Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Carta do Brasil – I – 1996

            Chegamos aqui num voou da TAP, que inesperadamente nos levou até ao Porto como primeira escala.

            Com essa variante arranjamos 10 horas de viagem quando poderiam ter sido apenas nove.

            Meia hora de Lisboa ao Porto e mais outra meia fechados no avião para retomarmos o nosso rumo aumentaram a chateza da viagem que, graças a Deus não teve percalços.

            A comida era péssima – que a TAP – está cá com uma descontracção!...

            Para matar o tempo – televisão – que nem olhei. Optei pela música, que escolhi ao meu agrado e me regalou.

            Dormir em viagem?! Nada. Não é comigo.

            Chegamos ao Rio cansados, pés inchados...

            Mas... tudo bem.

            Vista de cima a cidade do Rio de Janeiro perturba pela imensidade das suas dimensões. Parecem oito ou dez cidades das nossas todas juntas, mas, não se compara – para mim – com a beleza de Lisboa vista do alto.

            Eram sete horas e vinte locais, quando o avião aterrou. Onze e vinte aí na nossa terra.

            No aeroporto a Família em festa, aguardava-nos de máquina de filmar para registar o evento.

            Depois dos abraços e das formalidades os primeiros telefonemas para “casa” a dar conta da viagem.

            A primeira impressão que se colhe em terra é de largueza, de espaço e do verde vivo da vegetação exuberante.

            O ambiente humano é como o das cidades portuguesas e espanholas de fronteira. Isto é: -- muita gente nas ruas, afabilidade no trato, desconcentração e à-vontade de quem estivesse a gozar férias.

            Os nossos anfitriões estavam de carro. Olhei as bagagens com alguma preocupação. Não havia razão para tal. Era um V.Wagem “Quantum” que as engoliu sem custo e mais que fosse.

            Por aqui tudo se baptiza com bom humor. Assim o nosso transporte é o “belo António” para “injuriar” o dono que trata os carros com excesso de zelo. (Fofoca de amigos!)

      O nosso primeiro contacto com o “povão” foi no mercado de frutas. Sentíamo-nos como que a viver um capítulo de novela. Por todos os lados verdadeiras montanhas de mangas, carambolas, abacaxis, fruta do conde, mamões, papaias, uvas, melões, bananas...Sei lá que mais!

            E, todas mais baratas por kilo do que as cenouras que, aqui, são caras. 

            Logo que abastecidos, acomodamo-nos no carro e começamos a viagem rumo à região sul do Estado do Rio de Janeiro (antigo Estado da Guanabara). Lá fomos estrada fora entre as imensas filas de trânsito de camiões como é comum em todas as rodovias.

            Sempre presente a sensação de imensidão de espaço. Quando se começa a subir para a montanha é que tudo muda.

            Começam a surgir por todos os cantos “botecos”.

            Parámos num deles “Belvedere” para tomar água de coco e comer pastéis fritos de banana e queijo.

            Reabasteceu-se o carro no posto de gasolina anexo e reparei que também têm bomba de álcool.

            Há por aqui muita viatura que usa esse combustível que dizem ser menos poluente.

            Tínhamos o propósito de almoçar em Resende – que é a cidade mais perto do nosso destino.

            A cidade é pequena. Lembrou-me “Ayamonte”.

            No centro – o calçadão – onde as esplanadas se sucedem. Deixam apenas uma faixa de rodagem para os carros. As outras duas estão transformadas em avenida. Tem imensas lojas de atacado. Percebe-se perfeitamente que por aqui se fornecem os fazendeiros da região. Tem também outro tipo de comércio. Aliás as lojas pegam umas nas outras, mas, sem grandeza. Tudo muito provinciano.

            Outro indício da pequenez do meio é que toda a gente se conhece.

            Escolhemos para almoçar “Casa Blanca”.

              Lá estavam no tecto as grandes ventoinhas do célebre filme.

            Fabulosa a comida tipo caseiro.

            Saladas variadissimas e iguarias típicas. Desde o feijão com arroz e farofa – obrigatórios – aos ovos de codorniz, passando por toda a espécie de grelhados – há de tudo, todos os dias. Só não serve jantares e o café ou chá no fim das refeições – á escolha – está incluído no preço da refeição que custa entre 4 a 6 reais – vinhos, à parte.

            Tivemos sorte com o tempo. Sempre soalheiro. O Outono aqui é a melhor estação. No Verão chove imenso.

            Excluindo as estradas principais – os caminhos são péssimos.

            A subida de Resende para a montanha faz-se por um verdadeiro trilho de cabras. Só covas e pedras. Parece um leito de um rio seco. Mas é o que há e quer os carros particulares quer o autocarro da carreira passam todos pelos mesmos percalços.

            Compensa-nos a paisagem. Vegetação intensa e variada. Já anotei os nomes de imensas árvores.

            Em flor, agora, estão três.

            A Quaresmeira de floração roxa. Angico de floração amarela e a Spatódea florindo em vermelho vibrante.

          Ainda se avista um ou outro Ipê roxo em flor. Dizem que é a árvore mais bonita do Brasil (quando referem o amarelo!)

            A julgar pelo roxo acredito que sim. Tal como as olaias aí na nossa terra dá flor antes que lhe nasçam as folhas. Só que floresce em cachos redondos como hortênsias que ficam pendurados nos ramos como balões. É realmente muito bonita!

            A roça – ou sítio – onde estamos, parece um jardim colocado na base da montanha a que se encosta.

            Estamos a 900 metros de altitude. Do outro lado da “picada” frente à “nossa” entrada, é o portão duma Pousada de montanha. Aliás, há-as às dúzias serra acima. Toda a encosta da montanha está coberta de floresta virgem.

Os macacos, em bandos, ao amanhecer e à tardinha vêm numa algazarra doida saquear os bananais nos locais mais isolados. Ninguém lhes dá comida porque por vezes se tornam violentos. Porém ao resto da bicharada toda a gente oferece protecção colocando comedores em sítios certos.

          O meu encanto é um esquilo que todas as manhãs desce pelo pé de mamoeiro junto à janela e vem comer à mão nozes e amendoins.

Hoje, no fim da refeição roubou uma banana aos passarinhos e foi come-la à nossa frente numa rocha coberta de antúrios vermelhos em flor.

No alpendre da casa, suspensos, estão frascos com água bem açucarada para os colibris. Porém, como até no paraíso tem que haver complicações há um – a que chamamos – “a bruxa” – que pousa constantemente na “Samambaiçu” ou na “Quaresmeira” frente a nós e vem atacar todos os colibris pequenos que ousem beber das garrafas que ela considera suas. Ontem à hora do almoço dois “tucanos” calmamente catavam comendo as tâmaras dum palmito.

Chego a pensar que é irreal a beleza que nos cerca.

Qualquer dia digo os nomes dos pássaros e das árvores que alegram aqui a nossa vida. Os nomes dos rios que já atravessamos e das cachoeiras onde já tomamos banho e mais um rol de coisas que nos dão a visão deste mundo diferente.

Até a figura do caseiro – “O Baiano” – é digna dum postal ilustrado. Parece criado a propósito para turista ver.

Qualquer dia escrevo outra vez para o jornal. É a maneira mais fácil para mim de dar notícias aos amigos todos de uma só vez.

 

                                               Maria José Rijo

 

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.353 – 31 / Maio 1996

Conversas Soltas

 

 

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 17:46
| comentar | Favorito
partilhar
4 comentários:
De maria José Rijo a 1 de Novembro de 2007 às 21:18
Eu sei que estou em falta com os meus queridos "comentadores"... o que não significa de forma alguma ingratidão.Logo que me seja possível, contarei com muito gosto como conheci a Matilde, a Maria Isabel e outras coisas que me perguntam; bem como porque não publico livros etc. etc...
Por agora, deixo para todos um ternurento beijo pelo estímulo que o vosso apreço me tem dado para continuar...
Afectuosamente Maria José


De Dolores a 1 de Novembro de 2007 às 23:41
LINDO texto.
Até parece que ao longo da leitura
também nós fomos vendo o mesmo
que a senhora.
O Brasil deve de ser realmente uma
beleza, através da sua descrição foi fácil
seguir os seus passos.
Esta é a primeira de quantas cartas?
Já estou tão curiosa que nem imagina
o quanto, mas amanhã temos nova reza
e benzedura, o quer muito me agrada.

Muitos beizinhos

DO LO RES


De Gustavo Frederich a 1 de Novembro de 2007 às 23:50
Belissimo texto.
Expressivo, espontâneo e cheio de belos ohares.
Realmente o Brasil é um porto de saudades,
umas terras imensas, a perder dos olhos onde a
natureza parece ainda a do inicio do mundo.
Também conheço o Brasil - não esta parte que menciona mas o Rio - é uma paixão.
Gosto imenso de cartas.
Cartas à antiga portuguesa, daquelas de sempre
das que se escreviam a qualquer hora
para contar os assuntos da vida.
Gosto destas actualizações da net mas deviam-se
incentivar os jovens a escrever cartas - a mostrar
que é um prazer belo - embora tenha caido
em desgraça.

Bem haja por este belo texto.
Obrigada também pela viagem... pelo Brasil...
através dos seus olhos e sensibilidade.

Com amizade

Gustavo F.


De Claudia Salvador a 2 de Novembro de 2007 às 17:04
Belissimo texto.
Infelizmente não conheço o Brasil mas pelo
que escreve aqui sempre - através dos seus
olhos - sempre se tem uma visão do que
é o Brasil.

Gosto imenso da forma em que descreve
o que os seus olhos vêm e a forma como
nos faz ver o mesmo que viu.

Parabéns.
Esta carta está perfeita.

Claudia Salvador


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

. Cá Estou ... - 2

. CORAL PÚBLIA HORTÊNSIA DE...

. CRIANÇA - 1990

. Parabéns

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@