Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Rezas e Benzeduras XI

Oração a Santa Iria

            A lavadeira lá de casa era a Rosa

              A Rosa lavadeira era tão conhecida como outras Rosas ou Marias.

              Havia também as Rosas cerzideiras- as forneiras, as aparadeiras..

              Era assim - juntava-se a profissão ao nome próprio e funcionava como apelido.

             Certo e sabido que duas vezes por semana contávamos com a visita da” nossa “Rosa.

             Sábado, vinha trazer a roupa lavada e na segunda-feira, levava o saco da roupa suja.

             Às vezes se lhe dava mais jeito a ela ou à dona da casa fazia as duas operações numa visita só.

             De qualquer modo a sua aparição causava sempre um certo reboliço na cozinha. Ou era a roupa que ainda não estava contada e lá começava a cerimónia de juntar os montinhos de peças idênticas para ser mais fácil apontar o role quase cantado como que imitando a Beatriz Costa: três corpetes, um avental,...etc. etc. etc._ ou, era o café que ainda não estava assente... e visitas de cozinha tinham direito inalienável a essa pitança...com pão condutado de queijo, azeitonas ou carnes do cozido

             Ou, era a escolha da jarra para as flores, para nós, colhidas na brandura da madrugada - que ainda guardavam dela o orvalhado  encanto - quando passavam das suas, para as nossas mãos...

             Ou, era a alvoraçada alegria com que anunciava a chegada ao mundo da beleza dos bezerros que a sua “estrela” sempre paria...

             Ou, qualquer coisa acontecida no mundo verde da sua pequena horta que, com o seu sorriso amigo, e o calor da sua simpatia teluricamente partilhava com a nossa amizade.e interesse.

             Naquele dia uma das garotas da casa não se sentia bem.

             Preocupada, porque as correrias e as andanças à soalheira tinham sido no passeio dado à sua própria horta no dia anterior, quis saber por todos os motivos e mais esse, do que se queixava a doente.

            O interesse era justificado até porque, desde sempre, criadas antigas e lavadeiras sabiam tanto ou mais das casa do que os próprios patrões.

             A menina queixa-se das guelas? Quis saber solícita.

             Nã senhora! Nem tem febres! - É só dores de cabeça - mais nada.

             Nã terá por lá comido fruta verde? (lá, era a sua horta) Insistiu! -

             Isto de rapaziada nunca fiando...

             Nã! Da barriga está bem. È” memo” só da cabeça...respondia complacente a velha empregada “Chame-a là, diga-le qu’estou aqui...ou, atão, dexe qu’ê vou vê-la.

             Assim aconteceu.

             Antecipando a acção com um: “ com sua alecença” – avançou casa a dentro até ao quarto.

             Então, abrindo a janela com o maior à vontade foi exclamando: atão qué isto hoje?! Nem se dá um passou bem à Rosa? Nem nada!

             A garota sorriu agradada.

                      A mulher sentou-se na beira da cama, foi falando, fez perguntas, escutou respostas e, a certo passo, esclareceu: já sei! - Ou foi quebranto, ou golpe de sol! Das duas: uma!

                      Nã se rale qu’ê já a livro disso!

                     “Feito o diagnóstico” a cura estava assegurada. Assim, voltou lesta à cozinha que nestes casos sempre funcionava como perfeito laboratório e, quase em seguida, regressou com as“alfaias” desejadas onde também entrava um copo de água e um lenço branco.

                      Desenfiou um terço que estava pendurado no florão da cama da menina fechou-o na própria mão e, pediu-lhe sem hesitações, como quem tem a certeza de ser obedecida:” Alevante-se “da cama e assente-se nesta cadeira aqui na” nha” frente.

                   Vai a ver que fica boa num “stantinho!”

                   Então, assumindo uma atitude de inspirada por estranhos e benignos poderes, em voz alta e segura, começou as suas rezas.

                    Primeiro o quebranto, disse:

                                    Deus é breve

                                    Breve é Deus

                                    Se tens lua ou quebranto

                                    Benza-te Deus

                                    E o Espírito Santo!

     Ofereço esta reza ao Santo da sua devoção – (qual é? inquiriu) para que Deus lhe tire a lua ou o quebranto

     Santa Terezinha respondeu a menina que se chamava Teresa                                  

                     Rezando de seguida um Pai-nosso e uma Avé Maria seguiu-se a cerimónia das gotinhas do azeite no pires com água

                     O azeite não se desfez. Quebranto, não era – estava feito o teste

                     Restava então a oração a Santa Iria destinada a anular os efeitos maléficos do “golpe de sol”

                     Colocando o lenço dobrado em quatro sobre a cabeça da garota e pondo sobre ele o copo contendo água fria iniciou a recitação de um pequeno e belo poeminha que dizia assim:             

                           Indo Santa Iria pelo mar fora

                           Cheia de sol e calmaria

                           Encontrou a Virgem Maria

                           Perguntou à Senhora como se curaria

                           Com um pano de medina

                           E um copo de água fria

                            Pai-nosso e Avé Maria

              Isto era rezado com o terço fechado na mão traçando cruzes sobre a cabeça da paciente.

             A água começou a borbulhar no copo como se estivesse ao lume a ferver.

             Prova provada de que era o sol que havia feito mal à menina.

             Assim exorcizado, o mal, obedientemente, desapareceu lá para os reinos das trevas onde não cabem as crenças de que, em nome de Deus, até os mais humildes fazem milagres quando são mansos de coração...

 

                                      Maria José Rijo     

@@@@@

                                      

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.441 – 20-Fev. -1998

@@@@

Este livro foi publicado em Novembro de 2000

Pode ser adquirido no Jornal Linhas de Elvas

             

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:11
| comentar | Favorito
partilhar
8 comentários:
De Olga Matoso a 31 de Outubro de 2007 às 22:23
Tenho andado a ler atentamente o seu blog.
Mês a mês. Dia a Dia e devo hoje dizer-lhe
que tem aqui uma belissima obra escrita.
Tem aqui textos magníficos cujo português, que
domina na perfeição revelam uma imensa cultura
e um conhecimento da vida, dos costumes e da
relação o homem/vida - excepcional.

Queria comentar-lhe que todos estes textos
deveriam, quanto a mim, terem sido publicados
num jornal de Lisboa ou Porto - onde teria mais
oportunidades de conseguir leitores ao seu
nível intelectual.

Muitos parabéns atrevo-me a dizer-lhe que se
eu fosse proprietaria de uma editora (que não
sou) não duvidaria em convida-la para uma
edição dos seus melhores artigos.

Tem aqui muitos e muito interessantes.
Os meus Parabéns.
Olga Matoso

(estas rezas e benzeduras são uma ternura.)


De Dolores a 31 de Outubro de 2007 às 22:32
Que maravilha.
Estou tão enternecida com estes seus relatos.
Gosto quando fala das suas vivências dos seus
conhecimentos da vida.
Parabéns.

Dolores
##
A minha amiga Jandira ensinou-me
que
Para se curar azia ou azedume do estômago, emprega-se muito, no referido estado
nordestino, a seguinte rezinha:

Santa Iria
Tem três filhas
Uma fia
Outra cose
E outra cura
O mal d'azia

####

Beizinhos
DO LO RES



De Luciana Baléu a 31 de Outubro de 2007 às 23:22
Cara amiga
O seu blog é mesmo muito bom.
Sou uma apaixonada por orações antigas,
populares e estas suas são fascinantes.
Eu tenho conhecimento desta oração
que vou aqui deixar com um abraço.
--
Para tirar o sol da cabeça

Dizer: Com a pessoa de costa para o sol se pondo
e com um copo com água na cabeça. Falar: Deus quando pelo mundo andou muito sol e calor
apanhou, encontrou Nossa Senhora que lhe
disse que o sol se tiraria com um guardanapo
de olhos e um copo de água fria da cabeça. Sim, como falo verdade, toma o sol a seu lugar, esta Senhora pelo mar abaixo com o copinho d’água
fria, o mal que ela tem no corpo e na cabeça,
tire-lhe Deus e a Virgem Maria. Jogar, o copo
com água com tudo para trás da pessoa.

---

Luciana Baléu


De Armando Franco a 1 de Novembro de 2007 às 01:08
Gosto imenso das suas
Rezas e Benzeduras.

Parabéns

A.Franco


De Dolores a 1 de Novembro de 2007 às 11:38
Hoje no dia de todos os santos
Passei para deixar um grande beijinho
a esta sra que escreve tão bem e que me
deixa tão feliz com os seus escritos.

Muitos beijinhos
Sua amiga virtual

Dolores


De Matilde Magalhães a 1 de Novembro de 2007 às 17:39
A Reza do Quebranto é feita por uma pessoa
que não aquela que padece. Pode ser um
familiar, um vizinho ou um amigo.

Pegam-se em dois pauzinhos de um "vassouro",
de mato velho e seco, e põem-se ao lume, um
de cada vez, até ficarem brasa. Depois pega-se
num desses pauzinhos e parte-se em pedaços
mais pequenos para dentro de uma malga
com água.

Ao colocá-los para dentro da malga
dizemos as seguintes palavras:

Se é Quebranto, eu te espanto
Se é olhado, vai para o telhado
Se é Quebranto, eu te espanto
Se é olhado, vai para o telhado

Depois, a pessoa que diz a reza molha os
dedos na água da malga e faz o sinal da
cruz na testa daquele que padece
do Quebranto.

Se os pedacinhos ficam à tona de água, é sinal
que a pessoa não tem o Quebranto. Ao invés,
se forem para o fundo, tal significa que sofre daquele mal.

A dúvida dissipa-se mais facilmente se
os pedacinhos ficarem cruzados no fundo
da malga. Repete-se este procedimento
umas três vezes para se obter uma
resposta clara.

Posto isso, faz-se novamente o sinal da
cruz nas costas da pessoa do paciente
com a malga e dizemos novamente:

Se é quebranto, eu te espanto
Se é olhado, vai para o telhado
Se é quebranto, eu te espanto
Se é olhado, vai para o telhado

Em seguida, o paciente pega na malga
e dirige-se a uma encruzilhada
(a um cruzamento ou entroncamento
de várias estradas). Depois, vira-se de
costas para o lado em que vai atirar a
água contida na malga. Posto isso, atira
o líquido por cima do seu ombro direito
e vai-se embora sem olhar para trás.

Caso alguém pise a água que ficou no
chão da encruzilhada, ela não contrairá
o Quebranto, pois esse foi levado
pelo vento para outras paragens.

---
Olá boa tarde
iniciei o meu comentário com a reza
do quebranto que minha tia-avó Cesaltina
nos rezava quando era criança.
É uma reza que acho muito interessante e
visto a Senhora ter editado um livro tão
jeitoso de Rezas e Benzeduras esta é mais
uma achega de mais uma.

Gostei imenso do seu blog.
É limpo, saudável, ternurento e aqui
principalmente encontramos um português
de gema, fiel aos ser Lusiada.

Os meus parabéns.
Com admiração

Matilde Magalhães



De andre a 15 de Janeiro de 2009 às 19:13
de : Andre dos santos .goxtei muito das suas orações .
eu gostava de arranjar uma encomendação para eu usar na carteira . mas também poxo dizer uma exta oração é quando se entra na igreja:

.Deus te salve casa santa
que por Deus foste ordenada,
onde existe o calix bento
e a hostia consagrada.


De maria fatima a 2 de Julho de 2010 às 15:20
Adorei a benzedura do golpe de sol tenho um livro que comprei para os meus netos 13 benzeduras para curar crianças mas faltam-me algumas, gostava de saber como posso adquirir o seu livro. Segue o meu contacto agradecia uma resposta.


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 53 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
21
22
23

24
27
28
29
30


.posts recentes

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@