ( faz-se o pedido)

                       Padre Nosso - Avé Maria

                     

          Terminada a oração cada suplicante ia colocar-se de ouvido à escuta pelas frinchas das janelas ou das portas os sinais das vozes do mundo que interpretadas lhe trariam as respostas desejadas.

          Portas a bater, galos a cantar, crianças a rir, cães a ladrar.

          Nas pedras da calçada a violenta luz do sol incidia faiscando como em espelhos.

          As moscas zumbiam nas sarjetas secas e fedorentas ao mais pequeno estremecimento - e nós imóveis como estátuas aguardávamos sinais de resposta  para o que de  antemão  saibiamos  como iria acontecer.

          Porém, na juventude até a aprendizagem da vida tem seu lado lúdico, medos, ousadias, tudo são experiências...

         E, se nada é novo sobre a terra tudo será sempre novo  para cada um  que pela primeira vez faça qualquer descoberta por insignificante que pareça.                  

                                      

 

                                               Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.424 – 24-Outubro-1997  

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Este livro pode ser adquirido na redacção

do Jornal Linhas de Elvas

 

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 18:08
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5 comentários:
De Natércia Nogueira a 21 de Outubro de 2007 às 19:06
Muito Boa Tarde
Hoje regressei ao seu belo Blog e encontrei
esta Reza e Benzedura - a número 6 - li
todas as que estavam aqui e acho um trabalho
de recolha MUITISSIMO interessante tão
interessante que acho que deveria estar a
nível de uma grande editora como a Porto
Editora ou a Bertrand.
Muitos Parabéns por esta bela publicação.

De Santo António tenho orações na minha
familia que eu ainda hoje rezo - como
esta que me encinou a minha avó Margarida:

Senhor JesusCristo,
infunde em nós a tua graça
com a qual e da qual recebemos
a plenitude da verdadeira vida.
Roga por nós ao Pai
para que tenhamos uma fé viva
e mereçamos alcançar
um lugar na vida eterna.

Com a tua ajuda,
Tu que és o princípio e o fim,
digno de louvor, admirável e inefável,
pelos séculos dos séculos. Amém.

--
E esta outra foi-me ensinada pela
Tia Rosinha ( meia irmã de meu Pai)

Nós te suplicamos, Senhor Jesus,
que nos prendas a ti e ao próximo
com o laço do amor.
Que possamos amar-te
fortemente, com toda a alma,
para não sermos enganados;
docemente, com todas as forças,
para não sermos seduzidos por outros amores
e desviados do teu amor.
Que amemos nossos irmãos
como a nós mesmos,
com a tua ajuda, ó Senhor,
que és bendito pêlos séculos. Amém!
--

Espero que goste eu ainda hoje as rezo.
Muitos parabéns pelo blog

Natércia Nogueira


De Flor do Cardo a 21 de Outubro de 2007 às 19:10
Também tenho este livro
como todo e qualquer elvense que se preze
deve ter.

Além do que tenho autografado - por si -
para mim - ainda ofereci um exemplar a cada
menbro da minha familia e alguns amigos.

Gosto do que escreve.
Admiro-a desde cedo e acho que é uma das
pessoas mais importantes na cidade, cuja
cultura e maneira de estar me dá animos para
continuar...

Bem haja

seu amigo
Flor do Cardo


De Margarida Damião a 21 de Outubro de 2007 às 19:16
Que bonito!
Sabe eu também sei uma ladainha de
Santo António que é a seguinte:

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,
Santo António, rogai por nós.
Íntimo amigo do Menino Deus,
Servo da Mãe Imaculada,
Fidelíssimo filho de São Francisco,
Homem da santa oração,
Amigo da pobreza,
Lírio da castidade,
Modelo da obediência,
Amigo da vida oculta,
Desprezador das glórias humanas,
Rosa da caridade,
Espelho de todas as virtudes,
Sacerdote segundo o Coração do Altíssimo,
Imitador dos apóstolos,
Mártir pelo desejo,
Coluna da Igreja,
Amador das almas,
Propugnador da Fé,
Doutor da verdade,
Batalhador contra a falsidade,
Arca do testamento,
Trombeta do Evangelho,
Convertedor de pecadores,
Extirpador de crimes,
Restaurador da paz,
Reformador dos costumes,
Triunfador dos corações,
Auxiliador dos aflitos,
Ressuscitador dos mortos,
Restituidor das coisas perdidas,
Glorioso taumaturgo,
Santo do mundo inteiro,
Glória da Ordem dos Menores,
Alegria da corte celeste,
Nosso amável Padroeiro,
Doutor da Santa Igreja,
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do
mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do
mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do
mundo, tende piedade de nós.

---
Acho-a muito bonita e hoje
vim dar-lha a conhecer.
Adoro andar por aqui.

Sua admiradora
Guida Damião




De Dolores a 21 de Outubro de 2007 às 22:36
Olá
Hoje atrasei-me já tem tem comentários -
chegaram primeiro que eu.
MAs não faz mal - cheguei agora - já li
e adorei esta nova Reza e Benzedura - a de
Santo António.
Vi que outras pessoas lhe deixaram as orações
de familia e eu também lhe vou deixar a
minha, a que aprendi com a mimha Bizavó
e é a seguinte:

Santo António, vós que em vida
sempre guardastes e defendestes a família,
ajudando-a a crescer para melhor
cumprimento de sua missão educadora, olhai
pela Família de hoje, exposta a tantos
problemas materiais, morais e espirituais.
Olhai carinhosamente pela minha Família,
para que nos compreendamos bem, nos
amemos com sinceridade, e cultivemos a
presença de Deus e sua lei de amor. Que
nossos filhos possam tornar-se pessoas
dignas e construtoras da sociedade de hoje,
carente de líderes cristãos, que saibam
conduzir a vida temporal à luz dos princípios
evangélicos.
Santo António, uma bênção para todas
as famílias e uma especial para a minha
também. Amém.

--
Espero que goste também da minha
achega.
Muitos beijinhos

DOLO RES


De Nicolau Demetrio a 22 de Outubro de 2007 às 18:45
Estas rezas e Benzeduras fazem lembrar-me
da minha infância no Baixo Alentejo.
Isso quando eu era menina, na casa de minha
Avó Carolina - supersticiosa na quinta casa,
mas uma ardente coleccionadora de orações.

Vi aqui os diferentes textos e li com muito
inrteresse as orações, todas muito bem enquadrados
nestes textos, magníficos.
Muitos Parabéns.
Esta oração que aqui lhe deixo era a que minha
avozinha Lurdes dizia quando se perdiam
os objectos.
---
Oração para achar objetos perdidos

Eu vos saúdo, glorioso Santo Antônio,
fiel protetor dos que em vós esperam.
Já que recebestes de Deus o poder especial
de fazer achar os objetos perdidos,
socorrei-me neste momento,
a fim de que, mediante vosso auxílio, eu encontre o objeto que procuro...
Alcançai-me, sobretudo, uma fé viva,
uma esperança firme, uma caridade ardente
e uma docilidade sempre pronta aos desejos de Deus.
Que eu não me detenha apenas nas coisas deste mundo.
Saiba valorizá-las e utilizá-las como algo que nos foi emprestado
e lute sobretudo por aquelas coisas que ladrão nenhum pode nos arrebatar
e nem iremos perder jamais.

Assim seja.
---
E esta quando ela queria
alcançar uma graça

Eu te saúdo, pai e protetor Santo Antônio!
Intercede por mim junto a Nosso Senhor Jesus Cristo
a fim de que ele me conceda a graça que desejo (mencionar a graça).

Eu te peço, amado Santo Antônio,
pela firme confiança que tenho em Deus a quem serviste fielmente.
Eu te peço pelo amor do menino Jesus que carregastes em teu braço.
Eu te peço por todos os favores que Deus te concedeu neste mundo,
pelos inúmeros prodígios que Ele operou
e continua operando diariamente por tua intercessão.

Amém
---
Espero que a faça feliz.
Parabéns pelo Blog

Nicolau Demétrio


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