Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Rezas e Benzeduras XIV

A Loja do senhor Camacho

                                (( Desenhos de Manuel Jesus))

           A loja fazia esquina com a estrada nova (assim era designada a estrada nacional) e uma ruela mal calcetada como, alias, eram todas as ruas das aldeias do Baixo Alentejo há 50 anos.

        Havia na aldeia uma certa profusão de “vendas”, mas, loja, loja, digna desse nome só mesmo aquela o que conferia ao seu proprietário e família um estatuto de pessoas importantes.

        Não que tivesse montra ou qualquer sinal de beleza; apenas uma tabuleta esmaltada com o símbolo dos C.T.T, assinalava funções diferentes. Nas ”vendas” para além de algumas bugigangas o que mais se procurava era vinho, enquanto que na loja havia meadas de linhas para dobar e fazer meias, riscados, cotins, serrubecas, pano cru, chitas, flanelas, estamenha, xailes, lenços, – que, crepe da China e popelines, só por encomenda. Como sinal de civilização vendia jornais, – o Século, e o Notícias mas, apenas dois ou três exemplares (que ler era um luxo) e selos de correio, mas também, feijão, grão, e muitas outras coisas mais... cordas, ratoeiras, armadilhas para pássaros, chocalhos para o gado, etc. etc. etc...

        Até na forma de vestir o senhor Camacho era diferente.

        Jamais alguém se poderia gabar de o ver por detrás do balcão da sua loja sem estar de casaco, colete, gravata e camisa de colarinho engomado.

        Às vezes usava guarda - pó, mas, mesmo esse “bibe” de riscado cinzento listadinho de preto lhe conferia um ar de dignidade que ia a matar com o seu rosto sério, o seu bigode muito bem aparado e a sua barba muito escanhoada. O senhor Camacho era um dos grandes da aldeia; como era o ferrador (investido também na dignidade de regedor) e o dono da moagem. A estes distinguia-os o facto de não serem analfabetos porque os outros homens importantes eram os lavradores e, a esses, como aos fidalgos no exército, nada mais lhe era requerido. Do que ser rico ou ser fidalgo.      

Nos dias de receber a jorna ou, quando acabavam as “adiafas” o movimento da loja crescia de forma inopinada, não tinha nada que ver com a ronceirice do dia a dia. Então, a dona Aninhas, sua recatada esposa, abria a porta de ligação entre a casa e a loja dirigia um cumprimento a todos em geral, instalava-se à secretária, pegava no livro dos assentos e ia dando baixa nas listas do: - ” aponte aí, tenha lá paciência, qu’ê cá levo fiado mas, pago assim quê possa!”que enchiam o livro comprido e estreito, de capa preta, que guardava o registo da penúria daquela pobre gente que, tal como as searas, dependiam do tempo a favor para crescer, também dependiam do tempo para trabalhar e ter que comer.

            Dona Aninhas era mouca, e tal como o marido, sem ser velha, também não se diria que fosse jovem, tinha um tom de voz velado, um arzinho nostálgico de funda tristeza (sofria de enxaquecas, males, que o povo não entendia, nem podia entender, já que tinha boa mesa o ano inteiro e criada ao seu serviço que, aliás viera junto com o bragal de casa de seus pais); assim que todas as conversas com ela começavam invariavelmente pela delicada informação das melhoras da senhora que curvando-se um pouco para o interessado amavelmente lhe estendia a corneta acústica para receber a resposta. As comunicações não passavam mesmo disso, já que com aquela minúscula

Campânula de gramofone de permeio o constrangimento entre credor e devedor sofria mais esse atrito.

            Dona Aninhas dizia: - uma quarta de toucinho, dois côvados de cotim, uma onça de linha roxa, tantos arrateis de açúcar...etc. etc. etc...

            A freguesa conferia as parcelas enumeradas pelo monte de papelinhos que trazia fechados na mão, então, molhado o aparo no tinteiro de tinta vermelha, com uma cruz por cima do apontamento se amortalhava o débito.

            Algumas vezes, porém, o rame, rame, desta contabilidade era cortado; bastava começarem-se a ouvir ao longe as guiseiras do macho da carrinha do correio. Então como formigas num formigueiro esventrado, atabalhoadamente, quase em atropelo a loja enchia-se de gente espectante de curiosidade.

            Aberta a mala da correspondência começava a distribuição.

        Numa voz clara o senhor Camacho lia os nomes. Mãos ávidas recebiam cartas e

 postais. E, afastavam-se quase tão rapidamente como tinham surgido. Discretamente, pelos cantos, iam apenas ficando aqueles que não sabendo ler e não tendo em casa quem lho fizesse dependiam de dona Aninhas ou do senhor Camacho para a decifração das mensagens.

            Para Mariquinhas, a filha do casal, era essa a hora mágica do deslumbramento! - e  quando seu pai começava aquelas leituras, apertava ainda mais ao peito a sua boneca francesa com cara de porcelana, e ficava imóvel como que petrificada com os olhitos estrábicos emoldurados pelos enormes óculos  redondos fixando a cena sem pestanejar ... 

                                       “ Mana Zefa

             A tal mulheri que tinha o livro de S. Supriano já nã mora no monte do olivali.

             Contou-me a nora dela, a Ludres, você alembra-se? era aquela qu’era falada com o managero; qu’o patrão assim que esconfiou qu’ela fazia aquelas bruxices e détava as cartas e esputava alfinetes nos sapos p’ra fazer mal ás criaturas, pos‘i-a no olho da rua.                                                                              

              A modos que se voceia queri chegari ás falas com ela, peça à Marianita do correio qu’a traga na carrinha qu’ela agora ‘stá morando p’rós lados da Mina na casa do neto aquele que le chamam o Chico Torto.

              Se voceia quer tirar as provas já sabe. Mas ouvi dezer que comeri um ovo de cigonha frito bubido com vinho forvido com funcho faz desenmaginar da bubida e p´ra mais reze-le a reza que le mando por mor de le sair o diabo do corpo e do esprito-cruzes ,cruzes, cruzes !... De resto faça-le a cruz de sali pro baxo do cólchão e vai a ver qu ‘ele s’emenda, dexa as buboderas e dexa de le dar porrada. A gente est’ano tem uma bela lera de pupinos e uma grande novidade de molões.

          Se voceia vieri leva p’ra si e p’rós mocinhos.

          Atão já sabi. O pessoal daqui manda-le visitas         

          Sua ermã

                         Donzelica

           

            Atão a reza é assim : Oração para afastar o diabo - Olhe, foi a Custoidinha do Posto da ‘scola qu’a tirou p’ra ela do livro de S. Supriano e agora deu-ma a mim p’ra ê l’a dari a si .É boa criatura sempre dá uma mão òs pobres”

                                               Eu me entrego a Jesus

                                              e à Santíssima Cruz,

                                               ao Santíssimo Sacramento,

 

ás três relíquias que tem dentro,

ás três missas de Natal,

                                               que me não aconteça nenhum mal.

                                               Maria Santíssima seja sempre

 

                                               comigo, o anjo da minha guarda

                                               me guarde e me livre

                                               das astucias de Satanás.

                                              

                                               Pai Nosso

                                               Ave Maria

 

                                          

 

                                                                       Maria José Rijo                  

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.446 – 27-Março-1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser

adquirido no Jornal Linhas de Elvas

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:41
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5 comentários:
De Dolores Maria a 7 de Novembro de 2007 às 23:35
Posso...
Posso comentar esta maravilha de texto?
( e as fotografias, os desenhos , cadê elas???)
... voltarei para as ver... mais tarde...

MAs este texto está demais. Além de perfeito,
especialissimo - esta carta é uma maravilha.
O meu marido esta ali a ler e a reler - como
da outra vez já telefonou aos amigos - não é
por nada mas eles bem querem falar como
os Alentejanos - mas não são capazes e eu
estou farta de rir.

Parabéns minha amiga
Mais uma maravilha
DO LO RES


De Dolores a 8 de Novembro de 2007 às 00:23
Agora sim, já está completo e belo.
Beizinhos.

DO LO RES



De Avelino a 8 de Novembro de 2007 às 00:26
Muito boa noite.
Estou encantado com os seus textos.
... eu é que não sou muito bom leitor
para ler em "alentejano".
Mas gostei imenso e gosto do que escreve.

Parabéns e boa noite

Avelino


De Gustavo Frederich a 8 de Novembro de 2007 às 20:52
Muito interessante.
Estas suas Rezas e Benzeduras são a minha
paixão, alias este seu blog - é a minha paixão.
é como um imenso templo de cultura onde eu
me venho iluminar.

Ainda bem que o encontrei nestes caminhos da
net.
Estou-lhe grato por cada texto, cada linha que
que este blog contem.

Os meus Parabéns
agora e sempre o meu muito obrigado por
escrever assim - tão maravilhosamente.

Gustavo Frederich


De Manuela Fradique a 8 de Novembro de 2007 às 21:11
Olá boa noite
Tenho andado a ler - com imensa curiosidade
este seu blog.
É um belissimo blog, onde a sua cultura, a sua
sensibilidade e a paz que me trouxe ler os seus
artigos são dignos de serem louvados.
Acho sinceramente que estes artigos mereciam
estar a ser editados por um jornal de Lisboa ou
Porto, para que muitissima mais gente possa
ler e aperceber-se da sua linda sensibilidade.

Tinha esta oração que pertencia a minha tia
Paquita ( que ela rezava todos os dias) e como a acho tão bonita resolvi
escreve-la para si. Talvez já a conheça - suponho
que muita gente a conheça.


Salmo de David
De Profundis: Salmo CXXIX

Das profundezas clamo a ti Senhor: escuta o meu apelo.
Senhor, tornem atentos teus ouvidos à voz da minha súplica!
Se lembrares, Senhor, nossos pecados, quem suportará? mas junto de ti encontra-se o perdão, para que te sirvamos.
Espero em ti, Senhor, e minha alma tua palavra espera.
Mais confiante que os vigias pela aurora, ela espera o Senhor.
Que Israel, mais que os vigias pela aurora, pelo Senhor espere!
Pois junto do Senhor se encontra a graça, copiosa redenção.
E ele próprio Israel resgatará de todos os pecados.

Almas benditas! nós temos rogado por vós que sois tão amadas de Deus e estais seguras de que não poderão mais perde-Lo: rogai por nós miseráveis que estamos em perigo de nos condenarmos para sempre.

Doce Jesus, dai o descanso eterno as benditas almas do Purgatório!

--

Com amizade

Manuela Fradique


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