Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Rezas e benzeduras XII

Entro na sala de espera do Hospital da Vila e, depois de cumprimentar, sento-me entre gentes da terra e enovelo-me no meu abafo semicerrando os olhos, como se dormitasse, para que pudesse recomeçar o falatório, que, pressinto, cessara com a minha aparição.

                              ( desenhos de Manuel Jesus)

Ainda não aquecera lugar, quando um velhote, no outro canto, comentou, julgando falar baixo:

- A que fede?

- A água de chêro --  respondeu-lhe a mulher.

- Empesturices! - Resmungou ele.

- Cala-te qu’a criatura ouve; julgas qu’é tudo mouco com’a ti?

-- Tá bem, dêxa! - Tornou ele a rezingar, voltando-se de costas para a companheira, em jeito de amúo.

 (O mulherio presente ria à sucapa com gozo matreiro, olhando-me) Nem pestanejei com receio de denunciar o meu deleite pela cena, e assim, a breve trecho, a conversa retomou o fio.)

-......atão foi memo na tu rua e tu nã deste por nada?

-Nã di! - Nã di! - Nã bradaram por nenguém, nem ouvi falas, ó chôros de rijo...

-Ê cá ouvi os dobres, mas pensi que fosse a asilada que está p’ra acabar desde transantontem

.           Transantontem? --Ò tempo que o doutor a despediu!

           - Mandem apregoar a pobre! Queres veri qu’ a mulher comeu carne de grou sem saberi?

           -Xi! S`é parva!

           - Parva a quêi? - Tem havido casos... é só o pregoêro, ir à meia-noite, bradar a três esquinas:

            “Senhor fulano de tal

            Deus o quera perdoari

           Quer passari e nã passou

            Porque comeu carne de grou!”

e a criatura assocega logo!    

          --  Então a que já comentara: xi s’é parva! - Disse risonha:

          -- Olha, como o pregoêro já morreu, apregoa-a tu, já que nem pranteaste a tu vizinha Parreirinha.

         --Vái mangar pr’a uma parte qu ‘ê cá sei - respondeu a interpelada, que acrescentou :

           - Estas, em pondem as moças no “circulo”, até parece que tamém têm letras - sabem de tudo !

          - Nã di por isso ! - Nã di, atão!

            Nã se vá sem resposta, - atalhou outra, - que quando morreu o mê tio, agente morava nos baxos e a nha tia, pr’a nã acordar nenguém, andou descalça a vesti-lo e amortalhá-lo e só de manhã é que deu a saberi à genti.

            O quêi?... - Interferiu a que galhofara do pregão - atão morre-le o homem e ela fica-se só com o defunto sem abrir olho nem buraco ?

            Atão! É mulher de corage!

            Corage? - Pergunta-le lá, se ela já tinha algum “amigo” escondido debaxo da cama, e nã queria qu’ o vissem fugiri!

           Cada um, éi, como éi! Replica a “sobrinha” agastada, mas, logo o velho a tossir, sacudido de riso, diz bem alto:

           - Raio de mulheri qu’é mesmo desbocada!

            E, depois já mais calmo e ainda risonho acrescentou:

           - Essa mulheri, essa tal Parreirinha – tive cá pensando – era da minha edade

            Tinha os seus oitenta e quatro – ainda balhi com ela quando eramos moços

            -Alarvêrão! - Já nem ata as botas, mas dos balhos alembra-se...

            (Não resisti. Ri, como toda a gente, tanto mais que o velho com os seus olhinhos escuros brilhando de malícia levantou a mão simulando ameaça e disse jovial:

            -Queres uma orelhada? Queris?

             -Alarverão! - Repetiu a mulher confusa sorrindo e corando com um pudor antigo de rapariga.

             -Ela morreu soltêra? - Insistiu curiosa a folgazona.

             -Pois! - Assentiu o velho que explicou: - Nunca di que namorasse.

            - Mas ela nã teve fora lá pr’o Barrero, ó pr’o Lavradio, a coidar duma madrinha que lhe dexou as casas!

             -Teve, teve! Concordaram todos

             -Atão pode ser que tenha namorado por lá! - –Confortou-se esperançada a brincalhona  muito séria desta vez.

              Depois, levantou-se, foi abanar a amiga que persistia calada no seu ar ofendido; e disse-lhe com bondade:

             -Desenchofra-te mulheri! Qu’ê fali de reinação! - E sem mais palavras foi encostar-se à janela que abriu de par em par e ficou a olhar para fora, pensativamente.

             O ar dos campos inundou o ambiente.

             Então o velho respirando fundo, disse com prazer:

             Chêra bem! Chêra a terra acabada de lavrari!...  

                                                              

 

                                            Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.443 – 6-Março-1998

@@@

Este livro foi publicado em Novembro de 2000

Para conseguir adquirir um exemplar tem de

contactar o Jornal linhas de Elvas

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 17:23
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12 comentários:
De Dolores Maria a 2 de Novembro de 2007 às 18:27
Olá
Mas que engraçado, que engraçado...
Até me doi a barriga de rir - além do mais
eu a tentar falar o alentejano - ainda me
fazia mais rir.
O meu marido já leu pelo telefone a dois amigos
e é uma festa, mas ele ainda vai sabendo dar-lhe
o canto - mas eu - faz favor de ver...

Gostei IMENSo - estou divertidissima e hoje
tenho um jantar com o nosso grupo de amigos,
o meu marido acabou de tirar varias cópias
para cada um deles e diz que ele é que os vai
ensinar a falar alentejano.
nem imagina a festa que vai ser.

Ainda bem que vim mais cedo ver se já tinha texto novo.

Mas que alegris.
Parabéns amiga escritora pela feliz ideia
de ter contado esta conversa.
ADOREI

Sua admiradora eterna....

DO LO RES


De Malaquias Beirão de Sousa a 2 de Novembro de 2007 às 21:08
Minha Senhora
mas que maravilha de texto.
Estou cansado de me rir e tentar ler
o alentejano. Falta-me a pornuncia
mas ri a bom rir.
Muitissimos Parabéns.
A CAda dia gosto mais do seu blog.
É um prazer poder ler os seus belos textos

Com amizade

Malaquias Sousa


De Gustavo Frederich a 2 de Novembro de 2007 às 21:19
Perfeito!
Encantador e natural.
Quando penso nos velhotes alentejanos a
conversar só poderia ser assim - este tipo
de dialogos.
A sra é estupenda consegue escrever a realidade
da vida, das gentes, usos e costumes.
Diverti-me imenso a ler este seu texto, este caris cómico também faz parte da vida, da sua
sensibilidade .

Realmente o seu blog é todo ele uma delicia.
Felicidades

Gustavo frederich



De Sebastião Vidal a 2 de Novembro de 2007 às 22:21
Boa noite.
Cara senhora este seu blog é uma delicia.
Hoje muito eu ri com este diálogo tão
alentejano.
Está muito bem escrito porque nós através dos
seus olhos conseguimos estar presentes e olhar
a cena de perto.
É fantastica.

Com muita admiração

Sebastião Vidal


De Marcos de Passos a 2 de Novembro de 2007 às 22:24
Magnifico!
Excerto exacto do que se passava anos atras
neste nosso alentejo.
Muito bem, gostei imenso de ler o seu blog.
Tem aqui um comjunto incrivel de rezas e
benzeduras - só uma pessoa com muita
sensibilidade consegue o que a senhora é capaz
de aqui transmitir, atraves dete belo blog.

Com admiração

Marcos Passos


De Dolores a 3 de Novembro de 2007 às 00:59
Boa noite
O jantar acabou mais tarde do que tinha
previsto que terminasse.
Mas foi muito divertido. Todos adoraram o
seu texto e repetiram vezes sem conta a leitura.
Todos querendo ser aquele que melhor falassem
o alentejano, impossivel- ninguém conseguiu
obviamente.
Mas foi muito bom porque acho que consegui mais
leitores e promessas de comentarem o seu blog.
Vamos lá ver!

Gostamos todos imenso.
Beijinhos e agora vou dormir tou
cheia de soninho.
Sua amiga
Dolores


De Joaquim Gregório a 3 de Novembro de 2007 às 01:02
Muitos Parabéns.
Conseguiu fazer-me rir depois de um dia tão
saturado de problemas e chatices variadas.
Gosto da sua forma de expressão, da forma
como nos leva ao amago da historia do
que nos quer transmitir.

Parabéns
Gregório


De Julieta Malaquias a 3 de Novembro de 2007 às 19:15
Minha Senhora
tomei conhecimento deste seu blog ontem, num
jantar com a minha amiga Dolores e como
prometi vir ler - aqui estou eu - e devo dizer que este
seu texto é uma maravilha. A Senhora é uma
belissima escritora.
Agora vai-me ter por aqui mais vezes para ler
estes optimos artigos.

Os meus cumprimentos
Juju


De Ernesto da Costa a 3 de Novembro de 2007 às 20:44
Daqui de Braga - vai um abraço e um beijinho
de Parabéns.
Este seu texto é uma delicia e uma deliciosa
realidade alentejana.
Foi a Dolores que me mandou cá vir escrever
no seu blog.
Um abraço

Ernesto da Costa


De Barbara Fróis a 3 de Novembro de 2007 às 20:56
A amiga da minha amiga Dolores
escreve muitissimo bem.
Ontem no nosso jantar o Avelino levou
uma folhinha para todos e era este belissimo
texto.
Foi muito bem e agora conhecer o seu blog
é mesmo uma alegria. Imensos textos fantas-
ticos que abraçam tantos assuntos interessantes
e tão bem redigidos.
Os meus parabéns e voltarei.

barbara Fróis


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