Sábado, 10 de Novembro de 2007

Rezas e Benzeduras XV

“Uma boa achega”

 

            Uma ilustre elvense destas que a profissão ou a vida situou lá longe – e vivem não sei como! Pois que têm o coração por aqui. - Enviou-me uma preciosa achega para esta série de ”rezas e benzeduras”.

            Trata-se, como também, com Maria Isabel de Mendonça Soares, de outra ilustre escritora, refiro-me a: Maria do Céu Cavalheiro Ponce Dentinho.

            Logicamente que nunca me atreveria a trocar uma vírgula sequer da bela história que me foi oferecida -. a mim e aos meus leitores - aliás, cada oração que na infância se decorou traz com ela ao ser recordada todo o peso das circunstâncias que com ela se viveram e às vezes até a voz de quem connosco ou  para nós a rezou .

            Céu Dentinho, lembra assim:

            “Havia na casa uma tradição, só de mulheres, a realizar uma vez por ano mas com pompa e circunstância...

 

.           No dia 25 de Março, da Anunciação, era costume de as senhoras da Família se reunirem em casa da mais velha, ao tempo dos meus poucos anos era a avó Maria do Carmo, para cumprir uma devoção. No seu lindo quarto de vestir estava o oratório, cheio de imagens, fitas, dourados e velas e em frente nos ajoelhávamos. A luz vinha de um pátio com clarabóia. Era uma oração que era uma poesia, em que a gente se persignava cem vezes e rezava cem Avé-Marias, alternadamente e a cada uma se levantava e ajoelhava, portanto cem vezes...

Como  se fossem dois terços. E em cada mistério vinha a oração que era assim:   

                             (( desenhos de Manuel Jesus))                                                

Ergue-te, alma minha,

com Deus e a Virgem Maria,

Lembra-te que morrerás,

Não morrerás mas viverás.

      

No vale de Josafá

O inimigo encontrarás,

Da parte de Deus lhe dirás

Arreda de mim Satanás

Que em mim parte não terás...

 

Porque no mundo aonde andei

Cem vezes me ajoelhei

Cem vezes me persignei

Cem vezes disse Amen.

No dia em que a Virgem

Encarnou o Verbo Divino, Amen.

 

            A Avó dirigia. Começava – todas respondíamos. E era também a Avó que ralhava – porque havia sempre quem tivesse vontade de rir ou se enganasse no ritual – novos risos. Depois, havia interrupções – felizmente! De uma vez veio alguém avisar que os bolos estavam fintos, de outra passou uma procissão e lá fomos todos para a janela. E havia sempre chá e enchovalhada para completar a tarde.

 

            Assim rezávamos aquela poesia que era uma oração, as 100 Avé-Marias tradicionais. Essa, a tradição, é que já não tinha anos para serem contados. Parou quando a Avó partiu para o outro lado da vida. Mais uma conta do rosário dos perdidos.”

           

            Enquanto alguém recorda as coisas que estando longe no tempo se conservam na lembrança continuamos a poder dizer que permanecem vivas nos nossos corações... 

 

 

 

                                             Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas                                                                                                                   

Nº 2.448 – 10-Abril – 1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras poderá ser adquirido

na redacão do Jornal Linhas de Elvas

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 19:59
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4 comentários:
De Ana Maria Lourenço a 10 de Novembro de 2007 às 22:09
Bonito texto.
Mais um de tantos textos que tem aqui neste blog.
Os meus Parabéns por mais esta bela reza e
benzedura.

Ana Maria


De Gustavo Frederich a 10 de Novembro de 2007 às 22:22
Mais um pedacinho deste seu belo livro.
É um belo livro devo dizer-lhe.
Cada um destes textos são pedaços das suas
bonitas lembranças, agora publicadas.
São todos cheios de uma beleza ancestral, contados
em textos maravilhosos - como estes.

O seu blog é ponto de honra.
Voltarei

Gustavo F.


De Dolores a 11 de Novembro de 2007 às 10:36
Olá bom dia
Cá estou eu para ler este seu lindo Blog.
Gostei mas acho as outras histórias anteriores
tão mais interessante do que esta.
Mas está bem sim.
Ontem tive um jantar do meu grupo de dança
de salão e já vim muitissimo tarde, mas hoje estou aqui para ver o meu blog preferido.
Até logo

Beizinhos
DOLORES


De Gislaine a 16 de Agosto de 2012 às 03:05
Eu e minha família rezamos até hoje.


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