Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

Rezas e Benzeduras – XVI

“A Relíquia”

 (( Desenhos de Manuel Jesus))

              Os pequenos da família tinham crescido sem que contabilizássemos o tempo

              Cada ano, nas datas próprias, faziam-se as festas de aniversários, compravam-se as prendas, juntavam-se tios e primos, apareciam, sem convite, os amigos íntimos, esperávamos o Avô que chegava, como que por acaso e, como sempre, presidia à reunião, calado, mas via-se muito bem que – feliz.

              Saudosas suspirávamos: parece mentira!

              Já 18...

              Já 19...

              Já 20...

Parece que foi ontem...e continuávamos a falar dos garotos, dos pequenos...

             Um belo dia, porém, acordamos para a realidade.

              Os seus nomes começaram a constar dos editais dos mancebos que deviam ir à inspecção.

              Os” garotos “iam à tropa.

              Iam viver essa experiência.

A seguir à comoção, à estranheza... o quê?!! Os garotos!... Àquele calor estranho que conforta e assusta simultaneamente, enchendo corpo e alma quando se repara, se olha e vê, que os garotos fazem a barba, mudaram de voz, fazem noitadas... a seguir, logo a seguir, veio aquela dor aguda como uma punhalada.

               E, se os garotos, vão para o Ultramar?..

               E....

               E....

Afinal, a guerra lá de longe batia-nos à porta

               E bateu.

               E entrou

               E comeu connosco à mesa.

               Dormiu connosco, nas nossas camas, como uma chaga viva nos nossos corações. Levou-nos a alegria. Deixou-nos o medo do que poderia acontecer e a esperança de que nada acontecesse.

               Fizeram-se recomendações atrás de recomendações.

               Fingiram-se orgulhos, valentias.

               Exacerbaram-se patriotismos, inventou-se coragem para dar e para viver , num fazer e desfazer de quem anda à roda, em círculos, convencido de que está a avançar no caminho.

               Então, cada qual, descobriu que isto e mais aquilo, poderia servir de talismã.

               Quando em grupo, com uma falsa serenidade, dizíamos depreciativamente – crendices, superstições...

               Depois à sucapa, cada qual com um certo ar displicente, passava de mão a mão a sua lembrancinha.

                Trago esta medalha ao pescoço desde o dia do meu baptizado. Deu-ma minha Madrinha. Leva-a! Vai-te dar sorte.

               Guarda contigo este livrito. É a ”Imitação de Cristo” Tenho-o sempre cabeceira. Verás que nele encontras resposta para todas as tuas dúvidas.

                Os dias passaram.

                A data do embarque aproximava-se...

                Então, naquele dia, o Avô que a tudo assistira em silêncio com os olhos a brilhar, usando uma brusquidão que não enganava ninguém, mas que lhe parecia disfarçar a sua vontade de chorar disse:

                Toma! - Leva contigo.

                Era um saquinho de brocado vermelho, puído, quase roto, cosido e recosido à mão com pontos miudinhos, esmerados. Fechado como uma almofadinha. Com cinco centímetros no máximo de dimensão.

                O que é isto? - Foi a pergunta.

                Tem dentro os Credos escritos em cruz, uma relíquia do Santo Lenho e uns fios do manto de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Costurou-o tua Avó, que Deus tem, e coseu-mo no forro da farda quando fui para a França na guerra de 14.

                Agora é para ti!

                Como uma criança apanhada em falta o Avô tinha o rosto vermelho e um ar confuso.

                Mas eu nunca vi isso! - Exclamou a filha absolutamente surpreendida.

                Mudei-o sempre de bolso para bolso, até do pijama, confessou.

                Todos guardamos segredos acrescentou. Não há ninguém sem mistérios!

                Devolvo-lho quando voltar disse o rapaz abraçando-o.

                Cá te espero – respondeu o Avô, afastando-se apressado.

     

                E, assim se despediram...

 

                                                              Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.450 – 24-Abril-1998

@@@@@

Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser adquirido

no Jornal Linhas de Elvas

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 19:09
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7 comentários:
De Dolores Maria a 12 de Novembro de 2007 às 23:58
Olá
Muito boa noite minha amiga

Esta reza e Benzedura nada tem que ver com a
outra, gosto muito mais da forma, da escrita...
Já tive outra vez a sensação de estar sentada a
seu lado, ouvindo-a falar.

É muito gostosa esta sensação.
Desta gostei e muito, muito.
Os meus Parabéns mais esta vez.
Já estou sonhando como o dia de amanhã
só para saber o que nos vai oferecer para ler.

Beizinhos

DO LO RES


De António Piedade a 13 de Novembro de 2007 às 00:03
Olá - boa noite
Cá estou eu para ler a nova reza e benzedura
neste livro espectacular.
É muito bonita a forma como expõe estes textos,
a forma como as suas reminiscências se
imiscuem - num todo - nestes textos belos.
O seu português é magnífico.
Gosto IMENSO, e não lhe faço favor nenhum
com o que aqui comento, só tenho pena de não
ter as palavras necessárias para poder explicar o
quanto me inspira e o quanto me alegra o seu
blog.
... mas sinto... e admiro cada texto, cada pensamento,
cada reminiscência...

Parabéns
António Piedade


De Gustavo Frederich a 13 de Novembro de 2007 às 00:09
Minha amiga Maria José
Hoje, nesta semana tenho a Senhora minha
Mãe - aqui, na minha casa e como ela gosta imenso
de ler - e eu tive de ir trabalhar - dei-lhe para ler
os seus artigos ( que passo para o papel ) - num
dossier especial para si.
Pois bem a D. Rute gostou imenso e diz que nunca tinha lido nada tão bom.
Adorou as reminiscências e as rezas então...
está fascinada (ainda tem muito para ler - que bom!)

Como vê - aqui desta minha casa - tem agora
dois admiradores enternecidos pelas suas
belas palavras, de coração doce - só o seu.

Beijinhos da D. Ruta
e cumprimentos meus

Gostavo Frederich


De Francisco Parreira a 13 de Novembro de 2007 às 01:57
Perfeito!
Adoro vir ler e andar por aqui, nestas paginas
onde mora a cultura.
Maria José Rijo tem uma alma linda.
E escreve como ninguém.

Parabéns por este blog on-line.
Seu amigo

Francisco Parreira


De Flor do Cardo a 13 de Novembro de 2007 às 11:38
Minha boa amiga

Gostei desta sua colecção de Rezas e Benzeduras.
Toda a minha familia tem um exemplar deste seu livro. É realmente uma maravilha.

Agora queria dizer-lhe que gostei imenso da
carta do Dr. Helder - e cá de longe espero mesmo que o Jornal Linhas de Elvas leve "adelante"
tão justa ideia.
Se o meu amigo Ernesto estivesse vivo certamente
esta ideia teria saído da sua cabeça lucida e
justa.
Oh caramba que saudades tenho do Ernesto!

Com amizade

A Flor do Cardo


De Horácio Gomes a 13 de Novembro de 2007 às 13:42
Este seu blog
é uma delicia, uma alegria poder ter
acesso aos seus textos.
São mesmo bons - acredite - eu - seu admirador
não deixo de vir a este espaço - onde me sinto
felizmente Bem.

Os meus cumprimentos
Horácio Gomes


De Luis carlos Presti a 13 de Novembro de 2007 às 13:46
Cara amiga

Parabéns pelo seu blog, por estes belos textos
que me trazem à lembraça a saudade do passado que
do alentejo sinto.

Os meus Parabéns por alegrar os meus dias.

L.C. Presti


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