Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Balada da infância

 

                         Ai, mundo da infância,

                         como cabes neste mundo?

                        Ai promessas,

                          desejos que é bom não cumprir!

                        Aí anseios vagos de raros sabor...

Como a vida a cumprir-vos

                        Vos rouba o valor!...

 

                        …Eu lembro-me ainda!

                        E como esquecer o mundo das gavetas,

                            Proibido mexer!

                        As malas da Avozinha e das Tias,

                        Que só elas abriam …e em certos dias!...

 

                        Ai, encantos meus!

                        Retalhos de seus encantos…

                        Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de pranto!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

                        De vestidos e arrebiques

                        De bodas e baptizados!...

Ai, tremuras dessas mãos

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

 Onde dormiam as chaves ,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “Vês isto aqui minha filha?

 “Este caracol tão loirinho?

Era de teu tio-avô, meu irmão,

O que está neste retrato…

Morreu muito pequenino,..

Coitadinho!..

Coitadinho!...

 

                    (Dizia a avó bondosa

                    a  repor o medalhão,

                     entre as dobras de algum fato)

                      Grande mundo das caixinhas,

                     Sempre fechadas!...

 

                       Algumas que se abriam a meu pedido

                      Tinham missangas, continhas,

                       Flores secas e plumas,

                        Restos de sonhos vividos

                       Que tinham sempre uma história,

                       Que eu escutava toda ouvidos!

 

                        - “Isto aqui...  

 

              (Quantas saudade

                      Havia em se recordar!...)

              “ – É um pouco de cambraia

              “ Que sobrou das camisinhas

              “Do enxoval do teu Pai,

              “E foram feitas da saia

              “Do vestido que eu levei

               “Na primeira Comunhão!

               “ Recordo tanto esse dia!...

               “Quando voltamos para casa,

               “ Vinha eu entre os meus pais

               “ E a ambos dava a mão!

 

               -- E esta fita tão linda?

 

               -- Não lhe toques, deixa estar!

 

                   (E uma nova emoção assomava ao seu olhar!...)

 

             –“ Foi a última que usou

             “Antes de ir para noviça

              “A minha amiga de infância,

              “Minha prima, a Clarinha,

              “Que chegou a ser superiora

              “ No convento onde morreu

              “E do qual era padroeira

              “ A Virgem nossa Senhora!

 

            -- E isto aqui, o que tem?

 

            (Logo a avó com carinho,

            Desmanchava para eu ver

            Um embrulho feito em linho

            não fosse a traça comê-lo.)

 

            --“ É a trança do seu cabelo!...

            -- Vês querida, como era belo?!...

             …………………………………….

E enquanto febril extasiada,

Eu quedava-me a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E ás vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

            Foi essa mala tesoiro,

            Foram caixas e retalhos,

            Foram pontinhas de rendas,

            Foram retratos e prendas

            Dos noivos das minhas Tias,

            (De minhas Tias solteiras,)

            Foram leques, pedrarias,

            Restos de sonhos sonhados,

            Que a morte fez em bocados,

           Que geraram, bem o sei,

           Os primeiros sonhos que tive,

           Os mais lindos que sonhei.!...

            …………………………….

 

           Minha avozinha morreu…

           Não mais mexe em suas malas,

          Agora… mexo-lhes eu!...

 

@@

 

 

 

 

 

 

 Maria José Rijo

Livro -- ...

E vim cantar    

-- poemas -- 1955

                                                          

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publicado por Maria José Rijo às 01:40
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