Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

A Fé e o Culto

 

Talvez a fé e o culto sejam complementares.
Talvez!

 Mas não necessariamente, em públicas manifestações exteriores.

Se a fé for sentida como a crença íntima, a força anímica de uma vida, e o culto for a sua manifestação exterior, quase concluiríamos que sem essa exteriorização não haveria fé o que, convenhamos não tem qualquer fundamento de verdade.
A fé é um sentimento intrínseco da alma, e, dela indissociável, se for autêntico. Então toda a vida da pessoa de fé, em todos os seus actos e atitudes dão disso testemunho até, e muito principalmente nos mais pequenos e insignificantes gestos.
Porque toda a sua vida é um acto de culto, uma oração.

Todo o seu caminho, todo o seu rumo é um esforço individual na procura do que - Crê – conduz ao almejado destino - o regresso ao Criador.
É erro pensar, julgo eu, que oração é apenas reza feita de palavras que prometem intenções, preces e lamúrias.
A oração é, muito principalmente – atitude. Acção.
Já o culto, em si, pode ser apenas exibicionismo, alarde, sem corresponder a qualquer sentimento autêntico de fé.
Pela fé morreram e morrem os cristãos.
Pela fé se suportam e sofrem injustiças e perseguições.
Mas, pela fé se luta para viver em sã consciência.
Quem acreditar que o pensamento dos homens registado em livros é – também - um bem deste mundo que com convicção, nos cabe defender, a sua obrigação, a sua oração – na

circunstância - é o dever de proceder em conformidade com aquilo que a sua consciência lhe impõe e mesmo obscuramente, cumpre.
Não pode, nem deve, estar à espera que se organize uma procissão que o leve em triunfo ou um banquete que aglutine multidões para que o vejam a exercer um dever - que descurou - anos e anos a fio, e, só cumpre à luz de holofotes e palmas em jeito de exibicionismo charlatão de quem a si próprio se cultura e despreza a verdade e o rigor a seu belo talante!
Essa, é em substância, a diferença que separa o alarde da autêntica fé.

                       ((  Sala Eurico Gama ))
Então:
Quem tivesse publicamente assegurado que um determinado trabalho não era prioritário, e tivesse retirado o pessoal que continuava a honrosa tarefa que outros antes tinham iniciado... e tivesse assim dado oportunidade a que alguns exemplares dessa riqueza tivessem desaparecido, pelo uso desprotegido, ignorante e desmazelado desse santuário, não viria quase vinte anos depois fazer, alarde público, mesmo que seja da remodelação duma nobre e bela Biblioteca – e, digo bela - porque é verdade e a verdade respeita-se e reconhece-se – quando os “santos” de culto andaram sabe Deus como e por onde! Tanto que alguns nem voltaram a casa... como oportunamente se registou – até - em jornais ...
Nem viria falar em pormenores de segurança – sem assumir - ter exposto aos azares da sorte em reuniões, descabidas - e incontroláveis – em tal espaço - os bens que agora em “publico acto de culto” assegura proteger , amar...e perigaram abandonados sob a sua responsabilidade.
Também não destruiria “a sala onde se preservavam como seu derradeiro pedido e vontade” as memórias legadas por quem fez do Amor à sua cidade o culto duma vida inteira.
Até em Fátima não se destruiu a “Capelinha” das aparições para construir a Catedral...
Fez-se o que a Fé impõe a quem a sente e respeita: incorporou-se.
A não ser que esteja na forja o
“Museu Eurico Gama” com todos os pertences por ele legados à cidade de Elvas e

depositados na antiga Biblioteca por sua viúva a Senhora Dona Maria Amélia Gama - em sala própria, conforme última vontade de seu Marido - há coisas que não se entendem...
Porque numa cidade onde o excesso de “Lembretes” do mesmo autor já chamou - pelo ridículo - a atenção de todo o país só se completará a história com o “museu da lembrança” do que se apagou para escrever outro nome por cima – sempre o mesmo - como se a história começasse em si e depois viesse o apocalipse!...

Como se os elvenses fossem acéfalos, ou imbecis sem eira nem beira, nem discernimento...


     
Honra à memória de Tomaz Pires que - desde 1880 até agora -tinha o seu nobre nome, que se pretendia imortalizado pelos seus contemporâneos, na parede do seu extinto Museu.
      Honra à memória de Eurico Gama, filho ilustre desta terra a que legou - com a sua preciosa biblioteca - o mobiliário modesto do seu gabinete de trabalho, testemunha muda da sua vida dedicada à glória e ao engrandecimento desta nossa cidade – e está agora reduzido a gavetas como se no cemitério do esquecimento o tivessem sepultado de vez!
     
[Oxalá os seus pertences não tivessem engrossado o “lixo” que à porta da Biblioteca tanto atraiu e “regalou”, até turistas espanhóis como a última bandeira da Monarquia que o Museu preservava...]
      Honra a ELVAS – cidade mãe de Heróis e Santos.
      Honra e glória à cidade que ao longo da História resistiu a vis cobiças, vaidades, cercos, saques e batalhas e sempre se reergueu vitoriosa pelo braço corajoso dos seus honrados filhos.

 

                               Maria José Rijo

@@@@@@

JORNAL LINHAS DE ELVAS - Conversas Soltas

Nº 2.943 – 15 de Novembro de 2007 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 18:44
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10 comentários:
De Dolores Maria a 15 de Novembro de 2007 às 23:14
Belissimo texto
e pela data foi publicado hoje...
Os meus Parabéns pela forma como defendeu
essa biblioteca. Só pode ser mesmo um belo
lugar.
Hoje em dia ninguem respeita nada e toda
a gente só querem estragar e afundar tudo o
que podem e não podem.
Sabe, eu acho que o mundo está perdido e
já não se respeita nada nem ninguem.

Gostei IMENSO deste seu artigo.
DO LO RES


De Gustavo Frederich a 16 de Novembro de 2007 às 01:01
PERFEITO !
Um texto excelente que defende o que qualquer
ser humano
deveria defender.
Hoje em dia a grande maioria das pessoas,
correm atras do material, esquecendo-se
do essencial.
Este artigo é um grito de coragem, de Fé e
paixão pelos livros.
As bibliotecas são templos sagradas onde os
livros são deuses e como este Eurico Gama -
um apaixonado por eles.
Percebi a tragédia e na minha alma resume-se
que quem ama os livros e os doa para uma
biblioteca - pensa que este desejo seja
respeitado por todos - mas não é bem assim.
Há sempre quem apareça - não para proteger
mas para destruir a obra de vidas, dedicadas.

É uma pena a falta de cultura e de sensibilidade
que muita gente atira aos olhos dos outros.

Parabéns por este seu texto.
Realmente está perfeito.
Os meus Parabéns.

G. F.


De Amilcar Martins a 16 de Novembro de 2007 às 11:56
Belo texto
Gosto Imenso da forma - desta sua forma
sublime de se expressar.
Este texto é brilhante e percebe-se que
que os livros são importantes para si pena
é que muita gente não entende que as bibliotecas
são catedrais que devereiam ser estimadas.
Este Senhor Eurico Gama certamente merecia
a sala que lhe fizeram - mas há gente que não
percebe nada destas coisas...

Com admiração
Amilcar Martins


De Flor do Cardo a 16 de Novembro de 2007 às 20:14
Os meus sinceros Parabéns.
Este Blog...
Este texto...
................. São surpreendentes.
Realmente quem não se interessou durante anos
na manutenção de uma biblioteca... vir agora
de Santo... o altissimo Rei e Senhor...
Por amor de Deus mas onde estamos... no
faroeste... só falta dar tiros... mas quem cospe para
o ar - mais tarde ou mais cedo... é ben na testa
que vai cair...
Aí ... vou-me eu rir.
Pelo menos poderiam ter consideração pela
memória do meu amigo Eurico Gama... Eu é que já
estou velho demais... senão quem dava alguns
tiros seria eu...

Muitos Parabéns
Seu amigo

Flor do Cardo


De maria josé a 16 de Novembro de 2007 às 20:52
Obrigada Flor do Cardo - muito obrigada, porque se todos os apois são de agradecer, o que nunca me cansarei de sentir, mesmo quando os guardo no meu coração e me calo, por um certo pudor que me vence...
A sua apreciação, por ser a de alguém que me conhece, bem como ao meio onde aquilo que comento vai acontecendo, tem um gostinho particular..
Respeito o seu gosto pelo anonimato, mas confesso - bem gostaria de conhecer quem desde há muito tempo, em momentos mais complicados sempre disse - estou aqui! coragem que sempre me fez bem


De Flor do Cardo a 16 de Novembro de 2007 às 22:59
D. Maria José
Agradeço do fundo do coração
as suas palavras.

Anonimato ... sim ... prefiro...

Com imensa amizade
Seu admirador

Flor do Cardo


De leoneljoao a 16 de Novembro de 2007 às 21:53
toda a honra e gloria a quem tem a coragem de denunciar os atropelos criminosos que no nosso burgo se fazem
obrigado Dª Maria José
Leonel


De maria josé a 17 de Novembro de 2007 às 10:18

Amigos - quando penso em si, sempre inclúo a sua mulher e...o Quim do abracinho à Matilde Araújo - daí o plural - Amigos
Pois é ! eu sei , tu sabes, ele sabe - nós todos sabemos... mas, quase todos calamos isto é: consentimos.
Porém às vezes , como no caso é demais.
Se AINDA houve Biblioteca para inaugurar, deve-se à Câmara de Carpinteiro que a recuperou da ruína, e... tão importante ou mais, se Há Arquivo Paroquial, deve-se - ainda - à defesa conseguida- nessa altura - com base em documentação de Eurico Gama!
Saber que sua viuva guardou durante nove anos o espólio do marido, para SÓ o entregar à cidade como ele pedira e, assistir ao arraso da história com a indiferença da Cidade não é facil para quem presar a honra à palavra dada, como norma de vida
Porém, vão assim os tempos - estes tristes tempos...
Se fosse do meu gosto pôr-me em bicos dos pés, era engraçado expor documentação bem elucidativa que não permite equivocos, mas, na minha idade sem sombra de dúvida posso afirmar que a única glória que conta é a da paz de consciência.

um beijinho
maria josé


De Curiosidade a 21 de Fevereiro de 2008 às 13:20
Olá gostraria que publicasse uma pequena biografia sobre eurico gama devido á falta de informação que existe sobre este grande homem!
obrigado pela atenção


De Maria José a 22 de Fevereiro de 2008 às 12:30
Sobre Eurico Gama
poderá consultar
a Enciclopédia
Luso Brasileira e na Internet através do google.

Maria José


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